A pandemia e as aprendizagens. O impacto é preocupante

Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) divulga resultados preliminares do estudo “Diagnóstico das Aprendizagens”. Os primeiros indicadores revelam dificuldades. Mais de metade dos alunos não conseguiu atingir os níveis esperados em conhecimentos elementares a Leitura, Matemática e Ciências.
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O Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) quer identificar falhas de aprendizagem, durante a suspensão do ensino presencial devido à pandemia, e quis perceber em que condições os alunos do Ensino Básico acompanharam as aulas durante o primeiro confinamento. Em janeiro deste ano, alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos responderam a um inquérito. As primeiras conclusões acabam de ser divulgadas e o panorama destapa fragilidades. O Governo decidiu criar um grupo de trabalho para debruçar-se sobre o assunto e apresentar caminhos.   

Mais de 50% dos alunos do 6.º e 9.º anos não conseguiram atingir os níveis esperados em três áreas: literacia matemática, literacia científica, e literacia de leitura e informação. Os estudantes do 6.º ano são os mais afetados pelo ensino à distância, enquanto os mais novos, do 3.º ano, tiveram mais facilidades em continuar a aprender em casa. A Matemática continua a ser a grande dor de cabeça. 

Os resultados dos testes diagnóstico revelam fragilidades em todos os níveis de ensino. Mais de metade dos alunos tem menos de dois terços das respostas certas no nível mais baixo das áreas avaliadas. Nessa bateria de testes, o IAVE estabeleceu como positivo se os alunos respondessem a pelo menos dois terços das tarefas (66,6%), em quatro níveis de perguntas, desde questões mais simples de nível 1 às mais complexas de nível 4. Apenas 39,5% dos alunos do 9.º ano conseguiram ter positiva, ou seja, dois terços das perguntas respondidas corretamente no nível 1, mais de metade teve positiva no nível 2.

Entre os estudantes do 6.º ano, 44,4% tiveram positiva no nível 1 e nos níveis seguintes os resultados foram ainda mais baixos. No 3.º ano, 62% tiveram positiva no nível mais fácil. Na literacia da leitura e informação, o 9.º ano tem melhores resultados, o 6.º ano os piores. Em Ciências, apenas 44,1% dos alunos do 9.º ano e 48,7% do 6.º ano atingiram os conhecimentos expetáveis no nível 1. Na Matemática, os valores são ainda mais baixos: 39,5% dos alunos do 9.º ano e 44,4% dos do 6.º demonstraram conhecimentos no nível mais elementar. “Continuamos a ter um grande problema nesta disciplina e continuamos a ter os alunos do 6.º ano com os resultados mais baixos”, sublinhou Luís Santos, presidente do IAVE, na apresentação pública dos primeiros indicadores do estudo. 

Mais apoio, menos dificuldades
Grande parte dos alunos teve ajuda da família durante o ensino à distância no primeiro confinamento: 69,6% dos alunos do 3.º ano afirmaram que receberam apoio, tal como 72% do 6.º ano e 57,4% do 9.º. Mais de 50% dos pais ajudaram as crianças do 3.º e 6.º anos a fazerem um horário de organização do estudo, só 30,9% do 9.º ano o fizeram. O estudo do IAVE mostra ainda que cerca de metade dos alunos do 3.º ano teve apoio da escola, nomeadamente para ver se estavam a conseguir realizar as tarefas propostas (51,9%), para saber como se estavam a sentir (42,6%), e até para ensinar truques sobre como estudar autonomamente (39,4%). Esta atenção foi menos expressiva entre os alunos do 6.º e 9.º anos.

Para muitos estudantes foi complicado encontrar um sítio sossegado para estudar em casa ou ter equipamentos para assistir às aulas online. Cerca de 20% dos alunos do 3.º ano disseram ter dificuldades em encontrar sempre um lugar tranquilo para estudar e 17% queixaram-se de não ter computador, tablet ou telemóvel para trabalhar. Cerca de 15% dos alunos referiram que, por vezes, não tinham acesso à internet.

Houve pouca motivação para fazer os trabalhos de casa, pais e alunos passaram a valorizar a escola e os seus professores, sobretudo entre os mais novos. Mais de nove em cada dez crianças do 3.º ano, mais precisamente 93%, referiram ter saudades da escola. Quase nove em cada dez alunos do 6.º e 9.º anos revelaram que os seus professores estiveram disponíveis sempre que precisaram. E 96,5% dos alunos do 3.º ano, 82,8% do 6.º e 72,8% do 9º ano sentiram falta do desporto e outras atividades físicas organizadas pela escola. 

Ministério quer ouvir os professores 
A utilização das novas tecnologias não foi um processo complexo: 96,4% dos alunos do 3.º ano disseram não ter tido muitas dificuldades na utilização do computador para fazer os trabalhos da escola. E 85,5% dos alunos do 6.º ano e 82,6% do 9.º referiram que as aulas online acabaram por melhorar as suas capacidades de utilizar o computador para realizar tarefas escolares. Mesmo assim, os manuais escolares, os cadernos de atividades e as fichas em papel continuaram a ser materiais muito utilizados no ensino à distância.

O Governo criou um grupo de trabalho multidisciplinar e independente que, em breve, apresentará recomendações para combater os efeitos da pandemia na aprendizagem dos alunos. “Não podemos achar que depois de dois anos de pandemia está tudo igual”, sublinhou João Costa, secretário de Estado da Educação, durante a apresentação de dados preliminares do estudo do IAVE. O plano de recuperação terá em conta soluções “curriculares, pedagógicas e organizacionais” ao nível das escolas.

O estudo do IAVE envolveu 23 340 mil alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos, num total de 1 338 turmas e 313 escolas, mas só 12 960 responderam ao inquérito. O diagnóstico do impacto da pandemia e do ensino à distância nas aprendizagens será prolongado para perceber o que se passou no segundo confinamento. O Ministério da Educação quer também ouvir os professores nesta avaliação das repercussões da pandemia no ensino, nas aprendizagens, nas escolas. 
 

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