Encerramento das escolas profissionais “deixou marcas que importa colmatar”

As escolas profissionais aguentaram o embate da covid-19. O ensino mais prático foi reposicionado no currículo. Os alunos não abandonaram os cursos e vão ter a oportunidade de recuperar aprendizagens. “Esforços foram feitos para que nada ficasse por fazer, mas não se fazem milagres”, alerta o presidente da Associação Nacional de Escolas Profissionais, José Luís Presa.
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Ensinar à distância no ensino profissional, uma modalidade mais orientada para a prática do que a teoria, “é difícil, especialmente quando não é possível adotar o regime misto, que combina aulas presenciais com aulas online”. Mas é o que tem acontecido desde o encerramento das escolas em janeiro. O presidente da Associação Nacional de Escolas Profissionais (ANESPO), José Luís Presa, faz ao EDUCARE.PT um apanhado dos desafios que a covid-19 colocou ao ensino profissional.

Dados sobre o ensino profissional, compilados no relatório anual “Estado da Educação”, do Conselho Nacional da Educação, mostram um aumento do número de alunos inscritos. Mais de 115 mil alunos frequentavam o ensino profissional no ano letivo de 2018/2019.  Tal como os restantes alunos, também os do profissional foram forçados pela covid-19 a trocar as aulas presenciais pelas online. Mas, ao contrário do que aconteceu no ensino regular, a natureza prática dos cursos profissionais impactou de modo diferente a aprendizagem destes alunos.

A passagem para o ensino online impôs a reprogramação das atividades letivas e adaptações curriculares. Os módulos práticos do 10.º ano foram adiados para o 11.º ano e os do 11.º ano foram adiados para o 12.º ano. Para os alunos do 12.º ano, ano terminal dos três anos que compõem os cursos profissionais, “foram desenhadas estratégias muito variadas”, explica José Luís Presa, que “passam pela substituição das formações em contexto real de trabalho, por práticas simuladas nas escolas”.

Esforços que, no entanto, “não fazem milagres”, constata o presidente da ANESPO, admitindo que “seria muito difícil dizer que não existiram e existem lacunas e insuficiências na transmissão de saberes e no cumprimento dos planos curriculares dos cursos”. Foi assim em 2019/2020 e será igual em 2020/2021. “Nunca pensamos que iríamos ter mais um ano com constrangimentos idênticos aos do ano anterior.”

Recuperar aprendizagens
Questionado sobre como será a recuperação do que ficou por aprender nos períodos de suspensão das aulas presenciais que afetaram já dois anos letivos consecutivos, José Luís Presa lembra que as escolas profissionais estão muito habituadas a recuperar aprendizagens, “porque assumem o princípio da individualização da formação em que nenhum alunos pode ficar para trás”. Ou seja, o aluno tem sempre uma segunda oportunidade para atingir o mesmo nível da turma. “Isto significa que o desenho de estratégias de recuperação dos alunos são o dia a dia das escolas profissionais com vista ao sucesso educativo”, explica.

Por melhor que seja a capacidade de adaptação das escolas profissionais, o presidente da ANESPO adverte que a desregulação do sistema escolar, devido às medidas de confinamento, deixará marcas.  Porque “uma coisa é desenvolver formações de natureza prática em contexto escolar, de forma síncrona, outra é ter de desplanificar o que estava bem planeado e dessincronizar as componentes, sociocultural, científica e prática dos cursos”.

Acresce o problema da colocação dos formandos em estágio. Trata-se de uma vertente dos cursos profissionais que os distingue do ensino regular e que remete para uma experiência de formação em contexto de trabalho. “Uma coisa é fazer um estágio, normalmente, numa empresa, outra bem diferente, para quem está a iniciar-se, é fazê-lo à distância, sem os professores e os tutores presentes.” Algo que nem sempre foi possível devido ao encerramento de muitas empresas na área do turismo, restauração, comércio e espetáculos, que recebem os formandos.

Apesar dos constrangimentos, José Luís Presa afirma que escolas profissionais conseguiram “evitar um prejuízo maior” pondo em prática algo que já faziam: “Distribuíram os períodos de estágio por  dois ou mesmo pelos três anos dos cursos, o que minorou o problema”, que “poderia ser maior se os estágios tivesse lugar apenas no terceiro ano e, nesse ano, os hotéis e restaurantes estivessem fechados, como está a acontecer”.

O importante, garante, é que estes “prejuízos” sejam colmatados, posteriormente. A necessidade de colmatar os danos causados pela pandemia na educação e, em especial, no ensino profissional, constitui um dos alertas feitos aos 27 Estados-membros, pela Comissão Europeia. O  relatório Monitor da Educação e Formação 2020 confirma que na União Europeia o encerramento das escolas causou dificuldades acrescidas aos alunos do ensino profissional.

Vejam-se alguns exemplos, como o da República Checa onde apenas um quarto das escolas profissionais, ao nível do secundário, foi capaz de envolver todos os alunos no ensino à distância e um ficou mesmo sem aulas. Na Dinamarca, a pandemia reduziu bastante a oferta de estágios, ao ponto de o Governo estar agora a subsidiar a criação e a continuidade dos programas de estágios em empresas. O mesmo aconteceu na França, que começou a dar apoios financeiros às empresas destinados à contratação de estagiários.

Nem todos os países sentiram estes efeitos negativos. Na Finlândia, a adaptação dos alunos do ensino profissional às aulas à distância foi fácil, graças à flexibilidade do sistema modular. Acresce ainda que antes da covid-19, 28% dos alunos do profissional já usava ocasionalmente ferramentas de aprendizagem online e 15%  fazia-o com regularidade. Na Letónia, a fusão de escolas profissionais de menor dimensão em 2019 deu origem a grandes Centros de Formação, modernos e bem equipados , o que facilitou a resposta durante a crise.

Em Portugal, apesar dos contratempos, o presidente da ANESPO constata que “as escolas profissionais sempre foram muito ecléticas, muito resilientes e revelaram grande capacidade de adaptação”. As escolas profissionais “historicamente, sempre estiveram na primeira linha da informatização e da digitalização”.

“Se não fosse a falta de recursos financeiros dos últimos anos, por força da não atualização das tabelas fixas de custos, por turma, a situação seria bem melhor”, contrapõe. “O Portugal 2020 deixou expressivas marcas de subfinanciamento do ensino profissional, em contraponto com o tempo do PRODEP e das Novas Oportunidades.”

As conversações mantidas, por estes dias, com o Ministério da Educação deixam José Luís Presa na expectativa de que os fundos que vão ser disponibilizados pelo Plano de Recuperação e Resiliência sejam dirigidos para a generalidade das escolas e não apenas para algumas. “Todas elas precisam de remodelar instalações, adquirir novos equipamentos, ferramentas e recursos didáticos.”

Ao contrário do que acontece noutros países europeus, como a Bélgica, onde existe um elevado abandono, o presidente da ANESPO afirma que em Portugal as escolas profissionais são as que registam níveis mais baixos de abandono escolar. “Os alunos estão a frequentar cursos que gostam, não abandonam os cursos e são bem sucedidos, pessoal e profissionalmente.”

Quando ao futuro, José Luís Presa não tem dúvidas sobre o caminho a seguir: “Se queremos dar saltos qualitativos no sentido do progresso económico e social, da digitalização, da descarbonização e da reindustrialização, é preciso investir nas escolas e, em particular, nas que preparam os alunos para a integração no mercado de trabalho que reclama jovens cada vez mais especializados e qualificados.”

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