Regressar às escolas. A contagem decrescente começou

Pedidos para reabertura urgente dos estabelecimentos de ensino surgem de vários lados com posições fundamentadas. Aconselha-se um desconfinamento gradual a começar pelos mais novos. Governo apresenta plano de desconfinamento no dia 11.
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O país prepara-se para desconfinar e há questões que reúnem um amplo consenso. O desconfinamento começará pelas escolas, o ensino à distância não substitui o ensino presencial, há aprendizagens que se perdem, momentos de convívio que não se recuperam. O Governo anunciou um investimento de 20 milhões de euros para testes à covid-19 em todas as escolas públicas e pondera incluir os professores nesta fase de vacinação. O plano de desconfinamento é divulgado no dia 11 e tudo indica que as creches e o pré-escolar reabram já a 15 de março. 

Os pedidos para a reabertura dos espaços escolares têm sido constantes e vêm acompanhados de sólidos argumentos e avisos sobre o futuro. É o caso da Sociedade Portuguesa de Pediatria, do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, e da Comissão Nacional da Saúde Materna, da Criança e do Adolescente que pedem a abertura urgente das escolas. E explicam as razões num texto assinado em conjunto, com data de 1 de março, publicado no site da Sociedade Portuguesa de Pediatria com o título “As crianças, a covid-19, as escolas e o seu futuro em sociedade”. Falam de desafios, decisões, consequências. As crianças precisam reencontrar o seu equilíbrio e desenvolver todo o seu potencial. Reabrir escolas para minimizar custos. “Pela saúde das crianças, pela saúde da sociedade, pelo futuro de todos”, sublinham. 

As rotinas das crianças, adolescentes e jovens foram profundamente alteradas, as escolas fecharam, reabriram, voltaram a encerrar. Os impactos são visíveis. As crianças com necessidades educativas especiais não têm tido os apoios fundamentais. O tempo perdido será difícil de recuperar. As crianças em risco social elevado ficam ainda mais em risco por causa do distanciamento. O ensino à distância não tem a qualidade do ensino presencial e as diferenças acentuam-se. A saúde mental, principalmente dos adolescentes, é uma preocupação. O acompanhamento das atividades escolares por parte dos pais é comprometido pelo teletrabalho e pelas inúmeras tarefas que têm de fazer. E o stress aumenta dentro das casas. 

“Muitas das atitudes e decisões tomadas foram e são nocivas para as crianças e têm repercussões importantes na sua vida, atual e futura, e na sua inserção em sociedade”. “Enquanto persistem dúvidas sobre a eficácia do encerramento das escolas no controlo da disseminação da doença, a ação nefasta sobre as crianças é evidente”, lê-se no texto. 

Ansiedade, depressão, distúrbios
As estruturas alertam para as consequências ao nível do desenvolvimento, da aprendizagem, dos comportamentos, das rotinas e do relacionamento familiar e social. “As crianças viram-se privadas de brincar e de conviver com os seus pares e o ensino à distância veio aumentar as horas de exposição a ecrãs, com os riscos a eles associados”. Aumentam os momentos depressivos e a ansiedade e os distúrbios alimentares e as desigualdades sociais. 

“A impossibilidade de atividades ao ar livre, com outras crianças, e a ausência de atividade física estruturada, aliada a alimentação nem sempre equilibrada, tem também condicionado aumento de excesso de peso e obesidade, com implicações sérias para a saúde”, avisam no texto. E deixam o alerta: “Todas estas alterações, e as desigualdades sociais e riscos associados, terão certamente efeito direto na esperança de vida destas crianças e na capacidade de evolução da própria sociedade nos anos futuros”.

Paula Carqueja, presidente da Associação Nacional de Professores (ANP), considera que faz todo o sentido reabrir os espaços para os mais pequenos, até aos seis anos, já em março. Creches e jardins de infância durante este mês, depois da Páscoa o 1.º Ciclo primeiro e os restantes níveis de ensino com intervalos de alguns dias, Secundário por último. Desta forma, refere, “as estratégias e metodologias que estão a ser trabalhadas continuariam mais uma semana, semana e meia”, até ao 3.º período. Em abril, os alunos de todos os níveis estariam nas escolas.  

“Há toda uma planificação que se pode manter”, diz ao EDUCARE.PT. Paula Carqueja defende um desconfinamento controlado, faseado, por degraus, com a devida preparação para o regresso ao ensino presencial. “Um desconfinamento gradual, minimizando os riscos de uma acumulação de pessoas, para não voltarmos a confinar”. O regresso é muito aguardado. “As crianças precisam de aprender, de brincar, de correr, de socializar. A escola faz falta mais do que nunca”, refere.   

“Crianças e jovens pagam um preço muito alto”
Um grupo de cerca de 100 especialistas das áreas da saúde e da educação pediu a reabertura das escolas, a começar pelos mais novos. Margarida Tavares, infeciologista, coordenadora do internamento covid-19 do Centro Hospitalar Universitário São João, no Porto, subscreveu essa carta aberta. “O prejuízo ultrapassa muito o benefício. As crianças e jovens pagam um preço muito alto”, referiu em entrevista à Lusa. 

Prejuízos no processo educativo, na socialização, no crescimento, no desenvolvimento. “Não podemos só sacrificar a liberdade e a democracia para transmitir a mensagem. Não pode ser só apostar em medidas restritivas e altamente punitivas”, sublinhou a também responsável pela elaboração do plano de contingência para a covid-19 do centro hospitalar. 

Margarida Tavares acredita nas pessoas, considera que os portugueses se estão a comportar de maneira exemplar, que é preciso comunicar medidas de forma honesta e informada, e que é “urgente” reabrir as escolas. “Temos de explicar às pessoas que não podem passar do confinamento para uma situação de normalidade”, afirmou à Lusa. A infeciologista defende um desconfinamento gradual e “bem explicado” para, sustenta, “não se correr o risco de levar erradamente à sensação de que tudo já passou”. 

“As pessoas têm de compreender que uma nova vaga é natural no processo em que estamos. Esperemos que não seja tão acentuada e com crescimento tão abrupto como foi esta última. Quando o crescimento é muito rápido é difícil a adaptação da resposta”, disse a médica do Hospital de São João.

Henrique Barros, epidemologista e presidente do Conselho Nacional de Saúde, também assinou a carta aberta dos especialistas em saúde e educação, defendendo a reabertura das escolas. O desconfinamento, em seu entender, deve ser gradual e começar pelos estabelecimentos de ensino. Até porque, como se sublinha no texto, “as escolas não são contextos relevantes de infeção e, durante o 1.º período, as medidas sanitárias em vigor nas escolas provaram que o curso da epidemia foi independente das escolas estarem abertas”. Reabrir sim, mas manter e reforçar medidas, arejar os espaços, manter distâncias entre assentos, evitar o agrupamento de pais e alunos, reforçar o rastreamento e assegurar a quarentena de crianças e jovens. 

“As escolas não são um fator de risco. Nós todos, como sociedade, é que temos de compreender que para manter as escolas abertas isto não pode significar que tudo está como era dantes”, referiu o especialista em Saúde Pública à SIC. Neste momento, vincou, faz todo o sentido começar a desconfinar pelas escolas. De qualquer forma, as decisões são mais complexas do que quaisquer números. “Temos de pensar, enquanto sociedade, em que tipo de sociedade queremos viver, que tipo de vida queremos partilhar uns com os outros socialmente”. 

É uma doença e, por isso, algo que não se controla e os números não vão decrescer para zero. “O desconfinamento é um termo genérico para um conjunto imenso de medidas e de atitudes perante a infeção. É uma decisão que deve ponderar indicadores epidemiológicos, mas também ponderar e jogar esses números com indicadores de natureza económica e, sobretudo, indicadores de natureza social, para responder à necessidade das pessoas”, sublinhou. 

 

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