Feridas e marcas do segundo confinamento

Os alunos estão no segundo período letivo sem aulas presenciais no espaço de um ano e o impacto é significativo, não apenas ao nível da aprendizagem. O elevador social da Escola treme e pode descer a diferentes velocidades. As oportunidades não são iguais para todos.
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Antes de fevereiro terminar, mais de 100 especialistas em educação e saúde juntaram-se numa carta aberta para pedir ao Governo e ao Presidente da República o regresso às escolas em março, ao regime presencial, com segurança e de forma contínua, a começar pelos mais novos. O grupo defende que é “urgente, para o presente e para o futuro do país, adotar medidas, com base na ciência e nos dados, capazes de proteger a escola como um bem essencial”.

As consequências na saúde física e mental do segundo confinamento não são esquecidas e realça-se que os dados demonstram que é possível manter a pandemia controlada com as escolas abertas, com as devidas precauções. Os signatários da carta sustentam que há estudos, e até pela própria experiência clínica de alguns, que “mostraram o aumento de problemas psicológicos e psiquiátricos das crianças e jovens associados ao confinamento e ao fecho das escolas (depressão, ansiedade, perturbação alimentar, auto lesões, etc.)”.

A carta evidencia vários aspetos. Desde logo que o regime à distância é menos eficaz do que o ensino presencial, que o confinamento multiplica desigualdades a diversos níveis, que o atraso na aquisição de aprendizagens “pode levar à reversão do avanço das últimas décadas na diminuição da desigualdade social e no abandono escolar precoce”. “O encerramento de escolas em Portugal durante o ano de 2020 foi dos mais longos da União Europeia, nomeadamente no Ensino Básico, o que comprometeu o direito à educação de crianças e jovens, bem como o direito à infância, entendido em sentido lato, como o direito às relações e à convivência com os pares”, escrevem.

Filinto Lima, professor, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), é um dos signatários da carta aberta e espera que o Governo apresente um plano estratégico de regresso ao ensino presencial em segurança e no mais curto espaço de tempo. Na sua opinião, esse regresso deve ser faseado, gradual, por níveis de ensino, começando pelas creches e pelos jardins de infância. O impacto do ensino à distância é visível. Este segundo confinamento deixa marcas.

“Não podemos ver este segundo confinamento isoladamente. Na prática, num curto espaço de tempo, no espaço de um ano, vamos a caminho de dois períodos letivos à distância”, refere ao EDUCARE.PT. “E é evidente que isto deixa feridas que têm de ser saradas, não nos próximos meses, mas durante os próximos anos”, acrescenta. Filinto Lima sustenta que têm de ser encontradas soluções para sarar essas feridas e resolver as aprendizagens não realizadas, deficientemente realizadas, ou não realizadas de todo.

O presidente da ANDAEP diz, porém, que não se pode diabolizar o ensino à distância. “É o que temos e não há outra forma, pela nossa segurança, pela nossa saúde”. Mas é um modelo com fragilidades. “A escola é um elevador social, não há dúvidas. Quando o elevador é movido pelo ensino à distância, desce devagarinho para uns e desce muito depressa para outros”, repara. A situação é complexa. “Não podemos estar só amarrados ao critério do computador e da net”, avisa. Filinto Lima alerta para as condições muitas vezes precárias que os alunos têm em casa, para o ambiente em que estão a aprender.

Não se recomeça do sítio onde se parou
Manuel Pereira, professor, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), recua ao ano passado, primeiro a março, ao dia 9, ao alerta para encerrar as escolas logo no início da pandemia, o que veio a acontecer alguns dias depois, a 13. E recua também a dezembro, altura em que se pediu o início do 2.º período uns dias mais tarde para os mais pequenos e o regime de ensino misto a partir do 2.º Ciclo, perante a evolução da pandemia. A meio de janeiro, as escolas voltaram a encerrar e o ensino à distância voltou.

“Associar o sucesso da luta contra a pandemia com o encerramento das escolas era o que não queríamos”, confessa Manuel Pereira ao EDUCARE.PT. Quando, para mais, os diretores escolares afirmavam e reafirmavam que as escolas eram espaços seguros. “As coisas são o que são, o bem maior é a saúde, parar foi um mal necessário”, comenta.

O impacto de tudo o que está a acontecer é proporcional à idade dos alunos. “Quanto mais novos, mais prejudicados são”, refere o presidente da ANDE. Prejuízos enormes, repara, para os mais novos, para os que frequentam os primeiros anos do 1.º Ciclo, sobretudo para os do 2.º ano de escolaridade, quando se consolidam aprendizagens na leitura, na escrita, na matemática. Prejuízos que têm de ser reparados. “E nunca se pode recomeçar no sítio onde se parou”, realça.

Para Manuel Pereira, os mais novos, do pré-escolar e do 1.º Ciclo, principalmente dos anos iniciais deste nível de ensino, deviam voltar à escola o mais depressa possível, preferencialmente ainda no início deste mês. “Seria muito bom para todos. É preciso pensar que as famílias não são todas iguais, as condições que umas têm, outras não têm”. O regresso ao ensino presencial é bastante aguardado. “A escola é o grande elevador social e o grande nivelador em termos de oportunidades”, afirma.

Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), também assinou a carta aberta dirigida aos governantes e a Marcelo Rebelo de Sousa. Em seu entender, é preciso começar a desconfinar pelos mais novos, reabrindo creches, jardins-de-infância, escolas do 1.º Ciclo, com respeito por todas as regras sanitárias. “Dar oportunidade para que possam brincar e se desenvolverem com toda a naturalidade”, afirma ao EDUCARE.PT. “Temos de começar de alguma forma, começa a ficar muito tarde. Se for depois da Páscoa, vai ser difícil ter um desconfinamento cuidadoso porque o ano letivo está muito perto do fim”, acrescenta.

As consequências do segundo confinamento vão sendo comentadas, a análise é feita conforme casos e situações, a avaliação não está fechada e não se sabe quando estará. “O impacto é tremendo e é um impacto muito desigual”, alerta o presidente da CONFAP. “A forma como os planos de trabalho são feitos depende muito dos professores”. Há crianças que acompanham e há crianças desligadas. Há casas com conforto e espaço, há casas sem nada disso. As famílias têm de fazer um esforço para trabalhar e acompanhar a nova rotina escolar dos filhos. Há alunos com suporte familiar robusto, há outros sem rede e sem apoio dentro de casa.

Quais as repercussões na saúde mental, social, física da comunidade escolar? Ainda ninguém sabe com exatidão. Sabe-se, porém que a pandemia não se foi embora. “Ainda não se sabe o impacto ao nível da saúde psicológica”. A reabertura das escolas tem também o efeito de mobilidade, sublinha Jorge Ascenção que defende um desconfinamento lento, faseado. “Ir devagarinho para não estragar tudo”. Até porque, feitas bem as contas, há alunos fechados há quase um ano. E o presidente da CONFAP alerta para o aumento da taxa de abandono e absentismo escolares. “Vai ser mais difícil manter esses alunos no radar, incentivá-los e ajudá-los para não desistirem”.

Regressar com prudência e cautela
A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) exige um processo negocial para aprovação de medidas de prevenção e segurança sanitária na reabertura das escolas. O regresso ao ensino presencial é importante, em seu entender, até pelo que se tem verificado no ensino à distância neste confinamento. A estrutura sindical que representa os professores lembra o incumprimento da promessa de dotar todos os alunos e professores com computadores e internet móvel de banda larga.

Mais do que imprudente, segundo a FENPROF, “seria irresponsável que, após a reabertura se mantivesse a insuficiência de medidas verificada entre setembro e dezembro (principalmente falta de distanciamento nas salas e escassez de assistentes operacionais), período em que a norma foi a não realização de testes, mesmo aos contactos próximos de pessoas infetadas”.

A Federação Nacional da Educação (FNE) pede prudência e cautela no regresso ao ensino presencial que deve, em seu entender, acontecer o mais rapidamente possível. A FNE pede pareceres claros das autoridades de saúde, condições de segurança, um novo conjunto de medidas de proteção para um regresso gradual e avaliado em permanência.

A FNE insiste na necessidade de se reverem orientações em termos de distanciamento físico em contexto escolar, nomeadamente quanto ao número de alunos por sala, e no acesso prioritário às vacinas para docentes e trabalhadores não docentes nas escolas. “O regresso ao ensino presencial não é ditado por razões de ordem económica, mas torna-se imperioso, em nome do desenvolvimento e bem-estar dos nossos alunos e da diminuição das múltiplas desigualdades que o afastamento da escola implica”, sustenta.

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