Dia 19 – Os Inimputáveis

Há um par de dias, no contexto da preparação do debate sobre a renovação do estado de emergência, o ministro da Administração Interna culpou os portugueses pela degradação da situação pandémica no mês de Janeiro. Algo parecido já tinha sido feito umas semanas antes por outro ministro (o da Economia) num exercício muito habitual em políticos que, perante adversidades, optam logo por se desresponsabilizar de tudo o que acontece. Quando as coisas correm bem, apressam-se a aparecer a colher os foguetes e louros e a anunciar festividades onde se distribuem palmadinhas nas costas à discrição.
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Mas quando as coisas correm mal, a culpa tem sempre outros responsáveis: do estado do tempo (chova muito ou pouco, faça muito calor ou não, está sempre alguma coisa acima ou abaixo da média), das míticas “forças de bloqueio”, de tenebrosos “interesses corporativos”, da “conjuntura internacional” ou, quando as coisas apertam mesmo, da populaça, da arraia-miúda, do povinho que não entende a luminosa orientação das elites governativas, o sentido verdadeiro da brilhante legislação produzida em cascatas sucessivas. De quem diagnosticou de forma imperfeita os problemas e definiu medidas erradas é que a culpa nunca é porque decisor político parece ser inimputável por definição.

A Educação não é excepção. Se corre bem, foi das políticas desenvolvidas pela tutela; se corre mal, ou foi por causa do ministro anterior (caso seja de outra cor política) ou porque “as escolas” e os professores não entenderam a mensagem, não conseguindo aplicar as directrizes que de forma tão cuidada e certeira tinham sido prescritas. De há uns bons anos para cá, a primeira razão apontada para qualquer inconseguimento na área da Educação é a “falta de formação” dos professores. Inicial, contínua, intermitente ou final.

Os alunos têm piores resultados em exames? Os professores precisam de formação em “novas pedagogias” ou em “novas metodologias de avaliação”. Há um problema qualquer na sociedade, desde a pobreza e exclusão social aos défice da balança comercial? Os professores têm falta de formação, da “inclusão” ao “empreendedorismo”, passando por igualdade de género ou prevenção rodoviária. E aparecem logo uns grupos de trabalho prontos a facultar tal formação, prometendo um novo (mini) paradigma na problemática em apreço.

E o curioso é que muitos dos mais entusiasmados defensores da necessidade de melhor formação dos professores são pessoas que levaram a sua vida a leccionar em cursos de formação de professores. Ou como colaboradores dos decisores políticos. Ou mesmo anos em cargos de decisão política. Mas a responsabilidade nunca foi deles.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

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