Um aprender "diferente" na Vila das Aves

A Escola da Ponte é há mais de 20 anos uma referência nacional (e até internacional) de como ensinar e aprender sem muitas das "regras" que muitos podem chamar de "normais". Um sistema inovador que não tem parado de dar frutos e que, acima de tudo, pretende "fazer crianças felizes".
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Na Escola nº 1 da Ponte, em Vila das Aves, cada um dos cerca de 120 alunos que a frequentam é único. "É irrepetível". Por isso, não há um professor para cada turma (até porque não há turmas), não há manuais iguais para todos, não há classes, nem uma distribuição de alunos por anos de escolaridade. A ideia é que grupos de alunos nasçam sempre que surgem novos projetos.

Desde 1977, o lema dos professores desta escola é "tentar fazer crianças felizes". E, para isso, é-lhes dada total liberdade para aprender, para participar na vida da escola, para partilhar o seu saber com os colegas. Sempre com dois valores fundamentais presentes: a solidariedade e a autonomia, a que se submete toda a organização da escola.

José Pacheco, um dos professores da Escola da Ponte, explica que os alunos trabalham permanentemente em cooperação, em grupos heterogéneos, "em que há sempre um aluno que precisa de mais ajuda". Além disso, cada criança segue o seu próprio ritmo e o seu próprio plano.

Segundo José Pacheco, a criança "age como participante de um projeto em que aprende a ser autónoma-com-os-outros". E acrescenta que ali não se educa apenas para a autonomia, "mas através da autonomia, nas margens de uma liberdade possível matizada pela exigência da responsabilidade".

A aprendizagem desenvolve-se em pequenos grupos de alunos com interesse comum por um assunto que se reúne com um professor e, todos juntos, estabelecem um programa de trabalho de 15 dias. O professor dá orientação sobre o que as crianças devem pesquisar e onde e, ao fim de 15 dias, elas fazem uma avaliação do que aprenderam. Se os resultados forem positivos, o grupo dissolve-se e é formado outro para estudar uma nova matéria.

Dentro de cada grupo, a gestão dos tempos e espaços permite vários momentos de trabalho: trabalho em pequeno grupo, participação no coletivo, "ensino mútuo" e trabalho individual. José Pacheco exemplifica, dizendo que, "num mesmo instante, um aluno pode dirigir-se à biblioteca para recolher informação, outro poderá estar com um grupo na oficina de expressão plástica, enquanto outro poderá estar no cantinho da informática a fazer um texto ou a rever textos de outros colegas para fazer o jornal".

As novas tecnologias estão presentes neste estabelecimento de ensino desde 1991, o computador é encarado "como qualquer outro dispositivo disponível na escola" e diariamente há meninos a trabalhar na Internet e todos estão familiarizados com o envio de correio eletrónico e com as conversas on-line.

Semanalmente, reúne-se a Assembleia da Escola. Esta é eleita anualmente, no início do ano escolar, depois de apresentadas as listas e debatidas as ideias e as propostas. Esta reunião é um momento de trabalho coletivo onde se introduzem temas de estudo, se apresentam comunicações, se analisam dificuldades e se debatem as questões relacionadas com o funcionamento da escola - limpeza, jardim, decoração das salas.

Esta escola está classificada como uma Eco-escola - exibindo na fachada uma bandeira azul da Europa -, um galardão a premiar o exemplo que representam ao nível da sensibilização para a preservação ambiental. José Pacheco diz que, em Portugal, há mais escolas com esta atitude perante as crianças e a aprendizagem. Escolas essas que têm "identidade própria" e não são "réplicas" da Escola da Ponte. Mas são escolas com que muitos professores sonharam. Como Ruben Alves, que assim escreveu sobre a escola de Vila das Aves: "... a escola com que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. Mas existia, em Portugal... Quando a vi, fiquei alegre e repeti, para ela, o que Fernando Pessoa havia dito para uma mulher amada: "Quando te vi, amei-te já muito antes..."".

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