AVATAG, a aplicação criada por uma mãe que pode mudar a vida dos cegos

Chama-se AVATAG e é uma aplicação que permitirá aos cegos identificar produtos, detergentes, medicamentos e tanta coisa, através da leitura de símbolos com código, no telemóvel. Sílvia Machado - que cegou já em adulta - despertou para a necessidade de criar esta aplicação devido à dificuldade de comunicação com a escola dos filhos.
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Uma aplicação no telemóvel pode permitir em breve mudar a vida de milhares de cegos em todo o país (e no mundo). A ideia inédita de Sílvia Machado, 43 anos, residente em Aveiro, foi contemplada pelo programa Portugal Inovação Social, e só ainda não está acessível porque demorou até encontrar um investidor. Mas depois de uma reportagem publicada no início deste mês no Diário de Notícias, “já apareceram alguns interessados, embora ainda não esteja nada formalizado”, disse ao Educare.pt a autora do projeto.

Foi a escola e uma sistemática falha na comunicação que acabou por despoletar a necessidade “de alguma coisa, uma ponte que a melhorasse”. “Quando os miúdos são mais pequenos (paradoxalmente) é mais fácil. Como sou muito criativa (vim das artes plásticas e isso ajuda) tenho o que fazer com eles. Mas quando o meu filho chegou ao primeiro ciclo, tudo mudou”. Basta saber que “este ano (letivo) ainda estou à espera dos livros traduzidos para formato digital”, conta. Nesse compasso de espera, vai ajudando o filho da maneira que consegue, “muito intuitiva”. “Hoje já consigo fazer muita coisa porque é tudo muito digital, e isso foi importante”. De tal maneira que Sílvia costuma dizer que a pandemia lhe trouxe quase só coisas boas, pois o mundo digital avançou em todos os campos, permitindo-lhe, pela primeira vez, um maior acompanhamento da escola dos filhos. Por exemplo, desde que a caderneta foi substituída pelo e-mail. E foi afinal a célebre caderneta o que despoletou a criação do seu projeto, quando percebeu que “assim não conseguia comunicar com a escola, com os professores”.

Sílvia vive com os dois filhos pequenos (uma menina de 4 e um menino de 10 anos). A cegueira aconteceu já na idade adulta, quando o diagnóstico de um médico especialista lhe ditou o destino: Stargardt, uma doença degenerativa da mácula. Foi antes dos 30, antes de tudo mudar. “Eu já conduzi. Gostava muito de conduzir. Talvez seja das coisas que sinto mais falta”, conta.

Sílvia nasceu numa aldeia dessa região oeste. Licenciou-se em Artes Plásticas na Escola Superior de Arte e Design de Caldas da Rainha, e depois do curso de pintura trabalhou na Dinamarca, Inglaterra e Moçambique, neste último através de um programa de voluntariado - People to People. Já levava o diagnóstico mas ainda tinha a secreta esperança de que tivesse sido um engano. “Só que os problemas de visão acentuaram-se, e lá [em Moçambique] comecei a andar de bengala, porque tropeçava constantemente”.

Regressou a Portugal, a uma realidade nova: percebeu que começava a ter “muita dificuldade para encontrar emprego”. Nesse exercício de aceitação, Sílvia frequentou um programa de reabilitação no Lar Nossa Senhora dos Anjos (para deficientes visuais) na Parede. E foi lá que fez o curso de massagista, que aprendeu a teclar sem ver.

Quando conheceu o pai dos filhos, ex-companheiro, tinham passado 10 anos desde a consulta em Coimbra e a sentença do médico especialista. Nessa fase ainda ia ao supermercado e conseguia escolher os produtos, ver a data de validade. Quando o filho nasceu, deixou de conseguir. A falta de visão agravou-se progressivamente. Mais tarde, Sílvia acabou por se separar do companheiro. E foi já nessa nova fase da vida, sozinha, com os filhos, que lhe nasceu a necessidade de estabelecer uma ponte com um mundo que não está, de todo, preparado para a deficiência visual.

“Sempre me senti muito perdida no que havia de fazer, profissionalmente”, admite Sílvia, que há três anos decidiu frequentar um curso de empreendedorismo, através do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). “Mudou a minha vida. E isso posicionou-me as ideias”, sustenta.

Foi o curso que lhe deu, afinal, a luz que faltava. Imaginou os cadernos com umas etiquetas, que pudessem ser lidas através de um telemóvel, e assim ser possível os pais comunicarem com os professores - e também ser muito fácil de usar para crianças.

O que fazer com a aplicação
O projeto consiste em cinco etiquetas, de diferentes formas: um coração, uma estrela, um quadrado, um círculo e um triângulo. “As formas mais simples de identificar, para fazer conjuntos. E que vão permitir, através de braille, uma leitura. Cozê-las na roupa das crianças, por exemplo. Cada uma dessas etiquetas tem um chip, que comunica com o telemóvel”. O NFC (chip), o mesmo que se usa para leitura de cartões para pagamento, tão em voga atualmente.

Depois, é a simplificação de toda a vida: “Quando estou a cozinhar, precisava de uma coisa dessas. Por exemplo, para distinguir o óleo do azeite”. Foi por isso que inicialmente Sílvia pensou apenas na aplicação para uso doméstico, mas rapidamente percebeu que a mesma poderia massificar-se, colocar leitores de código de barros, ou código QR. E assim permitir distinguir os boiões de champô, os alimentos no congelador, “para saber se é carne de porco, de vaca, frango. Ou os detergentes. Além disso, a aplicação prevê ver o que temos em stock na despensa, no congelador. Pode ser em braile e digital, permitindo gerir as compras”.

Depois de idealizado o projeto, Sílvia percebeu que precisava de alguém que a ajudasse a materializá-lo. Foi batendo a várias portas, até que um dia, teve a sorte de encontrar do lado de lá da linha o proprietário da empresa Present - Techologies, no Instituto Pedro Nunes, em Coimbra. Vítor Batista estava sozinho na empresa (era véspera de feriado), e atendeu o telefone. Achou a ideia excelente. A partir daí trabalharam toda a parte tecnológica, apresentou o projeto a Pedro Mendes, da incubadora I9 Social Skillant, e mais tarde ao programa Portugal Inovação social. O projeto (avatag.pt) foi aprovado, com um financiamento de 70% , o correspondente aos 140 mil euros em que está avaliado. Mas faltam-lhe agora os restantes 30%, fundamentais para o implementar. Foi aí que se concentrou, nos últimos tempos, em conseguir o equivalente a 40 mil euros. “Já fui contactada, estamos agora a avaliar as condições”, revela ao Educare.pt

A parceria divide-se entre entidades públicas, privadas (através da responsabilidade social das empresas) ou entidades da economia social. Pode ser uma fundação, por exemplo, ou um município. Ou apenas um único, desde que entre com os tais 30%.

Um projeto para o mundo inteiro
Alexandra Neves, responsável pela gestão do programa Portugal Inovação Social na região centro, acredita que “este é um projeto para chegar ao fim do mundo, permitindo a todas as pessoas invisuais que não errem na identificação de produtos.Falta apenas ‘esse bocadinho’ para que isto possa chegar a imensas pessoas. Por isso é que o queremos testar, experimentar, desenvolver, para que se possa tornar um negócio social. Depois de patenteado, pode ser comprado como um negócio ou um produto”.

Além disso pode tornar-se no emprego de Sílvia, na sua fonte de rendimento, já que depois de cegar nunca mais conseguiu um emprego certo. A autora do projeto quer “sobretudo que seja útil, sirva de partilha, de ponte entre os cegos e o resto da sociedade”.

Se for implementado, pode mudar a vida de cerca de 30 mil deficientes visuais, em todo o país.

Até lá, Sílvia continuará este ensaio sobre a cegueira, em casa e na rua. Há dificuldades todos os dias, com os detergentes, por exemplo, ou com os medicamentos. “Atualmente consigo identificá-los pelo cheiro, até os genéricos, ou então provo, quando tenho dúvidas. O telemóvel também já tem muitos recursos para reconhecer texto. Mas com a roupa das crianças é muito complicado. E o congelador também”.

Deixar de conduzir foi, afinal, o que mais lhe custou desde que perdeu a visão. “Tinha muito automatismo de acordar ao fim de semana e programar tudo para andar de carro. Depois foi a adaptação para depender das outras pessoas”. Diz que deixar de ver tornou-a diferente, interiormente. “Dantes eu era muito mais superficial. Agora, para ter mundo, preciso de ouvir. Toda a construção que faço das outras pessoas e das coisas é por aquilo que elas me dizem. E os meus filhos devolvem-me muita paisagem”, revela.

Já o afastamento social que a pandemia imprimiu na sociedade, não foi novo. “Muitos deficientes já o sentiam. Já vivemos nisto há muito tempo. Por isso, quando em março ficámos todos em casa, e agora aconteceu de novo, o mais difícil foi gerir as crianças e ocupá-las”.
 

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