Que tendências vão moldar as escolas?

O encerramento das escolas em 2020, motivado pela pandemia da COVID-19, gerou um salto tecnológico que, de outro modo, talvez demorasse a acontecer, reconhece a Comissão Europeia. Esperam-se, no entanto, outras transformações sociais e económicas. E com elas novas respostas das escolas. Currículos mais transversais, com novas competências e até mais reconhecimento ao que se aprende de modo informal.
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A crise pandémica de 2020 acelerou e travou algumas tendências no ensino. Estar preparado para mudar, segundo a Comissão Europeia, é possuir conhecimentos, competências e qualidades que proporcionem a confiança para enfrentar os desafios. A partir desta ideia, o relatório “Education and Training Monitor 2020”, publicado em setembro de 2020, aponta algumas das tendências que vão moldar a educação na Europa.

Repensar o conceito de qualidade de ensino para ir ao encontro das futuras necessidades sociais e económicas, parece ser a palavra de ordem para 2021 e os anos que se seguem. “A educação terá de se adaptar à quarta revolução industrial, transformando-se na Educação 4.0”, anteveem os especialistas da Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura da Comissão Europeia, no mais recente relatório que reúne indicadores dos 27 Estados-membros da União Europeia (UE). Com os olhos postos nas mudanças inesperadas do presente a Comissão Europeia tenta antecipar as diferentes respostas dos sistemas educativos europeus, como um todo.

Mais pré-escola
Que tendências vão moldar a vida dos alunos e o quotidiano das escolas? Desde logo, a tendência para ter alunos cada vez mais cedo a aprender. A ideia de antecipar a escolaridade obrigatória, não é nova, mas os autores do relatório “Education and Training Monitor 2020” justificam a tendência para começar a escola mais cedo com a forte correlação entre a frequência da educação pré- escolar e a conquista de melhores condições de vida.

Em 2018, 94,8% das crianças de quatro anos que vivem nos países da UE frequentavam jardins de infância, apenas 0,2 pontos percentuais abaixo do objetivo no âmbito da Educação e Formação para 2020. Mas os progressos não foram suficientes em vários Estados-membros, lê-se no documento, com países a ficarem abaixo do valor de referência: Grécia ( 75,2%), Croácia (81%), Eslováquia (82,2%), Bulgária (82,4%) e Roménia (86,3%). Por resolver continuam algumas disparidades. As crianças de famílias desfavorecidas ou as que vivem em regiões menos urbanas são as que menos frequentam as instituições pré-escolares.

Educar adultos
Se a educação tem um começo, é também cada vez mais certo que tenderá a não ter fim. No entanto, apenas 10,8% dos adultos europeus, entre os 25 e os 64 anos, esteve envolvido em atividades de educação e formação em 2019. Percentagem muito longe do objetivo de atingir os 15% em 2020. Só sete países ultrapassaram a meta: Suécia (35%), Finlândia (30%), Dinamarca (25%) Grécia, Países Baixos, França e Luxemburgo a rondar os 20%. Portugal a ter pouco acima dos 5% de adultos em formação. Independentemente dos números do presente, a Comissão Europeias acredita que a aprendizagem ao longo da vida, a necessidade de saber como aprender e do auto-estudo, mesmo depois da graduação, vão moldar os sistemas educativos no futuro.

Ensinar o digital
Quase tão crucial como a educação e formação de adultos, será a aquisição de competências digitais. A educação digital constitui uma das partes nucleares da Literacia, lembram os peritos da Comissão Europeia, sublinhando a sua importância para o mercado de trabalho, mas não só. “A literacia digital e o pensamento crítico são importantes para a democracia”, lê-se.

A boa e a má notícia, segundo o relatório, é que “as competências digitais dos alunos estão a melhorar, mas estes não são os «nativos digitais»”, apregoados pelo investigador em literacia digital, Marc Prensky, entrevistado pelo Educare.pt durante uma passagem por Braga [link: "Agora, os miúdos têm muito mais poder!" » Educare - O Portal de Educação]. Dados recolhidos em 2018, pelo “International Computer and Information Literacy Study” (ICILS), mostram que, ao contrário do que defendia Prensky, “os jovens não desenvolvem competências digitais sofisticadas apenas por crescerem a utilizar dispositivos digitais”.

Ainda no plano digital, outro cenário será de acrescentar às tendências que vão moldar a educação. O relatório chama a atenção para as consequências da crescente competição humana com dispositivos e tecnologias de inteligência avançada (IA). “Na nova era o papel das pessoas vai ter de ser redefinido e a educação deve focar-se em competências como a criatividade, resolução de problemas, negociação, adaptabilidade, pensamento crítico, cooperação, empatia, gestão de emoções e comunicação.” Para já, anota a Comissão Europeia, “a adaptação à crise foi mais fácil para os Estados-membros que estavam mais avançados na educação digital”.

Mentorias e coaching
Com o encerramento das escolas em março e dezembro de 2020 e também já no início deste ano, não será difícil de antever um certo declínio ou afastamento de modelos de ensino massificados e estandardizados, escrevem os peritos europeus. Assim, será de esperar uma mudança para um ensino mais individualizado, assente na aprendizagem digital. Isto significa também encontrar formas de abandonar o modelo tradicional de aulas expositivas e privilegiar as mentorias e o coaching. Mudanças que vão tornar cada vez mais necessário trabalhar de forma interdisciplinar.

Outra das tendências que vai exigir da escola respostas imediatas é a “diversificação dos fornecedores da educação e formação”, ou seja, a entrada de outras entidades e instituições no ensino. Com estes novos “jogadores” no xadrez educativo será também de esperar que sejam criados novos percursos e oportunidades para aprender e receber qualificação. Ora, esta diversificação de entidades que fornecem serviços na área da educação pode, por outro lado, implicar mudanças ao nível da contratação de docentes, com um recrutamento baseado em competências ou conhecimentos, antevê a Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura da Comissão Europeia, que faz esta análise.

Formal, não formal e informal
O futuro inclui também “conexões não lineares entre educação formal e emprego”. O cenário traçado pela Comissão Europeia antecipa que os jovens na Europa vão experimentar várias interrupções na vida profissional e desemprego. Educação formal, não-formal e informal “vão ser moldadas de forma diferente, com as fronteiras entre todas a perder a sua rigidez e clareza”. Diz ainda o relatório que “o rápido crescimento do setor da educação não formal vai obrigar o setor formal a desenvolver estratégias e práticas claras para incluir competências comportamentais (também conhecidas por softskills), competências transversais e meta-competências nas suas credenciais educativas.” Face às mudanças, a Comissão Europeia sugere que “a educação e formação de adultos também terá um desenvolvimento acrescido que resultará do crescente reconhecimento da aprendizagem não formal e informal”.

No jogo de mudanças que se anteveem nos sistemas educativos europeus, “o setor privado estará melhor posicionado para promover caminhos de aprendizagem alternativos mais flexíveis e personalizados”, admite a Comissão Europeia. Já no ensino público, “a abertura a novos públicos e parceiros educativos terá um papel importante no aumento da colaboração com organizações da sociedade civil, sindicatos, e na participação entre ensino formal, não formal e informal”.

Agravar das desigualdades
A Comissão Europeia constata que a pandemia COVID-19 ora acelerou, ora abrandou algumas das tendências que já se vinham a sentir na educação na Europa. “O ensino à distância foi o gatilho de um avanço sem precedentes para a transformação digital na educação.” A digitalização, lê-se no relatório, também facilitou tendências como a aprendizagem individualizada e forneceu à escola ferramentas na área da tecnologias da informação e da comunicação (TIC) necessárias. No entanto, advertem os peritos, é de esperar um agravamento das desigualdades educativas já existentes na transição do ensino presencial para o online.

Os alunos de contextos desfavorecidos têm mais probabilidades de “ficar para trás” durante os períodos de ensino à distância, confirma a Comissão Europeia. O acesso a recursos digitais e a ambientes educativos adequados tende a ser mais limitado. Os motivos de exclusão identificados em vários estudos de âmbito nacional, incluíram a falta de dispositivos como computadores portáteis e tablets, mas também a dificuldade em obter uma ligação à Internet adequada.

Somam-se a estes aspetos, outra agravante social. Nas famílias favorecidas, é mais provável que os pais possam trabalhar a partir de casa e pagar explicações privadas online para os seus filhos. Facto que terá de ser lido à luz de uma outra evidência. Os resultados de inquéritos e estudos iniciais, realizados em vários países europeus, têm estimado que “o encerramento físico da escolas pode afetar os resultados de aprendizagem, devido à perda de tempo letivo e à redução dos conteúdos pedagógicos”, lê-se no sumário executivo relatório “Education and Training Monitor 2020”.

Avaliação e currículos
Mudar a forma como se avaliam os alunos em todos os níveis de escolaridade (do 1.° ao 12.° ano,) é para a Comissão Europeia, “um passo necessário para monitorizar o ensino e a aprendizagem nas novas condições de mudança”. Na próxima década será de esperar um aumento da componente digital nos processos de avaliação. Com recurso à inteligência artificial, à realidade aumentada e à gamificação, exemplificam os autores do relatório. Por outro lado, advertem, para garantir a equidade, as avaliações terão em conta as diferenças sociais e culturais dos alunos que afetam os resultados dos alunos.

Todas estas transformações implicam mais duas mudanças, garantem os autores desta análise. Uma ao nível dos conteúdos dos currículos, outra na experiência de aprendizagem. Em matéria curricular, o relatório subscreve a importância de dotar as crianças de múltiplas competências: interpessoais, de cidadania global, de inovação, de criatividade e tecnológicas. E como deverá ser a experiência de ensino? A resposta é personalizada, acessível e inclusiva, baseada na resolução de problemas e na colaboração. Igualmente importante: a experiência de ensino deve motivar o aluno para nunca parar de aprender.
 

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