O exemplo de Vila das Aves

O EDUCARE.PT termina hoje uma série de reportagens sobre a Escola da Ponte, onde um estudo etnográfico realizado por uma docente da Escola Superior do Porto avaliou as condições que permitiram um nível de satisfação elevado dos pais em relação à escola.
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O nível de satisfação dos pais das escolas que frequentam a escola primária da Ponte, em Vila das Aves, foi objeto de um estudo etnográfico da autoria de Deolinda Araújo, docente da Escola Superior de Educação do Porto. Um estudo que, segundo a investigadora, surgiu da constatação de que "existem condições excecionais nessa escola que se afasta de qualquer outra".

O ponto de partida foi a participação num trabalho de nível internacional, que comparava quatro escolas (duas portuguesas e duas inglesas) com o objetivo de avaliar as diferenças e semelhanças na relação que era estabelecida entre a escola e os pais. O nível de satisfação dos pais da Escola da Ponte era tão elevado que deu origem à dúvida metódica de Deolinda Araújo, que procurou explicar as razões dessa relação privilegiada no âmbito de um mestrado em Ciências da Educação.

Segundo Deolinda Araújo, a "tão grande satisfação dos pais em relação à escola da Ponte" explica-se por uma multiplicidade de fatores. O ponto de partida é a história do projeto, as condições pedagógicas e o desenvolvimento do quotidiano na escola. Para a investigadora, há que salientar a atitude dos professores: eles permitiram "aproximar, fazer o encontro de margens da cultura da escola à cultura local".

Foi um trabalho de equipa, que desenvolveu uma "variedade de estratégias de aproximação às famílias", e que permitiu aos pais acreditar, apesar dos "problemas físicos muito graves da escola", no projeto. "No início, os pais não iam à escola. Então, os professores começaram a ir ao encontro dos pais", relata a docente da ESE.

Foi o envolvimento destes profissionais nos problemas da comunidade que permitiu "responder às necessidades educativas das crianças". Necessidades que foram além das habituais competências académicas e que incluíram a preparação para a cidadania e a vivência democrática - uma metodologia pioneira de pedagogia no primeiro ciclo de estudos.

Os professores da Escola da Ponte tiveram uma atitude diferente, explica Deolinda Araújo, porque assumiram a condição de "profissionais reflexivos", ou seja, em vez de reproduzir o modelo existente para o ensino primário, refletiram e adaptaram-se à "especificidade e heterogeneidade das crianças e comunidades com quem trabalham". Uma mobilização decisiva para que os pais acreditassem numa relação diferente com a escola, quando o mais comum seria vê-la como uma instituição distante e de linguagem não acessível. O envolvimento foi de tal ordem que a Associação de Pais da Escola da Ponte foi a primeira do país a legalizar-se.

Deolinda Araújo afirma que "a palavra-chave da relação escola encarregados de educação é participação". Por isso, os pais são vistos como "parceiros e corresponsáveis pelo projeto educativo do aluno". Tanto que quase não há tempo de atendimento marcado: esse é ilimitado e acontece, por exemplo, quando os pais vão buscar ou trazer os filhos à escola.

A investigadora salienta ainda que "há uma série de contributos para que as mudanças ocorram". O carácter têxtil da indústria de Vila das Aves, responsável pela criação de uma classe operária com determinada consciência política, é outro dos fatores explorados no âmbito do estudo realizado.

Devido a esta multiplicidade de circunstâncias que se uniram para dar origem à história única da escola da Ponte, Deolinda Araújo defende que "este não é um modelo a transpor para outro local". Afirmando-se contra a reprodução, aponta que os princípios que guiaram a dinâmica em Vila das Aves "devem ser conhecidos e refletidos", mas "podem não ter significado cultural noutro local". Ou seja, conclui, o importante é assumir a característica de "profissional reflexivo" que, consoante as características da comunidade onde se insere, poderá delinear outras estratégias.

Deolinda Araújo cita José Pacheco, o professor da Escola da Ponte que foi o grande obreiro deste estabelecimento de ensino, para afirmar que "não há pais distantes, nem pais resistentes". O que há, continua a investigadora, "são escolas que se organizam de modo a darem espaço e voz a todos os atores interessados".

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