Desempenho a Matemática piorou nos alunos do 4º ano

Estudo internacional mostra que os alunos portugueses do 4.º ano obtiveram menos 16 pontos a Matemática em comparação com 2015. O ensino da disciplina está a ser revisto e o Ministério da Educação fala em mudanças que serão implementadas gradualmente. Mas não avança datas.
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No ano passado, cerca de 7 700 alunos portugueses voltaram a participar no TIMSS - Trends in International Mathematics and Science Study, o maior estudo internacional que avalia o desempenho dos estudantes do 4.º e 8.º anos a Matemática e a Ciências. O desempenho dos estudantes portugueses melhorou significativamente desde 1995, Portugal está no grupo dos países com um resultado acima do ponto central da escala TIMMS, ou seja, dos 500 pontos (a escala é de 0 a 1000 pontos), mas os resultados dos alunos do 4.º pioraram nos últimos quatro anos.

Em Portugal, 4 300 alunos do 4.º ano fizeram as provas de Matemática e de Ciências e a pontuação média baixou nas duas disciplinas comparativamente com 2015. Os alunos do 4.º ano obtiveram 525 pontos a Matemática, menos 16 pontos do que em 2015. Na lista dos 58 países participantes, os portugueses ficaram em 20.º lugar a Matemática. O país mais bem classificado, Singapura, obteve 625 pontos. Os alunos portugueses também baixaram os resultados a Ciência em quatro pontos, de 508 para 504, e o país ficou em 33.º lugar. Singapura obtém 595 pontos e volta a ser o melhor classificado.

A Matemática, segundo Luís Pereira dos Santos, presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), a descida é “estatisticamente significativa”. “As boas notícias é que se verifica uma tendência de evolução positiva gradual e sustentada em todos os indicadores e que Portugal está acima da média no TIMSS”, referiu, por seu turno, o secretário de Estado da Educação, João Costa. Desde 1995, a primeira vez que o país participou nesta avaliação, até agora, verifica-se uma melhoria gradual no desempenho dos alunos ao longo dos anos.

Em Portugal, os resultados mais baixos verificaram-se nas provas realizadas pelos alunos do 8.º ano a Matemática, que obtiveram 500 pontos. Foi a segunda vez que os alunos do 8.º ano participam no TIMSS, registando-se uma melhoria tanto a Matemática como a Ciências. Em 1995, ficaram abaixo dos 500 pontos às duas disciplinas e em 2019 subiram para 500 pontos a Matemática e 519 pontos a Ciências. Assim, na lista dos 39 países cujos alunos do 8.º ano participaram, Portugal surge em 18.º lugar a Matemática e em 13.º a Ciências.

Numa comparação por géneros, os rapazes obtiveram melhores resultados a Matemática tanto no 4.º como no 8.º ano. “As diferenças de género têm vindo a acentuar-se em Portugal, ciclo após ciclo, a favor dos rapazes”, lê-se no estudo que indica que esta é uma tendência que se registou na maioria dos países participantes. Por outro lado, na comparação entre escolas públicas e privadas, os alunos dos colégios obtiveram melhores resultados.

O TIMSS realizou ainda questionários a professores e encarregados de educação e concluiu que o impacto dos recursos educativos disponíveis em casa, como livros e ligação à internet, no sucesso académico é significativo. O meio socioeconómico e pais com cursos superiores também influenciam os resultados. Os alunos do 4.º ano com mais recursos que favorecem a aprendizagem alcançaram, em média, mais 108 pontos a Matemática e mais 94 a Ciências em comparação com os colegas com poucos meios disponíveis em casa.

Alterações serão objeto de discussão pública
A Matemática, segundo o Ministério da Educação, é a disciplina com maior investimento público, no entanto, o resultado das medidas implementadas não tem tido grande impacto no sucesso académico dos alunos. A transição dos programas de 2009 para as metas curriculares é um dos problemas identificados. O ensino da disciplina está a ser revisto e João Costa, secretário de Estado da Educação, refere que haverá mudanças a aplicar de forma gradual.

“Não me vou comprometer com nenhum prazo de entrada em vigor, porque eu quero que seja objeto de discussão pública e podemos ter intervenções mais de fundo sobre a proposta ou menos profundas. Mas, como temos vindo a fazer, esta intervenção será sempre alvo de uma entrada em vigor gradual”, adiantou o secretário de Estado.

O estudo internacional provocou uma troca de acusações. João Costa, secretário de Estado da Educação, atribuiu responsabilidades a Nuno Crato, ex-ministro da Educação. As alterações feitas sob alçada de Nuno Crato, segundo João Costa, criaram “maiores dificuldades na aprendizagem”, dando, como exemplo, uma “grande antecipação de conteúdos nas metas”, ou seja, “alguns dos itens que eram ensinados no 5.º ano passaram para o 3.º ano”.

“As metas curriculares também põem as estratégias de ensino muito centradas no formalismo, numa interpretação mais abstrata do que aquilo que potencia uma melhor aprendizagem, que é ir fazendo este equilíbrio entre conteúdos, aquilo que se aprende, e a aplicação desse conhecimento”, acrescentou o secretário de Estado, recusando qualquer relação entre a descida de desempenho dos alunos e o fim dos exames nacionais do 4.º ano, medida do atual ministro da Educação.

Nuno Crato reagiu publicamente, em vários órgãos de comunicação social, ao que chamou de “acusações irresponsáveis e falsas” de João Costa. O fim dos exames no 4.º ano, a flexibilização curricular, a natureza “vaga” das aprendizagens essenciais, têm, em seu entender, responsabilidades na descida dos resultados dos alunos. “A reversão do progresso comprovado em 2015 é, certamente, resultado de uma série de medidas entretanto adotadas”, sublinhou numa comunicação escrita enviada ao JN.

“As metas curriculares, que estavam em vigor em 2015 e pelas quais foram preparados os alunos então avaliados, não sofreram alterações até hoje. O que mudou foi a avaliação, ou a falta dela, e foi a ‘flexibilidade curricular’ e a natureza vaga das ‘aprendizagens essenciais’ que aboliram as prioridades curriculares e geraram um discurso e prática de menor ambição, menosprezando as metas e reduzindo em muito o seu impacto positivo”, referiu o ex-ministro, que não esconde a preocupação com os resultados e considera que a situação deve ser “seriamente analisada”.
 

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