Psicólogos mais presentes nas decisões de gestão escolar

Cresce o reconhecimento do papel dos psicólogos escolares, ainda assim, muitas especificidades das escolas poderiam beneficiar de uma diminuição do rácio psicólogo/aluno, diz a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, Sofia Ramalho.
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Nunca se ouviu falar tanto da importância dos psicólogos para a sociedade como durante a pandemia COVID-19. O mesmo acontece na intervenção em contexto escolar, embora, antes da pandemia, já muitas escolas estivessem a contar com a psicologia para nortear a atuação.


“Com a pandemia tem havido uma preocupação maior em reconhecer a importância da gestão das emoções, das questões do autocontrole e da empatia, de promoção de estratégias para lidar com emoções mais negativas, na capacidade de resiliência dos alunos e da própria escola”, começa por explicar a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, Sofia Ramalho. E, portanto, acrescenta, “há uma sensibilização e um reconhecimento cada vez maior de todos os órgãos de gestão e administração escolar e entidades governamentais, pais e professores para a necessidade deste tipo de intervenções e para a importância que a saúde e o bem-estar psicológico têm na aprendizagem”.

Quando reflete sobre passado e presente da psicologia na escola, Sofia Ramalho, fala de um novo paradigma. “Nos últimos anos houve mudanças muito significativas que nos trazem de um contexto em que o papel do psicólogo em contexto escolar era muito mais remediativo para um contexto mais atual em que o papel é mais preventivo.” Passos “muito significativos”, reconhece, foram ainda dados com a publicação dos decretos-lei 54 e 55 sobre educação inclusiva e autonomia e flexibilidade curricular.

Com a inclusão de todos os alunos, e não apenas dos que apresentavam dificuldades de aprendizagem, o decreto-lei 54 prevê a presença do psicólogo nas equipas multidisciplinares de apoio à educação inclusiva. “O psicólogo passa a ter um papel muito mais de consultoria e assessoria às tomadas de decisão nos órgãos de gestão e administração escolar do que um papel de intervenção individual apenas com o objetivo de recuperação de aprendizagens e de remediação de problemas psicológicos”, constata Sofia Ramalho.

Para fazer face ao que Sofia Ramalho descreve como uma “intervenção cada vez mais preventiva e promotora de escolas saudáveis”, nos últimos anos têm sido frequentes as chamadas de atenção da Ordem dos Psicólogos às entidades governamentais para a necessidade de contratar mais profissionais. Um apelo que, recentemente, se traduziu em medidas para o reforço do número de psicólogos nas escolas.

Assim, admite a vice-presidente, se em 2015 contávamos com 700 psicólogos nas escolas, em 2020 são já 1700 os psicólogos, incluindo os cerca de 450 novos psicólogos que integram os novos Programas de Desenvolvimento Pessoal, Social e Comunitário, recentemente aprovados pelo Ministério da Educação.

Ora, “esta diminuição do rácio psicólogo/alunos ajuda na resposta às especificidades das escolas”, advoga Sofia Ramalho, enumerando algumas delas: “Temos escolas cujas realidades do ponto de vista das populações vulneráveis são muito significativas; temos escolas com populações grandes migrantes, com muitos alunos com dificuldades de aprendizagem, ou cujas famílias têm baixos rendimentos sócio-económicos; escolas com problemas de bullying e de indisciplina muito significativos; ou seja, temos aqui um conjunto de situações que beneficiam de um rácio diferente.”

Prevenir em vez de remediar
A mudança para um papel interventivo, de que fala a vice-presidente da Ordem, acontece “nas diferentes dimensões do aluno e não apenas na aprendizagem e junto de todos os elementos da comunidade educativa”. Mas torna-se ainda mais essencial no contexto da pandemia, afirma Sofia Ramalho.

“Os psicólogos têm neste momento um papel fundamental na consultoria aos órgãos de gestão e a toda a comunidade educativa, precisamente, para a tomada de decisões que permitam a melhor e mais eficaz compatibilização das medidas sanitárias com aquilo que são as tarefas de desenvolvimento próprias das crianças e dos jovens e com as medidas de promoção da saúde psicológica e mental.”

Sofia Ramalho considera ainda crucial a monitorização da saúde psicológica da comunidade educativa, tendo em conta as circunstâncias impostas pela pandemia. Alunos que chegam à escola com preocupações, ansiedades, experiências de perda ou de luto. Professores que além das suas próprias experiências da pandemia, podem estar a viver situações de stress e burnout. Por essa razão, reconhece novamente o “papel essencial dos psicólogos nesta matéria: “Cabe-lhes identificar esses indicadores, aprofundar a literacia sobre COVID-19 e promover nos alunos, professores e em todos os elementos da comunidade comportamentos pró-saúde e pró-sociais.”

Conciliar socialização e segurança
“As medidas de distanciamento físico são importantes mas, por outro lado, há necessidade de socialização, de interação social, de brincar, desenvolver atividades lúdicas e pedagógicas”, contrapõe a psicóloga. Questionada sobre como conciliar a segurança sanitária com a necessidade de socialização, Sofia Ramalho, esclarece que “dentro daquilo que são as orientações da Direção-Geral da Saúde, é importante que os psicólogos possam, com base na ciência psicológica assessorar as tomadas de decisão das direções de escola ao nível da preparação e da gestão dos espaços escolares”.

Inclusive, ajudar a considerar aspetos como a presença das famílias na escola. “Ter em atenção os momentos de separação das crianças pequenas, respeitar as condições de segurança mas, ao mesmo tempo, respeitar a importância da presença dos pais para que as crianças se adaptem e se integrem nas creches, nos jardins de infância ou nos primeiros anos de escolaridade.”

A par das recomendações do Ministério da Educação para a consolidação das aprendizagens, Sofia Ramalho, insiste na importância da recuperação emocional dos alunos. “Sem essa recuperação sócio-emocional e da saúde psicológica, sem esse bem estar psicológico, as crianças e os jovens não estarão em condições de fazer a recuperação das aprendizagens porque sabemos que essa condição é essencial para que eles tenham motivação e se envolvam no processo de ensino-aprendizagem, se este mínimo não está garantido vai ter um impacto muito significativo.”

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