A readaptação não é fácil e a saúde mental não é um pormenor

Mais de 60% dos alunos sofreram cyberbullying durante a pandemia e outubro é o mês que a Europa dedica à cibersegurança e à prevenção e combate ao bullying. A saúde mental é, neste momento, uma preocupação maior. As práticas de saúde das escolas devem ser repensadas e os psicólogos avisam que é preciso ver, ouvir, perceber e atuar.
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Mais de 1,2 milhões de alunos do 1.º ao 12.º ano estão nas escolas para um novo ano escolar. O regresso foi marcado por uma mistura de alegria e ansiedade. Alegria por rever colegas, amigos, por voltar. Ansiedade perante um contexto com novas regras. Máscara na cara, intervalos mais curtos, circuitos marcados, distanciamento físico, horários desfasados, espaços fechados, desinfeção das mãos e carteiras. Depois do confinamento, após meses de ensino à distância, sem contacto direto com colegas, amigos, professores, é preciso atenção para o que vai dentro da cabeça dos alunos.

A saúde mental deve estar em primeiro plano. A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) alerta para o eventual agravamento dos problemas educativos dos alunos e recomenda às escolas o reforço de equipas e que estejam sempre disponíveis para ajudar e apoiar. “As escolas devem reforçar as estruturas e recursos que dão resposta aos problemas educativos, de saúde psicológica e de inclusão mais frequentes”, defende a OPP num documento sobre o regresso às aulas que elaborou em conjunto com a UNICEF.

Absentismo, abandono escolar, problemas de aprendizagem, dificuldades emocionais, relacionais, motivacionais e de ajustamento, estão na lista das principais preocupações. A OPP fala ainda de dificuldades de atenção e concentração e de problemas de comportamento e indisciplina, discriminação, exclusão social e estigma. Problemas que já existiam e que, avisa a OPP, “serão potencialmente agravados ou acentuados pela situação de pandemia e crise económica e social”.

A OPP avança com várias recomendações. Os serviços de psicologia das escolas devem ter um local onde todos os alunos possam, de forma espontânea, aparecer sozinhos ou acompanhados para falar com um adulto. As escolas devem estar atentas a casos de famílias afetadas financeiramente pela pandemia e situações de alunos que estiveram expostos a abuso e negligência. A OPP sugere a criação de grupos de trabalho para planear e avaliar as políticas e práticas de saúde escolar, nomeadamente a saúde psicológica, bem como o reforço de programas ou projetos que apostem na proteção e inclusão de todos os alunos. As escolas devem recolher informação de forma regular e sistemática que permita monitorizar a saúde psicológica de toda a população escolar.

“As expectativas de cumprimento das novas regras e rotinas devem ser ensinadas e reensinadas, evitando abordagens punitivas, sobretudo quando se trata de gerir a necessidade de distanciamento físico”, refere. Os objetivos académicos e curriculares são importantes, no entanto, os alunos poderão não se sentirem preparados para se envolverem em atividades de aprendizagem formal “até se sentirem fisicamente e psicologicamente seguros”. O sentimento de segurança e bem-estar “pode levar semanas ou até meses, dependendo da evolução do contexto comunitário da escola e dos contextos individuais”.

É preciso tempo e os alunos podem ajudar a definir as regras e boas práticas de convivência e a planear o ano letivo. A OPP deixa um conselho aos professores. “Reconheçam que a produtividade e o envolvimento dos alunos possam não ser, inicialmente, os mesmos que tinham anteriormente. É possível que sintam que têm de conhecer novamente os seus alunos, para poder adaptar a forma como ensinam ao seu ritmo de aprendizagem, capacidade de concentração e motivação atual para a aprendizagem”.

Promover a empatia, denunciar conteúdos abusivos
O Governo vai investir nesta área e criar equipas de saúde mental comunitárias, apostando em serviços de proximidade. O Ministério da Educação (ME) garante uma resposta célere para que não haja ausência de docentes e não docentes e lembra que chegaram às escolas cerca de 900 técnicos de intervenção, como psicólogos e terapeutas da fala, e que o apoio tutorial específico foi alargado do 5.º ao 12.º ano. “Importante é assegurar que a resposta seja célere, oleada e o sistema possa dar resposta por forma a não haver ausência de docentes neste ano que é atípico, mas, acima de tudo, muito exigente”, sublinhou o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues.

Um inquérito nacional online revela que a maioria dos alunos diz ter sido vítima de cyberbullying durante a pandemia. Jovens de famílias com menores rendimentos, rapazes, gays e lésbicas são os mais afetados. Entre março e maio deste ano, quando as escolas estavam encerradas, 61,4% dos estudantes dos ensinos Básico, Secundário e Superior admitem ter sido vítimas dessas agressões feitas através das novas tecnologias. O estudo “Cyberbullying em Portugal durante a pandemia da COVID-19” foi realizado por uma equipa de investigadores do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE.

Mais de metade dos inquiridos, 59%, dá conta de um aumento de mensagens com conteúdos prejudiciais e violentos. Quase nove em cada dez alunos garante ter observado situações de bullying online, mas apenas metade atuou para impedir a continuidade desse controlo. Mais de um quarto dos estudantes assumiu ter feito bullying por diversão, vingança ou necessidade de afirmação. Apenas 16% sentiram culpa pelo que estavam a fazer.

As consequências para as vítimas traduziram-se em “sentimentos de tristeza, sentirem-se mais irritados ou nervosos”, segundo a investigadora Raquel António, que liderou a equipa do Instituto Universitário, em declarações à Lusa. Durante o confinamento, os alunos ficaram mais vulneráveis e expostos a serem vítimas de cyberbullying e, por todas as razões, são precisas medidas mais eficazes de combate a este fenómeno. “É necessário uma cultura de promoção de empatia e de denúncia de conteúdo abusivo para prevenir situações de bullying online”, defende a investigadora.

Videoconferências diárias em vários países
Assinalando o Mês Europeu da Cibersegurança e o Mês da Prevenção e Combate ao Bullying, que se assinalam em outubro, os autores do livro “Cyberbullying - Um Guia Para Pais e Educadores”, Sónia Seixas, Luís Fernandes e Tito de Morais, organizam e promovem a II Global Stop Cyberbullying Telesummit. É um evento online composto por uma série de videoconferências diárias dedicadas a temas relacionados com o cyberbullying, que serão transmitidas em direto para o Facebook, Periscope e YouTube.

“Já havia ideia de realizar esta segunda edição, mas a pandemia que vivemos mais do que justifica a sua realização, já que o bullying presencial regista uma tendência não para desaparecer, mas para se transformar em cyberbullying, sendo esta uma tendência igualmente global”, referem os promotores.

A iniciativa conta com a colaboração de convidados nacionais einternacionais que irão intervir a partir de países como a Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Espanha, Estados Unidos, França, Índia, Japão, Luxemburgo, Nova Zelândia, Países Baixos, Portugal e Zimbabwe, numa série quase diária de transmissões vídeo em direto. De Portugal, além dos promotores, o evento conta com as participações de Vânia Beliz e Rita Felizardo da Escola das Emoções; Margarida Gaspar de Matos da Aventura Social; Maria
João Leote de Carvalho do CICS.NOVA – Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais; Teresa Paula Marques, Tânia Paias, Cristina Quadros da MindSerena, projeto de aprendizagem socioemocional para professores e alunos do 2.º e 3.º ciclos; Pedro Ventura, Ana Paiva e Júlia Vinhas do CADin – Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil; entre outros em vias de confirmação.

As sessões decorrem de 1 a 31 de outubro e serão conduzidas em Português ou em Inglês, dependendo dos convidados. A participação é gratuita e, dado o carácter global da iniciativa, as transmissões terão lugar, em Portugal, das 8h às 9h, das 13h às 14h, das 18h às 19h e das 21h30 às 22h30.


 

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