Português e Matemática: Ensino online, programas e conteúdos, o que mudou, expectativas

O balanço do processo de ensino e aprendizagem à distância de duas disciplinas estruturantes feito pelas associações de professores. O que correu bem e o que correu mal. E o que deveria mudar em termos de conteúdos programáticos.
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Pandemia, escolas encerradas, ensino à distância, o país em estado de emergência que abrangeu todo o sistema educativo a partir do final do 2.º período do ano letivo que terminou. Filomena Viegas, presidente da Associação de Professores de Português (APP), e Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática (APM), fazem um balanço do que aconteceu em circunstâncias excecionais. “Com efeito, de 15 de março até ao final de junho, foram levadas à prática nas escolas dos ensinos Básico e Secundário, sem prévia preparação dos diferentes atores do processo educativo, distintas modalidades de ensino e comunicação a distância”, refere Filomena Viegas, ao EDUCARE.PT.

“A necessidade de dar resposta às exigências pedagógicas e didáticas do que se entendeu por atividades letivas à distância, preparadas em urgência e numa realidade atípica, condicionada pelo próprio progresso da pandemia, levou as escolas e muitos docentes num mesmo estabelecimento de ensino a recorrerem a diferentes plataformas de comunicação a distância, sem planeamento sistemático, sobretudo com o objetivo de não deixar os alunos afastados da escola”, adianta a presidente da APP. Em termos práticos, sublinha, “o tradicional espaço escolar foi transferido para lugares exteriores à escola, de vivência social, familiar e privada, desde que estivesse garantido o recurso a meios digitais e à Internet”. “Esta realidade nova, vivida em tensão, dificultou, só por si, o trabalho das direções das escolas e dos docentes, com consequências para os alunos, para as famílias e para toda a comunidade educativa em geral”, acrescenta.

Lurdes Figueiral, presidente da APM, faz o enquadramento da situação. “Primeiro quero recordar e insistir na ideia de que estamos a viver tempos únicos, de uma crise que nunca tínhamos experimentado. Quando em março as escolas fecharam de um dia para o outro, todos fomos apanhados, sem aviso, por uma situação para a qual ninguém estava preparado. Foi preciso rapidamente implementar soluções e elas, apesar de tudo, surgiram, com a preocupação de chegar a todos os alunos”, refere, admitindo que “houve erros cometidos, muitas descoordenações, omissões”. “Mas o fundamental cumpriu-se: a escola e os professores não abandonaram os seus alunos”, sublinha.

A 25 de março, a APM divulgou uma carta aberta sobre a situação educativa provocada pela pandemia. “Nada é fácil, tudo é desconhecido: tateamos, hesitamos, ensaiamos, agimos, uns por defeito, outros por excesso, mas acreditamos que todos queremos trabalhar por uma educação mais justa, para os alunos, para os professores, para as famílias, nestes tempos estranhos”, escrevia a APM num discurso de esperança que sugeria partilha de atividades, sobriedade nas propostas, atenção aos sinais de mudança.

“As aprendizagens foram as possíveis; por parte dos alunos, acredito que foram as suficientes. Por parte de todos - escolas, pais, professores, tutela, sociedade em geral - espero que agora comecemos a ser consequentes com as aprendizagens que temos vindo a realizar nesta experiência única”, comenta Lurdes Figueiral.

A 6 de abril, a APM vincava a sua posição face ao atual contexto, depois de ouvir o conselho nacional da associação. A autonomia das escolas era destacada de forma a “gerir as condições e os meios disponíveis com a liberdade e plasticidade, adaptando-os às condições e características dos alunos e das turmas concretas”. Além disso, pedia-se uma reflexão profunda na revisão de currículos e programas e que a função e a aplicação das provas de aferição, bem como avaliação, exames nacionais, acesso ao Ensino Superior, fossem repensadas.

Desempenho melhorou no 3.º período
Filomena Viegas recorda um estudo da Federação Nacional dos Professores (FENPROF), um inquérito feito a professores, que, em seu entender, “permite avaliar, ainda que de modo bastante superficial, a vivência do ensino à distância e a transformação das atividades letivas presenciais em ‘possíveis’ atividades letivas”. O que correu bem? Muito do que correu bem, responde, se deveu ao esforço dos professores. “Por exemplo, muitos docentes disponibilizaram e alguns terão até adquirido equipamentos informáticos para concretizarem as suas atividades disciplinares com os alunos; muitos docentes mantiveram igualmente a comunicação aberta com os encarregados de educação”. O que significou horários de trabalho mais alargados, particularmente para os diretores de turma.

Apesar de níveis baixos de literacia digital, falta de autonomia na utilização dos recursos tecnológicos por parte de muitos alunos e de muitos encarregados de educação, a APP considera que o desempenho da comunidade escolar melhorou ao longo do 3.º período, sobretudo na descoberta de novas estratégias.

E o que correu menos bem? Apesar dos esforços, a vários níveis, alunos e encarregados de educação, que já estavam afastados das escolas, afastaram-se ainda mais. Filomena Viegas aponta algumas razões. “Alguns porque as famílias entraram em colapso social e financeiro, outros porque a situação pandémica fez aumentar o seu já habitual alheamento em relação à escola, comprovando o que foi sendo afirmado pela tutela: agravou-se a desigualdade entre os alunos, não se cumpriu a desejada inclusão de todos os alunos no sistema educativo, com igualdade de oportunidades e de acesso a recursos educativos digitais”.

No arranque do 3.º período, chegou o ensino na televisão com o #EstudoEmCasa, “a alternativa possível para diminuir o impacto do encerramento das escolas”. Em relação ao Português, esta modalidade “pôs à disposição dos alunos e dos professores materiais de apoio e de complemento bastante adequados, nos três ciclos do Ensino Básico”. “Por outro lado, é de louvar a opção por uma atualização das abordagens desta disciplina, dando relevo a sessões de escrita criativa, no 2.º Ciclo do Ensino Básico, e à hora do conto e aos contadores de histórias, no 1.º Ciclo”.

Segundo a presidente da APP, o ensino à distância na disciplina de Português, a par de outras disciplinas que não exigem trabalho laboratorial específico ou desempenhos de natureza experimental, permitiu acompanhar muitos alunos, mantendo-os ligados às rotinas escolares. O que possibilitou desenvolver “atividades incidindo sobre o treino de algumas competências específicas desta disciplina, nomeadamente a leitura, e os domínios da educação literária e da gramática”.

“Na verdade, o ensino à distância garantiu a ligação dos alunos à escola, possibilitando-lhes o cumprimento de rotinas necessárias ao equilíbrio socioemocional, e deu incentivo à criação de situações e atividades estruturadas, com recurso a diferentes plataformas digitais, para reforçar alguns conteúdos de aprendizagem”. Alguns docentes lecionaram conteúdos novos. “Contudo, tendo em conta os relatos de experiência, há evidências para se concluir que não se terá concretizado uma efetiva consolidação de conteúdos em relação a muitos alunos, pelo que é consensual a necessidade de se retomarem alguns desses conteúdos” no ano letivo que está prestes a arrancar.

“Avaliação fortemente seletiva”
A APM continua a defender a necessidade urgente da alteração dos programas e metas de Matemática do Ensino Básico e Matemática A do Secundário e, a 20 de junho, aprovou, por unanimidade, uma moção sobre o assunto em assembleia-geral. Os problemas estão identificados: dificuldades de implementação e execução dos referidos programas pelo “excesso de formalismo” e “desadequação” de grande parte dos conteúdos e abordagens às faixas etárias e ciclos de ensino.

Dificuldades que persistem e que não foram ultrapassadas e que, segundo a APM, “a situação de pandemia expôs ainda mais”. Em seu entender, “os atuais programas e metas associados aos condicionalismos de uma avaliação fortemente seletiva, impossibilitam os professores e as escolas de orientarem a sua prática e as aprendizagens dos alunos para os princípios, visão e valores e áreas de competência definidas no perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória” e, por isso, a associação pede uma intervenção urgente.

Na disciplina de Português, tanto no Ensino Básico como no Secundário, segundo Filomena Viegas, ficaram por concretizar aprendizagens que envolvem interação direta, presencial, entre o professor e os alunos, “que não são concretizáveis na mediação feita através de máquinas, e que assentam, em larga medida, no desenvolvimento da capacidade de autonomia para gerir a própria aprendizagem”. “Essa limitação é notória no trabalho oficinal que pode ser desenvolvido no ensino e aprendizagem da escrita compositiva, bem como na produção de textos orais formais, obedecendo ambas as produções, escrita e oral, a géneros textuais de formato bem definido”, sustenta.

Entretanto, os resultados do exame de Português do 12.º ano, da 1.ª fase, com uma média dentro dos valores dos últimos dois anos, foram divulgados e segundo a APP “a escrita compositiva, no caso em apreço a apreciação crítica de um cartoon, uma das questões de resposta obrigatória com um peso na cotação do exame bastante elevado, terá criado dificuldades aos alunos”. Dificuldades essas que, acrescenta, “não se compaginam com os tipos de exercícios e de atividades privilegiados na modalidade de ensino à distância que estamos a praticar e cujo modelo teremos de desenvolver e melhorar”.

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