Novo ano letivo: O impacto das regras na saúde mental das crianças

Grupo de psicólogos e de profissionais ligados à saúde infantil e juvenil juntou-se, para enviar uma carta aberta à Ordem dos Psicólogos, por estar preocupado com o impacto que as regras sanitárias para o novo ano letivo possam ter na saúde mental e no bem-estar das crianças. O distanciamento entre crianças, a redução dos intervalos, a proibição da entrada dos pais na escola e o uso de máscara são as principais preocupações expostas.
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Ana Rita Dias, Laura Sanches e Zulima Maciel, psicólogas clínicas, tiveram a iniciativa de publicar, no jornal Público, um artigo sobre “As medidas para o novo ano lectivo e o seu impacto na saúde mental das crianças”. O documento, subscrito por outros profissionais de saúde, como Daniel Sampaio, médico psiquiatra, será, agora, enviado para a Ordem dos Psicólogos, em formato de carta aberta. “Infelizmente, não nos sentimos representados pela nossa Ordem, que não tem vindo a assumir nenhuma posição pública pela promoção da saúde mental das nossas crianças e jovens e que apenas demonstra aceitar, passivamente, tudo o que a Direção-Geral da Saúde (DGS) indica”, explicou Ana Rita Dias, no Facebook.

Segundo a carta dirigida à Ordem dos Psicólogos, os profissionais entendem que as medidas sanitárias a adotar nas escolas, devido à pandemia de covid-19, têm sido tomadas “sem grande consideração pelo bem-estar [das crianças] e sem evidência científica da sua real necessidade”.

O distanciamento
Num documento elaborado pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares, em articulação com a DGS, com orientações para as escolas, aconselha-se que as crianças e jovens sejam organizados em grupos/turmas, evitando, sempre que possível, o contacto entre pessoas dos diferentes grupos. Entre outras regras, no interior das salas de aulas, para o pré-escolar, “deve ser maximizado o distanciamento físico entre as crianças, quando estão em mesas”. No ensino básico e secundário, “deve garantir-se o distanciamento físico entre alunos de, pelo menos, um metro”.

O que acontece é que “quando afastamos as crianças e lhes transmitimos a mensagem de que elas precisam de se manter afastadas, estamos a bloquear um instinto natural delas, de procurarem o contacto físico e de se manterem próximas umas das outras”, explicam as psicólogas. “Isto cria-lhes tensão e uma pressão grande, que facilmente se torna num elemento de ansiedade, que sabemos ser tão prejudicial ao seu desenvolvimento e, consequentemente, à sua aprendizagem”, pode ler-se, também, no documento enviado à Ordem.

Os intervalos e os pais
O grupo de profissionais ligados à saúde infantil e juvenil também discorda da orientação que aconselha que os intervalos entre as aulas tenham “a menor duração possível”. “Os intervalos são momentos importantes de socialização e constituem pausas essenciais para uma boa aprendizagem e para potenciar os tempos de atenção/concentração, frisando-se a importância de estes intervalos serem fora da sala de aula”, lê-se na carta aberta.

Outra das orientações que não obtém o apoio dos psicólogos é aquela que impede a entrada dos pais na escola, quando vão deixar ou buscar os filhos. "Para os profissionais em questão, não se trata de um “capricho”. “Uma criança que entra num lugar novo fica sempre num certo estado de alerta, principalmente quando essa entrada implica a separação das suas figuras de apego. A única forma de desactivar esse alerta é o contacto com as figuras de apego. E, enquanto ele não for desativado, a criança não está disponível para novas relações seguras”, explicam, no mesmo documento. A dificuldade no processo de adaptação, frisam os psicólogos, é válida tanto para crianças mais novas como mais velhas, principalmente “depois de tudo o que aconteceu este ano, com um período de afastamento tão prolongado e carregado de tensão por vários motivos”. “Permitir a entrada dos pais na escola é fundamental, para que esta não se torne um mundo completamente estranho e separado da família, em que a criança nunca se sentirá realmente segura”.

O uso de máscaras
O uso de máscaras no interior dos espaços escolares é outra das orientações que não é bem aceite pelos psicólogos. Nomeadamente no que diz respeito à utilização da mesma, pelos adultos, nas creches e jardins-de-infância, por dificultarem o processo de adaptação das crianças, visto ocultarem as expressões faciais. “As expressões faciais são uma parte fundamental da comunicação não-verbal e daquilo que nos faz, ou não, sentir segurança na presença de outra pessoa”, defendem os especialistas. “Sem ver totalmente a cara da pessoa com quem nos relacionamos é bem mais difícil recolher pistas de segurança e, quando nem sequer conhecemos essa pessoa, como irá acontecer na adaptação à escola para muitas crianças, então isso torna-se praticamente impossível”, advertem.

Os psicólogos que redigiram a carta aberta defendem, também, que “segundo vários pediatras europeus, o uso de máscaras em creches, jardins-de-infância, 1º e 2º ciclos, por crianças sem patologia grave subjacente não é necessário, apropriado ou razoável”. E dão, ainda, o exemplo de países como a Suíça ou Dinamarca, que “optaram mesmo por não as tornar obrigatórias para os adultos nas creches e, ainda assim, a Dinamarca não registou um aumento dos casos que fosse associado às escolas, que estão a funcionar desde 15 de abril”.

“Quando nos concentramos apenas na comunicação oral, algo que é forçado pelo uso contínuo de máscaras, estamos a estimular o uso do hemisfério esquerdo, em detrimento do direito, que sabemos estar bastante mais associado a sentimentos de agitação, ansiedade e até de depressão”, alertam, ainda, os especialistas.

Por todos os factores indicados, o grupo que remeteu a carta aberta à Ordem dos Psicólogos sublinha que o stress, na infância, está ligado a uma série de complicações na vida adulta, como a obesidade, a diabetes tipo II, perturbações de ansiedade e depressão e, até, problemas cardiovasculares. Defendem, por isso, que não é necessário aplicar “medidas tão restritivas e limitadoras de um desenvolvimento integral harmonioso e saudável”. E dizem ser “urgente proporcionar às crianças um regresso à escola dentro da maior normalidade possível, reforçando as medidas de higiene das mãos e as atividades ao ar livre, acautelando que as crianças com sintomas da doença fiquem em casa, criando também condições para que os pais possam ficar com elas”.

 

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A perversão do ensino
Prof. Raul Guerreiro / Pedagogo Waldorf
A assim chamada "saúde mental" das crianças e jovens (a designação já está até ultrapassada, tal como já é arcaico, em termos de desvalorização humana, falar de "doentes mentais" – estes podem hoje ser encontrados assentados nas mais altas plataformas das pirâmides governamentais) já estava em franca deterioração muito antes da invasão pandêmica do agente invisível designado por vírus Covid-19. Há decénios que o nosso mundo educacional sofre de uma renitente infecção virulenta, igualmente invisível para a maioria das pessoas: a máquina educativa herdada do período fascista, que continua entregue a políticos e ideólogos de todas as cores espalhados pelo chão da catedral secularizada de um poder estatal central, inapto por natureza para lidar com a tarefa de preparar seres humanos para a vida adulta. Esta é uma missão que envolve sobretudo valores morais e espirituais dirigidos a um futuro coletivo da humanidade – não à sobrevivência financeira de funcionários públicos do nosso recanto europeu, escravos sobretudo de uma monstruosa trama burocrática.
O artigo da Salomé Filipe é entretanto muito útil para alertar sobre as vastas consequências vindas das imposições imperiosas de um pai-estado que julgávamos ser democrático, mas agora se comporta como um agente totalitário em nome do irracional "medo da morte". Por que razão nenhuma autoridade governamental jamais emitiu um decreto proibitivo para o consumo de nicotina? Nicotina é a epidemia Nº 1 no mundo (uma espécie de "doença mental" em crescente expansão) e ataca praticamente todos os órgãos do corpo (não só pulmões, como o vírus Covid-19). Cada cigarro consumido significa um corte de 11 minutos na duração da vida do fumante. Centenas de milhares de vítimas não são fumantes; apenas são obrigados a aspirar o fumo exalado da boca de fumantes. O fumo mata anualmente 8 milhões de pessoas mundialmente; isto significa 1 cadáver a cada 5 segundos. E monta-se agora o espetáculo à la fake news do "terrível vírus que pode matar como se fosse uma 3ª Guerra Mundial em curso". O cego contra-ataque, conforme o artigo bem delineia, vem perverter e arruinar a essência primordial de qualquer ensino: a proximidade da interação humana. Os resultados em termos de cultura e civilização estarão à vista quando os atuais adultos (e políticos) estiverem enterrados em covas, vítimas de idade avançada, nicotina, ou uma variedade de outros bichinhos submicroscópicos.
13-08-2020
 
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