Pais não são “professores” no ensino à distância

Com a escola dentro de casa, pais e professores quase trocaram papéis. Mas nem tudo será inédito na relação família-escola, mesmo que à distância. Ensinar cabe aos professores. Dos pais, espera-se que criem as condições para o sucesso dos filhos.
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Muitos pais dividiram os dias de confinamento entre o trabalho e o apoio aos filhos no ensino à dis-tância. Ao longo de quatros meses, a escola mudou-se para dentro de casa. Agora, o ensino à distân-cia e o ensino misto, que combina aulas presenciais e online, são dois cenários possíveis para o re-gresso às aulas em setembro. O Educare.pt conversou com a presidente do Sindicato Independente de Professores e Educadores (SIPE), Júlia Azevedo, e com o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, sobre o papel dos pais neste novo ensi-no.

Perante a possibilidade de o próximo ano letivo não ser presencial para todos os alunos, Júlia Azevedo esclarece que ter a escola em casa não significa transformar os pais em profissionais da educação. “O papel dos pais será o de supervisionar e de criar condições para que o seu filho te-nha o melhor sucesso”, sintetiza. Ajudar o aluno a organizar o horário para conseguir ser assíduo e pontual. E proporcionar um local adequado para o aluno estar no computador. O que nem sempre aconteceu enquanto as aulas decorriam nos ecrãs. “Verificamos que muitos alunos estavam na cama, ou a tomar o pequeno-almoço, ou num local completamente desconfortável.”

Se ainda não o fizeram ao longo do segundo e terceiro período deste ano letivo, os pais terão ainda de criar hábi-tos e rotinas de estudo dentro de casa. “É fundamental”, insiste Júlia Azevedo. “Todos sabemos muito bem o que acontece quando tudo é em casa. Por isso, os pais devem tentar criar vários mo-mentos, o de trabalho, o de lazer, o da refeição.”

Nem tudo será inédito na relação família-escola, mesmo que à distância. Na lista de afazeres parentais mantém-se a necessidade de verificar o cumprimento das tarefas escolares. “Este é o tipo de apoio que já deveria existir no ensino presencial, só que agora é muito mais premente”, aponta Júlia Azevedo. Por outro lado, “os pais têm de saber que o processo ensino-aprendizagem é uma interação professor-aluno”. Significa isto que “os pais não têm de interromper, nem dar dicas nas aulas, porque assim só estão a desautorizar o professor, a falar do que não sabem e a prejudicar o filho e a turma inteira”. Resumindo: “Tem de haver essa dis-tância.”

Se alguma lição os pais retiraram da experiência letiva destes últimos meses foi a de que acompanhar os filhos é muito mais que ajudar nos trabalhos de casa, levá-los à escola ou ir às reuniões de direção de turma. Pelo menos, é nisso que acredita Jorge Ascenção, presidente da Con-fap. “Muitas famílias que não acompanhavam os filhos além do essencial, perceberam que o acom-panhamento é estar envolvido no processo educativo, é conhecer a escola e dar-se a conhecer à pró-pria escola.” Dito de outro modo, “é participar de uma forma ativa, pró-ativa e não apenas passi-va”.

Novas perceções
Os pais tiveram uma perceção diferente do que é o trabalho escolar, interpreta o dirigente do movimento associativo parental. “De alguma forma a sala de aula esteve em nossa casa. Não é que os pais tivessem de estar presentes na sala de aula – aconteceu te-rem de dar ajuda em algumas dificuldades porque obviamente o professor não podia estar perma-nentemente presente – mas, sobretudo, puderam perceber todo o processo educativo.”

A julgar pela quantidade de e-mails que os professores receberam das famílias dos seus alunos, preci-samente, a agradecer o apoio nestes meses, Júlia Azevedo, está convencida que muitos pais percebe-ram a importância do trabalho docente. “Ensinar cabe aos professores. Não podemos sobrecarregar os pais com um trabalho que não lhes é possível ter e também que não sabem, nem lhes compete fa-zer.”

Se os pais ficaram por dentro do processo educativo, os professores entraram na vida das famílias. E observaram “pais que preparavam os lanches, chegavam os livros e por aí fora”, refere Júlia Azevedo. Perceberam “alguma falta de autonomia por parte das crianças do 2.º e 3.º ciclo e ve-rificaram que essa falta de autonomia causava entraves à aprendizagem”.

O problema não é alheio à Confap. Jorge Ascenção passou muitas horas da quarentena a responder a e-mails de pais. Nessas trocas, percebeu que “algumas famílias tiveram consciência de que até aqui não estariam a acompanhar os filhos como é preciso”. Outras descobriram nos filhos capacidades que desconheciam. “Às vezes temos a ideia de que as crianças não são capazes de ter autonomia ou de pensar em certas coisas. Foi uma descoberta interessante em termos de família perceber que os nossos filhos têm ca-pacidades das quais nós duvidávamos.”

Perspetivando um ensino à distância ou misto, com todas as condicionantes identificadas ao longo destes quatro meses, Júlia Azevedo está certa de que o primeiro período de 2020/2021 será “extenuante para toda a comunidade educativa”. Jorge Ascen-ção faz outra análise, diz que “setembro não será um recomeço, mas um começar diferente”, com uma vantagem para pais, professores e alunos: “Não vamos ser apanhados de surpresa.

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