Ensino profissional: a oferta, a procura e as escolhas dos alunos

Maioria dos estudantes da via profissional concluiu os estudos dentro do tempo previsto e há cada vez mais escolas a melhorar a taxa de conclusão em três anos letivos. Mas há problemas de fundo, segundo a Associação Nacional de Escolas Profissionais.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

Um em cada 10 alunos que optou pelo ensino profissional desistiu de estudar antes de terminar o ensino obrigatório. Ou seja, 3 621 alunos que perfazem 11,93%. A Lusa analisou o percurso de mais de 30 mil estudantes dos pouco mais de 100 mil que frequentavam o ensino profissional, no ano letivo de 2017/2018, e avança com algumas conclusões.

A maioria dos 30 333 alunos que escolheram um curso da via profissional, em 2015/2016, concluiu os estudos dentro do tempo previsto, ou seja, dois em cada três fizeram um percurso de sucesso e terminaram o curso profissional em 2017/2018 sem nunca reprovar ao longo dos três anos.

Um grupo mais pequeno de 6 300 alunos, que corresponde a 20%, reprovou ao longo do seu percurso escolar, mas esses estudantes continuaram inscritos na via profissional. Outros 4,5% decidiram inscrever-se noutra modalidade do Ensino Secundário. Neste caso, foram 1 382 estudantes que o fizeram.

Os dados mostram ainda que há cada vez mais escolas a conseguir melhorar a sua taxa de conclusão em três anos letivos. Num universo de 544 estabelecimentos, com dados disponíveis, um em cada quatro (26%) conseguiu reduzir o número de alunos com chumbos ao longo dos três anos. Em 62 estabelecimentos de ensino, as taxas de conclusão entre os anos letivos de 2015/2016 e 2017/2018 pioraram.

O ensino profissional parece ser uma opção cada vez mais atrativa para os jovens. No ano letivo de 2017/2018 havia mais de 110 mil alunos inscritos em cursos profissionais, mais dois mil do que no ano anterior. Os últimos dados disponibilizados pela tutela mostram também que a oferta tem aumentado. De um ano para o outro, apareceram mais 353 cursos profissionais, em 2017/2018 havia 3 202 cursos espalhados pelo país, dos quais 18 eram novos.

A procura pelo ensino profissional tem vindo a aumentar, há escolas que pedem para abrir mais cursos, a procura é superior à oferta, e há outras em que isso não acontece, e o contexto territorial continua a ser determinante. Há, no entanto, um “problema de fundo”. “A circunstância de termos uma percentagem muito elevada de cursos gerais científico-humanísticos, em contraciclo com o que se passa na União Europeia”, observa José Luís Presa, presidente da ANESPO – Associação Nacional de Escolas Profissionais, em declarações ao EDUCARE.PT.

Em Portugal, o ensino profissional é frequentado por 33% dos alunos na idade própria, enquanto na União Europeia a percentagem sobe para os 70%. É um assunto que, na opinião do presidente da ANESPO, devia preocupar quem pensa as questões da formação e da educação do nosso país. “Para haver um aumento do ensino profissional, tem de se reduzir os cursos científico-humanísticos”, refere.

Há vários fatores que devem ser analisados e tidos em consideração. José Luís Presa lembra que a redução do número de alunos é um facto incontornável até 2030, numa descida média previsível de 2% ao ano. “O que é que o Ministério da Educação vai fazer? Vai reduzir cursos?”, pergunta. Por outro lado, em seu entender, os serviços de orientação e vocação profissional “não funcionam” porque “não têm em conta as tendências vocacionais dos alunos”. “O problema, depois, tem a ver com a orientação política, haver vontade de mudar, e a forma de o fazer, dói. Implica dizer às escolas que têm de reduzir os cursos científico-humanísticos e há uma resistência muito grande”.

Gestão e informática lideram preferências
Segundo a análise da Lusa, os cursos com mais procura continuam a ser os de “Técnico de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos” com quase 10 mil alunos, seguindo-se “Técnico de Turismo” e “Técnico de Multimédia”, este último com 6 925 alunos no ano letivo de 2017/2018. Há outros cursos sem qualquer procura como é o caso de “Técnico de Máquinas Florestais”, sem um aluno inscrito no ano letivo de 2017/2018.

No grupo dos cursos com menos procura encontram-se as formações para técnico de construção civil e de joalharia, com apenas cinco e dez alunos inscritos, respetivamente. Na lista das formações menos procuradas, está também o de “Acompanhante de Turismo Equestre” com apenas 17 alunos e o de “Técnico de Assistente Dentário” com 16 inscritos.

As zonas de Lisboa e do Porto concentram mais alunos e cursos. Por outro lado, há 11 concelhos no país que têm apenas um curso disponível. Destes 11, há nove sem ensino profissional a funcionar. O único curso existente em Arraiolos, Arronches, Figueira de Castelo Rodrigo, Mora, Ourique, Tabuaço, Vila de Rei, Vila Flor e Vila Nova de Foz Coa não tinha nenhum aluno inscrito, segundo o levantamento feito pela Lusa.



 

    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.