Saúde mental - As crianças absorvem as angústias dos adultos

Medo, ansiedade, impaciência, incertezas, dúvidas, saudades. As emoções em tempos de pandemia remoem a cabeça e os desafios que o desconhecido provoca são gigantes. Como é que os mais novos lidam com este novo contexto, com rotinas e hábitos virados do avesso? Como ajudá-los?
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As ameaças à saúde mental estão identificadas, as preocupações são comuns a gente de várias idades, e podem moer a cabeça, o coração, a alma. Medo de ser infetado ou algum familiar ou alguém próximo. Ansiedade e impaciência provocadas pelo isolamento, pelo confinamento. Impotência nas rotinas viradas do avesso de um dia para o outro. Apreensão relativamente ao futuro. Saudades de quem já não se vê há demasiado tempo. E não saber lidar com tudo isto. São novos desafios em tempos de pandemia e que podem mexer com a saúde, com o bem-estar, com a estrutura mental e emocional de crianças e jovens. Há sinais que não devem passar despercebidos.

Inteligência emocional é um conceito chave na saúde mental dos mais novos. “Como na infância as áreas cerebrais responsáveis pela capacidade de planeamento, de controlo de impulsos e de regulação emocional estão longe de estar plenamente desenvolvidas, cabe aos adultos de referência ajudar a criança a desenvolver recursos para lidar com a adversidade, para se adaptar à mudança, para gerir emoções, para conseguir ser resiliente em momentos que desafiam o seu bem-estar”, explica Inês Afonso Marques, psicóloga clínica, coordenadora da área infantojuvenil da Oficina de Psicologia.

É preciso atenção a determinados aspetos num assunto tão delicado e sensível. As crianças sintonizam-se com os estados emocionais dos adultos que são os seus modelos e dizer o que vai na alma nem sempre é fácil. “Nem sempre conseguem recorrer às palavras para espelharem o seu mundo interior. É através das suas brincadeiras, dos desenhos que fazem e dos comportamentos que apresentam que habitualmente revelam os seus medos, as suas preocupações, as suas angústias, as suas dúvidas…”.

Dar nome ao que se sente, ajudar a perceber que as emoções não são um bicho de sete cabeças, criar laços afetivos que transmitam segurança, fornecer estratégias de regulação emocional ajustadas às faixas etárias, são passos que não devem ser descurados. O contacto físico, sejam festas, cócegas ou massagens, é muito importante. “Uma forma da criança se sentir especial, apreciada, valorizada. Uma forma de se estreitarem laços emocionais. Uma forma de conter e regular emoções desafiantes, desagradáveis”.

E brincar, brincar sempre, brincar muito. Todos os dias, em diferentes contextos. Inês Afonso Marques lembra que as brincadeiras “são uma espécie de janela para o mundo interior das crianças”. “Logo uma forma dos pais conhecerem os filhos e acompanharem a forma como pensam, sentem e vivenciam o mundo”. O que permite agir precocemente quando percebem que a saúde psicológica não está bem.

“Deste modo, através do brincar os pais podem ir percebendo como é que os filhos estão a gerir a realidade atual, compreender como se estão a adaptar a todas as exigências que a atual situação tem colocado às famílias, nomeadamente ao processo de confinamento e, agora, ao desconfinamento gradual”, refere. “Através das brincadeiras as crianças expressam emoções, diminuem ansiedades, mostram a forma como compreendem o mundo, fazem perguntas, partilham dúvidas, constroem sentidos e significados. Ao brincar, a criança dá forma aos seus pensamentos, ao que observa à sua volta, exprime as suas emoções, interpreta o que acontece consigo e com os que a rodeiam e ensaia comportamentos”, adianta a psicóloga clínica.

Inês Afonso Marques destaca três aliados na questão da saúde mental dos mais novos. Atividade física para crescer de forma saudável, explorar o mundo, libertar tensões, produzir hormonas de bem-estar. Sono ajustado às necessidades e às idades para regular o humor e os comportamentos. E uma alimentação variada e equilibrada que tem impacto tanto na saúde física como na saúde psicológica.

Mais perguntas, mais compreensão, mais colo
A depressão é um problema grave. Em três meses de pandemia, venderam-se mais de cinco milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos pelo mundo e Portugal foi o quinto país da OCDE que mais consumiu esse tipo de medicação. No início de junho, o Fórum Nacional de Psicologia defendeu intervenções psicológicas em larga escala no Serviço Nacional de Saúde como a “estratégia mais adequada e efetiva”. A Câmara de Lisboa, por exemplo, tem uma linha gratuita de apoio psicológico (800 916 800) disponível 24 horas por dia, todos os dias.

O Ministério da Saúde criou um site para ajudar quem precisa de suporte numa altura tão complicada, assente num trabalho conjunto de psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e psicomotricistas. Um grupo de especialistas ao dispor de quem quer tirar dúvidas ou esteja com dificuldades em lidar com a atual situação de pandemia que, de repente, modificou a vida de toda a gente, em todo o mundo.

Um trabalho articulado com respostas integradas para tentar prevenir problemas futuros e ajudar a viver o presente. A resposta do Serviço Nacional de Saúde em termos de saúde mental foi reestruturada, por força das circunstâncias e de uma situação disruptiva nunca vivida, nunca sentida. Na base desta intervenção, está um plano de emergência para a saúde mental.

O site disponibiliza informação sobre a COVID-19, de forma simples e sucinta, bem como todos os contactos úteis por regiões. E dá conselhos para diferentes públicos, mais novos incluídos. “As crianças são afetadas pelo confinamento. Sentem as diferenças na rotina habitual, estão atentas às alterações nos adultos à sua volta e absorvem as suas preocupações, momentos de tensão e stresse”, lê-se no site. Por isso, é importante que os adultos “transmitam serenidade e tentem encontrar formas de ultrapassar as dificuldades que vão surgindo”.

As crianças são todas diferentes, cada uma responde ao stresse à sua maneira. “Algumas podem pedir mais colo, mostrarem-se mais dependentes, agitadas ou zangadas. Podem também ter mais tendência ao isolamento, a fazer xixi na cama ou a ter dificuldades em dormir, por exemplo. Os adolescentes podem ficar mais ansiosos ou irritados”.

Os adultos têm de estar atentos, escutar as preocupações dos mais novos, responder aos medos e dúvidas com compreensão, dar doses extra de atenção e carinho. Falar e sobretudo ouvir. Explicar o que se está a passar com informação clara sobre como reduzir o risco de infeção numa linguagem adaptada à idade. Dar o exemplo nas maneiras de prevenir. Manter as rotinas ou ajudar a compor novos horários com momentos para aprender e para brincar em segurança.

E negociar regras. “Num contexto de confinamento prolongado, é natural que algumas tensões familiares possam aumentar, particularmente com adolescentes”, lê-se no site que aconselha a manter a capacidade de negociar regras e colocar limites. “Permita as interações sociais – conversas online com amigos ou familiares – de forma segura, mas respeitando a necessidade de privacidade dos adolescentes. O contacto com o exterior ajuda a manter uma sensação de normalidade e diminuir tensões”.

O risco de desorganização é maior nas crianças com necessidades especiais num momento de isolamento social. É importante ajudá-las a protegerem-se, manter as novas rotinas, bem como procurar “atividades ao gosto das crianças que envolvam música, ritmo, movimento, brincadeira, relaxamento”. É importante manter o contacto com os profissionais de referência para adaptar atividades e lidar com eventuais alterações do comportamento.

“Situações de conflitualidade familiar, falta de supervisão parental e ausência de rotinas trazem problemas para a saúde física e mental das crianças e jovens, o seu impacto é grande e deve ser valorizado”. Crianças e jovens em risco são também motivo de preocupação no atual contexto. É preciso atenção a comportamentos e a reações emocionais que podem ser sintomas de dificuldades. Tristeza e choro, agressividade, ansiedade ou medo no contacto com outras pessoas, lesões corporais pouco comuns. Tudo isso são sinais de alarme.

Informações:
https://saudemental.covid19.min-saude.pt/

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Comentários
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Saúde Mental tem cada dia mais importância
Janes
Super importante o posto sobre o Saúde Mental, participo de um projeto chamado ABC das Emoções, ele surgiu para trabalhar os sentimentos > emoções > comportamento dos pais, filhos e professores.

Gostaria muito de poder divulgar, ele é gratuíto.
29-06-2020
 
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