Alunos sem contacto com professores, desigualdades agravadas, exaustão no teletrabalho

Federação Nacional dos Professores divulga resultados de inquérito feito à classe sobre o ensino à distância. Há críticas à tutela, elogios aos esforços dos pais e encarregados de educação, preocupações sobre matérias por consolidar e avaliações a fazer. Federação Nacional da Educação quer que se clarifique o enquadramento legal do teletrabalho e alerta para a conciliação da vida profissional com a vida pessoal e familiar.
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A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) resume numa frase, que prevê que se torne emblemática, os sentimentos dos professores em teletrabalho: “O ensino não é isto, nem nada que se pareça!” A afirmação é de uma professora que participou num inquérito, promovido pela federação, sobre o ensino à distância. Os resultados revelam que mais de metade dos professores, 54,8%, não tinham conseguido contactar com todos os seus alunos a meio do 3.º período. Posteriormente, em alguns casos, foi possível estabelecer contacto, mas não manter uma participação regular na atividade letiva.

Apesar das circunstâncias, mais de dois terços, 70,5%, avançaram com novos conteúdos curriculares, enquanto cerca de 30% limitaram-se a reforçar conteúdos que já tinham sido trabalhados em sala de aula, e 47,8% afirmam que irão avaliar novos conteúdos - percentagem abaixo dos que referem ter avançado na matéria. Conscientes dos défices que se verificarão no final do ano letivo, os professores consideram inevitável superá-los e reforçar apoios pedagógicos aos alunos no próximo ano escolar.

Quanto ao trabalho desenvolvido, os professores recorrem, regra geral, às plataformas digitais para trabalhar em grupo e ao e-mail para contactar os alunos, enviar literatura e documentos de apoio e reforço das aprendizagens, receber trabalhos, entre outros elementos importantes para a avaliação. Em relação aos alunos de grupos etários mais baixos, até aos 12 anos, tem sido necessário o acompanhamento permanente por parte de um adulto, o que nem sempre acontece. “Este problema também se verifica em relação a alunos com problemáticas complexas e baixo nível de funcionamento autónomo”, conclui-se no inquérito.

Do total dos professores de Educação Especial inquiridos, 43,9% consideram adequadas as medidas de apoio aos alunos com necessidades educativas especiais, 15,3% dizem ser não adequadas, e 40,8% alegam desconhecer essas medidas. A FENPROF conclui que “não houve, pois, um descomprometimento dos professores, confirmou-se foi que o ensino à distância”, como disse um professor, “não está em sintonia com a inclusão”. “Sem surpresa, a distância escava fossos que dificultam o encontro.”

Ao todo, 93,5% dos professores referem que as desigualdades se agravaram e 92,9% que é preciso superar défices no próximo ano letivo. Quase dois terços, 65,1%, consideram que o ensino à distância tem um grau de exigência maior do que o presencial, principalmente pela necessidade de estabelecer contactos individualizados, por e-mail ou por telefone, após as sessões síncronas. A apreciação das emissões televisivas do #EstudoEmCasa é positiva: 43,9% dão “bom”, 8% “muito bom”, 40,5% “insuficiente”, 7,6% não têm opinião.

O apoio prestado pelas escolas, pelos pais e pelos encarregados de educação tem nota positiva. Por outro lado, a maioria dos professores diz desconhecer os apoios que poderão ter sido dados pelas autarquias locais. A perceção muda de figura quanto à tutela. “Já em relação ao Ministério da Educação, professores e educadores não têm dúvidas: não deu o apoio a que estava obrigado e que se exigia dos seus responsáveis, em particular do ministro. Esta é a opinião de cerca de 60% dos docentes, não atingindo os 20% daqueles que consideram ter sido adequado o apoio prestado pelo Ministério da Educação.” Nas respostas abertas, “muitos docentes” afirmam que “soaram a hipocrisia os elogios que ouviram dos governantes”.

“Cada um à sua sorte e todos por sua conta”
A FENPROF sublinha dois tópicos que os docentes destacam nas respostas ao questionário. Por um lado, o desgaste e o cansaço pela adaptação a um modelo inédito de atividade, pela distância que não facilita o acompanhamento de todos os alunos, pelo “facto de a atividade profissional ter tomado conta de todas as horas do dia e, ao invadir a casa de cada professor, dificultar a sua indispensável e saudável separação da vida familiar.” Por outro, a desigualdade entre os alunos “que se agravou” e, em alguns casos, “perigosamente.”

A FENPROF faz questão de vincar a postura dos professores que, sublinha, “como sempre, foram solidários com os alunos e colocaram ao seu serviço as casas, o computador, a Internet, o telemóvel e, até, a sua privacidade. Fizeram-no porque, desde cedo, perceberam que a tutela não estava a fazer a sua parte. Não a de emitir ordens, orientações, circulares, disposições, plataformas ou aplicações, pois essas têm jorrado em cascata, mas a de, atempadamente, criar condições efetivas para o que designou por E@D. Deixou cada um à sua sorte e todos por sua conta.”

O questionário contou com 3548 respostas validadas e recolhidas online. Os professores responderam ao inquérito durante a primeira quinzena de maio, a maioria, 96,1% do total, lecionam no ensino público. A maioria, 63,9%, são professores do 3.º Ciclo e Secundário, 20,2% do 2.º Ciclo, 18,1% do 1.º Ciclo e 7,8% do pré-escolar. Há uma forte participação de professores e educadores com 50 ou mais anos de idade e com mais de 30 anos de serviço, o que reflete o envelhecimento da classe. Além das perguntas de pesquisa, com respostas múltiplas, pediram-se aos inquiridos contributos e apreciações em perguntas abertas.

Os professores partilham assim o que sentem, o que pensam, como veem o ensino à distância, o que mais os preocupa. Há críticas à forma como o processo foi gerido, há preocupações quanto às desigualdades, nota-se o desgaste e a exaustão, refere-se um excesso de trabalho imposto, sobretudo burocrático. “Aqueles que, às aulas, somam funções de direção de turma referem que são quase 24 sobre 24 horas no contacto com alunos, colegas e encarregados de educação.”

Os professores queixam-se de desrespeito nos aspetos laborais, pelos limites legalmente fixados do horário de trabalho e não esquecem as questões da carreira, as medidas para rejuvenescer o corpo docente, a precariedade que persiste. “Para os professores, as desigualdades aprofundaram-se, aos alunos com necessidades educativas especiais faltam apoios sem os quais as suas dificuldades aumentam e são muitos os que temem que, num contexto destes, a avaliação acabe por ser injusta”.

Entre mais de 10 mil comentários, a FENPROF selecionou alguns pela sua “acutilância, clareza e objetividade”. São várias frases que mostram descontentamento e insatisfação. “Por muita tecnologia que exista e se possa utilizar, nada substitui o ensino presencial. Para ensinar a pregar um prego é sempre preciso o martelo, o prego e sentir todo esse processo, mesmo que se magoe o dedo. Pode ser uma metáfora, mas é uma metáfora bem real.” “A sobrecarga de trabalho é assustadora e doentia, como se os professores, por permanecerem em casa, tivessem de estar 24h disponíveis para a escola.”

A federação revela mais comentários. “A minha maior preocupação é com os alunos com dificuldade de aprendizagem que não são capazes de realizar os trabalhos de forma autónoma e como grande parte dos pais estão a trabalhar, os alunos ficam sem suporte”. “O excesso de voluntarismo da nossa parte, professores, deixa a tutela descansada, apesar de desnorteada e alheada da realidade”. “Os elogios feitos agora aos docentes são despropositados, hipócritas, cínicos. A classe docente deu sempre o seu melhor, em todas as circunstâncias.” “O ministério contou com os recursos de cada professor, sem que nada fizesse para resolver essa situação. Querem fazer flores com o material dos professores.”

O direito a desligar, guias práticos, linha de aconselhamento
A Federação Nacional da Educação (FNE) exige a clarificação do enquadramento legal para as condições de trabalho que recorram às TIC na área da Educação. Na sua opinião, é essencial “um espaço de negociação e de diálogo social que vise o enquadramento destas situações” e uma forte intervenção sindical que proteja a “saúde e o bem-estar de todos os que coabitam nas nossas escolas”.

Para a FNE, o recurso às ferramentas e plataformas digitais deve ser “ocasional e complementar e não sistemático”. “Se é verdade que estas ferramentas revelam algumas vantagens, a verdade é que elas não são substitutivas da atividade letiva presencial, para além de poderem dar origem à desregulação do tempo de trabalho, à sobreposição entre a vida profissional e a vida familiar e a uma maior intensidade de trabalho e consequente agravamento do desgaste físico e psíquico dos docentes”, refere em comunicado.

A estrutura identifica várias linhas reivindicativas para o futuro próximo, no âmbito do trabalho docente em contexto de teletrabalho. Em seu entender, neste processo, há um conjunto de fatores que devem ser tidos em consideração, desde logo o combate à desregulação do tempo de trabalho, a determinação do direito a desligar, a dotação de recursos indispensáveis ao teletrabalho e compensação dos gastos acrescidos associados, a defesa da saúde, o investimento na formação contínua para a utilização adequada das ferramentas digitais, a cibersegurança, a conciliação da vida profissional com a vida pessoal e familiar.

“O direito a desligar-se deve estar previsto e regulamentado, evitando-se dessa forma a tendência para a instalação de culturas de trabalho caracterizadas pela intensidade autoimposta e pela disponibilidade constante”, sustenta a FNE. “As condições de defesa da saúde devem constituir outro aspeto essencial a regulamentar, em áreas como a organização do seu trabalho e do seu local de trabalho, devendo ser garantido o acompanhamento de avaliações e gestão dos riscos psicossociais, tal como o stress”, acrescenta.

A FNE defende a abertura de uma linha de atendimento e aconselhamento sobre os cuidados básicos a nível de saúde em contexto de teletrabalho, a criação de um portal sobre recursos educativos online por parte do Ministério da Educação, a criação de mecanismos que permitam a partilha de boas práticas, a compensação pelo exercício da função docente em teletrabalho, a publicação de guias práticos para professores, alunos, pais e encarregados de educação.

O ensino à distância não pode ser perpetuado nem pode ser a norma, segundo a FENPROF. Caso se mantenha no início do próximo ano letivo, esse cenário, na sua opinião, tem de estar previsto no despacho normativo de organização do ano letivo e deve ser alvo de uma discussão que envolva toda a comunidade escolar. O ensino à distância não pode ser uma alternativa permanente, como defendem as várias organizações sindicais que representam a classe docente.

Para Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, o ensino à distância, até como confirmam os resultados do inquérito realizado, “cava fossos muito fundos de desigualdades” e até coloca em causa a própria Constituição portuguesa na defesa de uma escola pública promotora de igualdade de oportunidades. “Este foi um ano de exceção, mas o próximo vai ser um ano em que também se vai refletir muito do que se passou agora”, avisa.

Sobre o pacote de 400 milhões de euros, anunciado na sexta-feira pelo Governo, para apoiar a Escola Digital, o dirigente sindical é claro. É bem-vindo se for para atualizar o parque tecnológico e para a formação dos docentes nas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). “Se for para eternizar o ensino à distância e não apenas para o ter preparado para eventuais situações excecionais que surjam, então será dinheiro mal gasto”, afirma.

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