Que escola se segue à COVID-19?

A educação foi e continua a ser bastante afetada pela pandemia COVID-19. Gradualmente, os países reabrem os estabelecimentos de ensino. Enquanto as escolas se preparam para voltar “à normalidade”, investigadores questionam se os sistemas educativos vão aprender com as lições da experiência pandémica.
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Quando as escolas começaram a fechar, o que segundo a UNESCO aconteceu em 188 países por todo o mundo, os professores viram-se a braços com a necessidade de criar práticas de ensino alternativas. Fizeram-no. “Apesar da pouca formação inicial para dar aulas à distância”, admitem os investigadores, Sogol Noorani e David Crosier, numa análise intitulada “Can the coronavirus pandemic improve our schools?”, publicada no fórum online da rede Eurydice onde vários especialistas têm debatido o impacto da COVID-19 no ensino.

Os professores não foram os únicos a ter de se reinventar. Pais com crianças em idade escolar, por outro lado, tiveram “subitamente de encontrar um equilíbrio entre os compromissos de trabalho ou teletrabalho e os esforços para apoiar as atividades educativas dos filhos em casa”. Resultado: “No melhor cenário”, constatam os investigadores, “os professores conseguiram colaborar entre si e com os pais para assegurar a continuidade do ensino aos alunos”.

Ainda assim, alguns professores tiveram grandes dificuldades com as tecnologias da informação. Em Itália, “o encerramento das escolas obrigou os professores a inventar uma nova sala de aula do nada”, dava conta um artigo publicado no The Guardian, a 24 de abril. Sem guias ministeriais ou sites aprovados, “toda esta nova forma de ensino online foi criada por nós professores no último minuto”, relatava ao jornal britânico Daniele Martino, professora do ensino secundário em Turim.

As primeiras semanas foram caóticas, descreve o jornalista Tobias Jones, pai de três filhos, com 15, 13 e 9 anos e há três anos radicado em Itália. “Havia pouca coordenação entre diferentes professores da mesma escola, e muito menos coordenação entre professores de escolas diferentes, e os pais diziam-se aturdidos com uma vasta gama de plataformas de comunicação online: Meet, Classroom, Zoom, Jitsi, Edmodo.

Mas em Itália, como em muitos outros países, a Internet não chega a todos. “O problema não estava apenas no facto de sites e servidores bloquearem, porque quase 8 milhões de estudantes do país estavam conectados”, reflete Tobias Jones, “mas nas muitas crianças que não tinham uma conexão.” Segundo os últimos dados da agência nacional de estatística daquele país, 23,9% das famílias italianas não têm acesso à Internet.

Resposta à desigualdade educativa
Antes da pandemia, a desigualdade era já um problema sinalizado em muitos sistemas educativos. Com o encerramento das escolas a situação agravou-se, corroboram Noorani e Crosier. “As famílias com baixa escolaridade, barreiras linguísticas ou privações materiais, incluindo a falta de recursos físicos, como computadores ou Internet de alta velocidade, são incapazes de apoiar o ensino à distância dos filhos.” O lado positivo foi que por toda a Europa, e mesmo fora dela, vimos que “os Governos tomaram medidas imediatas para garantir apoio às famílias mais desfavorecidas”.

Exemplos vindos de Espanha, onde uma lei adotada recentemente determina que as famílias cujas crianças beneficiam de refeições escolares têm direito a ajuda financeira ou à entrega direta de alimentos durante o encerramento da escola. Mas também vindos da Holanda, onde o Governo destinou 2,5 milhões de euros para comprar computadores portáteis para estudantes do ensino geral e profissional que não têm equipamento adequado em casa.

Portugal surge como exemplo nesta síntese de países que atenderam às desigualdades entre alunos, por ter disponibilizado um canal de televisão nacional para transmitir aulas de diversas disciplinas para todos os alunos em idade escolar obrigatória. Visando, sobretudo, aqueles que não têm acesso à Internet ou a computadores. E a Irlanda cujas orientações específicas emitidas pelo Departamento de Educação e Competências disponibilizaram conselhos e recursos concretos para escolas e professores destinados a apoiar estudantes do ensino básico em risco de desigualdade educativa.

Estas iniciativas “representam algumas das respostas mais urgentes e essenciais para lidar com as desigualdades sociais e educativas que a pandemia de coronavírus fez aumentar nas nossas sociedades”, sublinham os investigadores.

Melhoria de resultados dos alunos
Da experiência de ensino à distância, a Eurydice tem ouvido professores que relatam uma “melhoria inesperada” nos trabalhos escolares dos seus alunos. Entre estes docentes, cresce a certeza de que vários fatores – inerentes à atual realidade educativa – estão a contribuir para este fenómeno.

Fatores como a flexibilidade que os estudantes agora têm para organizar os seus dias. Algo que lhes permite, por exemplo, fazer exercício ou pausas conforme as suas necessidades. Até mesmo a falta de atividades extracurriculares, pode estar a dar aos alunos mais tempo para se concentrarem no trabalho escolar. Mas também não serão de ignorar, a queda na carga geral de trabalho, o adiamento de testes que veio retirar dos alunos a pressão e o medo de falhar. E, por último, a segurança de estudar em casa que, para os alunos que são vítimas de bullying, pode ser um alívio bem-vindo.

Comunicação entre pais e escolas
Noorani e Crosier estão convencidos de que “a pandemia sublinhou também o papel crítico desempenhado pelos pais no apoio à aprendizagem e desenvolvimento dos alunos”. O facto de se ter conseguido “estabelecer uma comunicação clara entre as escolas e os pais, com orientações simples sobre os objetivos e resultados da aprendizagem, tem sido fundamental para garantir que os pais possam ajudar os seus filhos sem que ninguém se sinta sobrecarregado”, argumentam.

Comunicação, consulta e coordenação entre a escola e a família continuam a ser cruciais. Tanto para garantir aos pais que os alunos estão seguros na escola, como para assegurar a continuidade do apoio às atividades letivas, neste momento da reabertura iminente dos estabelecimentos de ensino, advertem os investigadores da Eurydice.

Numa altura em que o mundo ainda não dispõe de vacina para a COVID-19, o regresso à escola impõe o cumprimento de medidas para impedir a propagação do vírus. Recentemente foram conhecidas em Portugal as regras de higienização dos espaços escolares e distanciamento social aplicadas a creches e escolas secundárias que abriram a 18 de maio. Regras que tinham sido antecipadas em março pela UNICEF no documento “Key Messages and Actions for COVID-19 Prevention and Control in Schools”.

Saúde física, mental e bem-estar
Sem minimizar as preocupações com o contágio por COVID-19 nas escolas, Noorani e Crosier advertem que “as necessidades de saúde também devem incluir saúde mental e bem-estar, que continuarão a representar desafios para estudantes e funcionários além do período de confinamento”.

Inquéritos realizados a professores, durante a atual pandemia, mostram que muitos experimentam níveis elevados de stresse e ansiedade. 59% dos professores do ensino básico e 49% dos professores do ensino secundário do Reino Unido, numa amostra de 820 inquiridos através da plataforma YouGov, mostraram níveis de stresse e ansiedade superiores ao normal no início do semestre. Em Portugal, algumas associações de professores e diretores têm considerado a possibilidade da classe docente estar agora emocionalmente ainda mais exausta do que antes da pandemia.

Nos inquéritos já realizados em diferentes países, os níveis de stress e ansiedade mostraram-se relacionados com o encerramento da escola, com o ensino à distância, mas também com a incerteza do regresso às aulas. “Sentimentos que podem aumentar à medida que as escolas reabrem”, advertem Noorani e Crosier.

A pandemia suscitou uma série de questões que, de acordo com os investigadores, não devem ser ignoradas. “Os sistemas educativos podem usar esta crise como uma oportunidade para repensar algumas das suas práticas e levar uma experiência positiva para a era pós-COVID-19.” Que escola se segue? Existem já algumas pistas.

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O VÍRUS CORONA MANIPULADO COMO FATOR ANTI-CIVILIZA
Prof. Raul Guerreiro
O VÍRUS CORONA MANIPULADO COMO FATOR ANTI-CIVILIZATÓRIO

O vírus Corona (uma ninharia em comparação com a Gripe Espanhola de antanho, mais os recentes surtos de Ébola e SIDA) apenas serviu para modernos materialistas endeusarem o "medo da morte" como instrumento quasi-religioso de preservação de egoísmos, e impulsionador de medidas governamentais faraónicas (a rigor antidemocráticas, e até recentemente só concebíveis em nações autoritárias e subdesenvolvidas). Corona, esse elemento submicroscópico, não veio criar qualquer novidade na área da educação. O stress entre educação humanizada e instrução robotizada já estava em evolução há muito tempo. Estupefatos agora com uma realidade caída do céu como um meteoro invisível, inúmeros políticos, pedagogos e pais imaginam, num espírito de cega lamúria fadista e entrega fatídica, que o futuro mundo de adultos deve também desde já ser o "meioambiente inevitável" de preparação para as novas gerações. Simultaneamente, um gigantesco exército comercial e académico, amoldado à orientação tecno-animalizada do pai-estado (uma instituição cada vez mais ignorante da dimensão civilizacional e espiritual da educação) vem iludir a opinião pública para proclamar que também no universo escolar os seres humanos devem ser substituídos por máquinas.

Numerosíssimos estudos científicos, medicinais e psicológicos prevêm entretanto uma deformação física do cérebro humano a longo termo, e uma corrupção ética e moral da consciência humana, quando se permite que o tsunâmi digital infiltre os primeiros anos da vida infantil e escolar. Mas o comodismo que impregna os mecanismos obsoletos da máquina governamental, mais os seus satélites privados, ignora vergonhosamente a tragédia de milhões de futuros cidadãos que, amputados nas suas fases naturais de desenvolvimento infantil, tornar-se-ão escravos de máquinas, já antes de alcançar a lucidez mínima de jovens-adultos senhores de si, dos seus valores humanos e dos seus destinos individuais.
04-06-2020
 
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