Como são as aulas de Educação Física à distância?

Um autêntico desafio. Investe-se na aptidão física, fazem-se planos de treinos, criam-se grupos virtuais, veem-se e comentam-se vídeos, prossegue-se com as matérias teóricas. Mas não é a mesma coisa sem o contacto e a proximidade com professores e colegas, sem o feedback constante de cada exercício.
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As aulas de Educação Física têm uma forte componente prática. São atividades, exercícios, modalidades, além da vertente teórica. Os alunos, de todos os níveis de ensino, estão a ter aulas à distância, em casa, sem contacto direto com o professor da disciplina. Há desafios, constrangimentos, obstáculos. Aposta-se na aptidão física. O seguro escolar permanece ativo nas aulas práticas em casa e a componente prática nas provas de equivalência à frequência no Ensino Básico e Secundário mantêm-se.

João Ramalho é professor de Educação Física do 3.º Ciclo do Ensino Básico, dá aulas a quatro turmas do 8.º ano no Agrupamento de Escolas Afonso de Paiva, em Castelo Branco. “Está a ser um grande desafio”, confessa. Quando as condições de ensino se alteraram por causa da pandemia, fez um questionário aos seus alunos para perceber o nível de atividade física. “Estavam com níveis de inatividade física muito elevados”, revela.

A situação excecional provocou uma reflexão profunda e detalhada do lado de quem ensina. As circunstâncias tinham mudado e era preciso perceber o que fazer. O grupo disciplinar conversou, refletiu, partilhou experiências. Um diálogo alargado e compromissos coletivos. Decidiu-se que o investimento seria na área da aptidão física, se possível com o envolvimento familiar.

“É lógico que estamos privados do que é essencial, do contacto presencial e do feedback constante”, refere João Ramalho, professor há 23 anos. Foram feitas adaptações conforme as situações e há processos e métodos que já não são novidades para os alunos. “Há uma sequência de um trabalho que era feito na escola”. Usa as plataformas digitais com maior frequência, faz planos de treinos semanais, pede aos alunos que cumpram indicações e que façam registos. Novos exercícios implicam uma base. Acompanhar, estar atento, tentar que os alunos estejam fisicamente ativos. Agora à distância e, recorda, “sem a proximidade que existia entre o professor e o aluno”.

Jorge Mira dá aulas de Educação Física a três turmas na Escola Secundária José Gomes Ferreira do Agrupamento de Benfica, em Lisboa. É professor há cerca de 40 anos e, neste contexto único e particular, o mais importante é manter a ligação dos alunos à escola, aos professores, aos colegas. “Não se dão aulas de Educação Física online, o que não quer dizer que não se possam utilizar instrumentos para trabalhar e interagir com os alunos”, refere. Criar virtualmente a componente das atividades práticas é uma tarefa praticamente impossível. A dimensão da competitividade, naquele jogo de colaboração e oposição entre colegas, torna-se uma impossibilidade por força das circunstâncias. “Nada substitui o presencial”, comenta.

Dar aulas que requerem mexer o corpo, um pavilhão gimnodesportivo com vários equipamentos e aparelhos, um campo de jogos, ar livre, é um desafio gigante que redefiniu formas de ensinar. Ter os alunos ativos é um dos principais objetivos no ensino à distância da Educação Física. Jorge Mira conta o que está a ser feito. Os alunos organizam um plano de treinos em grupo, à distância, traçam metas e avaliam. Todas as semanas, há um desafio, uma brincadeira, uma habilidade. Mostram-se vídeos que se constroem ou que se pesquisam e comentam-se esses filmes.

“Há uma questão importante que é não deixar que os miúdos ficassem isolados em casa”, afirma. Investe-se na aptidão física e na componente do bem-estar, da saúde. Além disso, é preciso ter em consideração as características de cada aluno e as suas condições. O agrupamento de Benfica fez um inquérito e percebeu que 30% dos seus alunos não tinham quaisquer condições para terem aulas à distância, 48% não tinham um computador em exclusividade.

Atividades diferenciadas e adequadas
Na reorganização das aulas e do ensino à distância, o Conselho Nacional de Associações de Profissionais de Educação Física e Desporto (CNAPEF) e a Sociedade Portuguesa de Educação Física (SPEF) escreveram à Direção-Geral da Educação (DGE) com um conjunto de preocupações e questões colocadas pelos profissionais da área. O CNAPEF e a SPEF analisaram as transmissões televisivas do #EstudoEmCasa da disciplina e teceram várias considerações, mediante as circunstâncias, a operacionalização, o contexto.

Em primeiro lugar, a impossibilidade de se garantirem, no ensino à distância, aulas de Educação Física na sua plenitude. “Não sendo possível garantir aprendizagens da área estruturante do currículo de Educação Física - a área das Atividades Físicas - não podemos afirmar ou subentender, que estamos a difundir ‘aulas de Educação Física’”, lê-se na carta enviada à DGE.

O CNAPEF e a SPEF alertaram para alterações no #EstudoEmCasa na Educação Física para, como realçam, “garantir a necessária correção e coerência científica e pedagógica que um projeto desta natureza exige, mobilizando a comunidade para uma compreensão adequada dos objetivos da disciplina e aproveitando esta oportunidade para a uma pedagogia social, tão necessária”. E, no final, deixaram uma palavra de apreço e respeito pelo empenho dos professores-atores nas sessões televisivas de Educação Física.

Com a suspensão das atividades letivas, era necessário dar orientações. O CNAPEF e a SPEF fizeram um trabalho exaustivo, escutaram todas as instituições de Ensino Superior, públicas e privadas, que formam profissionais de Educação Física no nosso país, consultaram pareceres internacionais, nomeadamente de Espanha, França e Itália, para ajudarem os professores num caminho desconhecido.

As orientações centram-se em vários propósitos, entre eles a manutenção ou elevação da aptidão física, na perspetiva da saúde e do bem-estar. Pede-se que a atividade pedagógica seja “diferenciada e adequada ao contexto educativo de cada turma, sempre que possível” e que não sejam descuradas as necessidades e possibilidades de cada aluno. Todos os esforços devem ser feitos para garantir condições para que todos possam desenvolver as atividades propostas. Por outro lado, a classificação final deverá considerar tanto a atividade realizada como o percurso de desenvolvimento dos alunos.

Além disso, pede-se uma atenção especial ao 1.º Ciclo de forma a assegurar os níveis mínimos de atividade física recomendados para crianças entre os seis e os 10 anos. O CNAPEF e a SPEF sugerem que os professores deste nível de ensino, em articulação com os professores de Educação Física, “proponham a realização de habilidades motoras fundamentais nestas idades, possíveis de serem realizadas em contexto familiar, conforme os referenciais curriculares”.

Equívocos e erros corrigidos
Avelino Azevedo, presidente do CNAPEF, lembra que se esperavam indicações e referências antes do 3.º período começar, uma articulação nas escolas e com os diretores de turma, procedimentos formativos reforçados, e que se entendesse que 2/3 do ano letivo decorreu na normalidade. “Não se pode penalizar os alunos, a avaliação final deve ter isso em consideração”, diz ao EDUCARE.PT.

Quando o #EstudoEmCasa arrancou, levantaram-se algumas reservas. “Havia uma ausência de explicação dos princípios e orientações que foram idealizados para a conceção dessas sessões, não se percebia a linha condutora das propostas”. “Era importante perceber que tipo de articulação é que se previa em termos de se perspetivar o que ia ser o 3.º período na Educação Física”, acrescenta Avelino Azevedo.

Os alunos estão sozinhos, os professores estão do outro lado do ecrã, o ensino à distância não ajuda numa disciplina com uma carga prática intensa. “As tecnologias são apenas um instrumento, já eram utilizadas. Em termos de processo ensino-aprendizagem, sem a presença do professor, sem o olhar, é muito difícil atingir os objetivos curriculares previstos para as aulas de Educação Física”, sublinha o presidente do CNAPEF.

O CNAPEF e a SPEF referiram ainda, no texto enviado à DGE, o desrespeito por referências curriculares expressas nas aprendizagens essenciais, com nomenclatura que não consta do currículo – como, por exemplo, ginástica artística, objetivos ou conteúdos sem referência aos programas específicos, e ainda terminologia usada em desconformidade com os documentos curriculares de referência da disciplina. Estes erros e equívocos foram, entretanto, resolvidos.

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