Um em cada 10 jovens já bebeu, fumou e consumiu drogas. Dados “são maus”

Um em cada 10 jovens, entre os 13 e os 18 anos, já consumiu bebidas alcoólicas, tabaco e drogas em algum momento da sua vida. Os dados são do Estudo sobre o Consumo de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Aditivos e Dependências (ECATD-CAD), feito pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), a 26 319 alunos, de 734 escolas públicas portuguesas.
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O primeiro contacto com as substâncias acontece, maioritariamente, através de amigos. Apesar de o estudo não incidir sobre essa questão, o SICAD adianta que sabe, através de outros inquéritos e trabalhos que tem feito, que essa continua a ser a realidade entre os jovens portugueses. O certo é que, de acordo com os resultados preliminares do estudo, recentemente divulgados, o álcool é a principal substância psicoativa consumida pelos alunos – 68% dos inquiridos afirmou já ter bebido pelo menos uma vez na vida –, seguida do tabaco – com 38% dos jovens a já terem experimentado. Com uma expressão bem menor encontram-se o consumo de medicamentos e de substâncias ilícitas (15%).

No que diz respeito ao álcool, 59% dos jovens que participaram no estudo – que é feito de quatro em quatro anos – disse que consumiu bebidas alcoólicas nos 12 meses anteriores ao inquérito, feito no ano passado. E 38% assumiu que bebeu no mês anterior, com apenas 2% a revelar ser consumidor diário de bebidas alcoólicas, nomeadamente de cerveja. As bebidas preferidas pelos jovens, no geral, são as destiladas (com 28%), as “alcopop” (27%) – de baixo teor alcoólico e sabor frutado – e a cerveja (26%).

Consumo começa cedo
Um dos dados revelados pelo estudo em causa indica que o consumo de substâncias começa cedo. Como frisou Manuel Cardoso, subdiretor-geral do SICAD, “aos 13 anos, 21% destes adolescentes tinha consumido álcool no último ano e 3,4% tinha-se embriagado de forma severa”. Além disso, 4,2% já teve um consumo “binge” (que se refere a quando são ingeridas cinco os mais bebidas alcoólicas na mesma ocasião). Na mesma idade, “8% já tinha fumado e 2,4% tinha consumido alguma droga ilícita”. “Genericamente, e olhando para as tendências, os dados são maus”, atestou Manuel Cardoso, na apresentação dos resultados preliminares do estudo, ao qual o EDUCARE.PT teve acesso.

À medida que os alunos crescem, o consumo das diversas substâncias também vai aumentando. Aos 17 anos (quando “ainda são menores de idade”, como sublinhou o subdiretor-geral do SICAD), 80% consumiu álcool no último ano, 32,5% embriagou-se e 31,4% teve um consumo “binge”. Na mesma idade, 41% já fumou e 19,5% já consumiu alguma droga ilícita.

O tabaco foi outra das substâncias sobre as quais incidiu o estudo do SICAD – Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Educação. Para António Lacerda Sales, secretário de Estado da Saúde, um dos “sinais de alerta” evidenciados pelo trabalho em questão prende-se com “a prevalência da experimentação dos cigarros eletrónicos, que é de 22% e que já se aproxima do tabaco de combustão, que é de 29%”. Face ao estudo de 2015, no entanto, há uma descida no consumo de tabaco, de uma forma geral, apesar de os jovens estarem a fumar mais cigarros eletrónicos.

Dados da canábis surpreendem
Um dos dados mais positivos do estudo prende-se com o facto de apenas 6% dos jovens inquiridos ter admitido que consumiu drogas ilícitas no mês anterior ao inquérito. “Vimos que se destaca a canábis. Estamos a falar de um consumo que é mais esporádico do que frequente”, revelou Elsa Lavado, investigadora principal do ECATD-CAT.

“Eu estava à espera, francamente, que o consumo de canábis entre os jovens estivesse a subir, por força do ambiente em torno das discussões da legalização da canábis, num primeiro momento para fins medicinais e depois da legalização para uso recreativo, levando a uma previsível assunção da inocuidade dos produtos de canábis. Surpreende-me pela positiva”, admitiu, por seu turno, João Goulão, diretor-geral do SICAD e coordenador nacional para os problemas da droga, das toxicodependências e do uso nocivo do álcool.

Em relação a 2015, o consumo de drogas ilícitas tem uma tendência de descida, quer a nível experimental, quer a nível de consumo regular. No que diz respeito ao consumo recente, há uma descida na canábis, mas há um ligeiro aumento do consumo de outras drogas, como o ecstasy.

No inquérito, os jovens foram também confrontados com o uso de tranquilizantes. Aí, 17% respondeu que já tinha consumido, por indicação médica, com 12% a afirmar que utilizou estimulantes cognitivos. A experimentação de medicamentos tranquilizantes sem prescrição médica foi admitida por 5% dos inquiridos.

De referir, ainda, que o estudo mostrou que o consumo de tabaco e de drogas ilícitas é superior nos jovens do sexo masculino, mas que no consumo de bebidas alcoólicas não há grandes diferenças entre sexos, como também não as há no consumo para ficar embriagado. No entanto, as raparigas usam mais medicamentos, com ou sem receita médica.

Pandemia pode aumentar utilização da internet
A utilização da internet e das redes sociais, bem como o acesso a jogos eletrónicos e aos jogos a dinheiro, foi outro dos parâmetros avaliados no estudo do SICAD. Nesse campo, ficou-se a saber que quase todos os alunos (96%) revelaram ter acedido a redes sociais na semana anterior ao inquérito, com 75% a afirmar ter jogado algum jogo eletrónico no último mês. Houve 55% dos jovens a revelar que acedeu a redes sociais, na semana anterior ao inquérito, durante quatro horas ou mais, num dia sem escola. Nos dias de escola, o acesso foi feito por 32% dos alunos. Além disso, 13% dos jovens admitiu já ter jogado a dinheiro, o que representa uma subida face ao último estudo. Segundo os responsáveis, o interesse dos jovens pelo jogo de apostas “Placard”, dos Jogos Santa Casa, pode justificar o aumento.

O estudo foi levado a cabo no ano passado. Mas, atualmente, devido ao confinamento exigido pela pandemia de Covid-19, os dados podem ser ligeiramente diferentes dos apurados naquela altura. "Os dados que temos, que nos chegam de várias fontes, dizem-nos que este contexto fará aumentar a utilização da internet e do jogo eletrónico. O SICAD está a fazer três questionários online sobre o confinamento, e um é, exactamente, sobre a utilização da internet e dos jogos eletrónicos”, avançou Vasco Calado, outro dos investigadores responsáveis pelo ECATD-CAT.

Aumentar fiscalização
Na realidade, os dados agora apurados são muito semelhantes, em relação aos de 2015. “Não pioraram, exceto para o jogo, mas também não melhoraram, exceto para o tabaco tradicional”, resumiu Manuel Cardoso. E é precisamente o facto de os resultados serem semelhantes que preocupa o subdiretor-geral do SICAD. “Num futuro próximo, teremos mais jogadores patológicos e dependência de jogo. Não conseguiremos reduzir a dependência de drogas nem o número de mortes por overdose. Teremos uma das mais altas taxas de doenças não transmissíveis e continuaremos com uma das menores esperança média de vida de anos com saúde”, alertou. Além disso, “estaremos nos primeiros lugares mundiais, se não no primeiro, de consumo per capita de álcool e de problemas ligados ao álcool, incluindo mortes por intoxicação alcoólica. Precisamos de fazer muito melhor do que isto”.

Mas, afinal, o que é que pode ser feito para melhorar o panorama nacional, que diz respeito ao consumo de álcool, tabaco, drogas e acesso a jogos a dinheiro? João Goulão deixou claro que uma das armas é a “fiscalização”. “Há venda de álcool a menores e o mesmo em relação ao tabaco. A par do esforço preventivo, há também desafios que são colocados às entidades que têm de fiscalizar essa venda”, advertiu o diretor-geral do SICAD. O mesmo se aplica, no seu entender, “em relação ao jogo, nomeadamente ao ‘Placard’, que tem uma idade mínima para acesso, que parece ser facilmente contornada pelos próprios jovens”.

Os responsáveis assumiram que há “muito trabalho” a ser feito, “para inverter algumas tendências”. É que, se as mesmas não levarem outro rumo, “podem revelar-se bem mais preocupantes no futuro”.




 

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