Escola da Ponte sem 3.º ciclo

A Comissão de Avaliação Externa teceu rasgados elogios à Escola da Ponte e recomendou obras de alargamento para dar continuidade ao projeto. Mas o Ministério da Educação ignorou o parecer, rejeitando a continuação do 3.º ciclo.
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O Ministério da Educação decidiu não dar continuidade ao 3.º ciclo na Escola da Ponte, em Vila das Aves. A decisão foi tomada depois de uma comissão de avaliação independente, constituída a pedido do próprio Ministério, ter recomendado a continuidade deste projeto educativo pioneiro no País. Pais e professores asseguram agora que a escola está em risco.

O despacho da secretária de Estado da Educação, Mariana Cascais, datado do início do julho, refere a "impossibilidade de prolongar o projeto ao 3.º ciclo, tendo em atenção a nova Lei de Bases da Educação". O Ministério entende, assim, que a escola deverá "manter-se na perspetiva de uma futura escola básica".

A decisão é tanto mais paradoxal quanto se determina "a continuidade do projeto educativo", ao mesmo tempo que se rejeita que, no próximo ano, abra o 3.º ciclo, dando prosseguimento à sua função de escola básica integrada. Em reunião com o ministro da Educação, David Justino, a direção da escola, em conjunto com a associação de pais, ouviu a confirmação do despacho, mas prometeu não aceitar a decisão.

"Se o Ministério não arrepiar caminho o projeto pode desaparecer", avançou ao EDUCARE.PT o presidente da Comissão Instaladora, Ademar Ferreira dos Santos. Da atual equipa docente (constituída por quatro educadoras de infância e 23 professores), apenas se irão apresentar na escola, em setembro, os cinco docentes que fazem parte do quadro desta unidade de ensino. Os restantes, destacados para trabalhar neste projeto educativo, "vão regressar aos seus locais de origem", apesar do Ministério os ter "destacado compulsivamente" para a Escola da Ponte.

"Enquanto não houver garantias claras os professores não estão dispostos a trabalhar nestas condições", sintetizou Ademar Ferreira dos Santos. A mesma posição de irredutibilidade decidiram tomar os pais, que matricularam os seus filhos (perto de 50 alunos) no 7.º ano na escola da Ponte, recusando outra alternativa. "Quando matriculámos os nossos filhos no 5.º ano foi com o intuito de que iam prosseguir até ao 9.º ano", sublinha o presidente da associação de pais, Manuel Fernandes.

Desde 2001 que a Ponte é uma Escola Básica Integrada, dando continuidade ao projeto "Fazer a Ponte", que se iniciou há 27 anos, então como escola do 1.º ciclo. No entanto, para avançar para o 7º ano, como refere o relatório da Comissão de Avaliação Externa da Universidade de Coimbra, deveria ser contemplado um projeto de alargamento da escola, que neste momento não tem ginásio e se encontra sobrelotada.

O ministério optou, contra todas as indicações da Comissão, por recusar a abertura do 3º ciclo, assim como um serviço de psicologia, numa escola que em que 20% dos alunos são sinalizados como crianças com necessidades educativas especiais.

Entre outros dados, a Comissão de Avaliação Externa concluiu que os ex-alunos da Ponte alcançaram as melhores notas de pauta nas escolas para onde transitaram e conseguiram os melhores resultados nas provas de aferição.

Sediado em Santo Tirso, numa zona com carências ao nível social, o projeto "Fazer a Ponte" tem desenvolvido, na prática, currículos alternativos, procurando dar resposta às necessidades individuais de cada aluno. Ademar Ferreira dos Santos vê o resultado de duas décadas de trabalho ser contemplado com um presente envenenado: "Em vez de sermos premiados pela excelência do projeto, a escola é castigada".

O que diz a comissão

"A associação de pais constitui, atualmente, um recurso importante na organização e manutenção de serviços e atividades, tais como o refeitório, os tempos livres, as colónias de férias, suportando os custos do aluguer do ginásio localizado nas imediações da escola, para a prática de atividades de educação física".

"A CAE considera que o clima de aprendizagem é muito estimulante e convidativo. Transmite-se, vivendo-se, uma grande serenidade entusiasmada, proporcionadora de construções/reconstruções instrumentais".

"Se à letra, sem observação e análise mais profunda, todos estes procedimentos podem indiciar grande anarquia e laissez-faire, no caso presente, esta leitura não se aplica de todo".

"A entrevista de grupo permitiu à CAE constatar níveis elevados de satisfação pessoal e profissional, bem como um forte sentimento de pertença, apesar da situação de alguma instabilidade vivida na escola".

"É facto que as crianças revelam um elevado nível de autorregulação. Elas revelam pensar, saber, construir".

"Não há, pois, razões científicas ou pedagógicas que impeçam a continuidade do projeto "Fazer a Ponte" e/ou a sua extensão ao 3.º ciclo de Ensino Básico. Poderão existir, sim, razões logísticas e/ou de política educativa".

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