Espaços, tempos, materiais. As novas rotinas das creches

Associação de Profissionais de Educação de Infância recolheu contributos para que o normal funcionamento das atividades não seja comprometido e para que os princípios basilares da pedagogia da infância sejam respeitados. Pede-se responsabilidade, assertividade e resiliência.
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As creches com apoio à família reabriram a 18 de maio ainda com poucas crianças. Os jardins de infância, o ensino pré-escolar e os ATL voltam a abrir as portas a 1 de junho. Depois das dúvidas, o Ministério da Educação anuncia que as crianças estão dispensadas de usar máscara. É necessário reforçar a lavagem e desinfeção das mãos, pessoas externas ao processo educativo só podem entrar no estabelecimento com máscara, as atividades ao ar livre devem ser privilegiadas. O distanciamento físico entre crianças deve ser maximizado quando estão em mesas, sem comprometer o normal funcionamento das atividades pedagógicas.

Antes da divulgação das novas regras de funcionamento dos espaços, a Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI) reuniu vários contributos de um conjunto alargado de profissionais de educação, desde educadores de infância a investigadores e outras pessoas especializadas. A associação elaborou e disponibilizou um documento para partilhar ideias com sugestões práticas de como organizar o ambiente educativo de forma a respeitar os princípios da pedagogia da infância, garantir direitos de crianças e adultos, tendo sempre presente o atual contexto de uma situação pandémica. Um momento de grande complexidade que exige profissionalismo e discernimento.

Novos desafios colocam-se no campo das relações e interações. A APEI alerta, nesse documento focado em assegurar a qualidade pedagógica nas creches, para a observação cuidadosa de bebés e crianças. “É um processo que deve manter a sua sistematicidade, com atenção a sinais e reações de desconforto físico ou emocional (tristeza, irritabilidade e retrocesso face a aquisições anteriores)”. O acolhimento e a despedida de cada criança, na creche ou no domicílio da ama, deve ser feito de forma serena de quem se despede (preferencialmente sempre o mesmo familiar) e de quem acolhe. Às equipas educativas pede-se assertividade, responsabilidade e resiliência.

Educadores e educadoras de infância devem, segundo a APEI, “desenvolver estratégias para que as crianças reconheçam que, por detrás da máscara, está alguém que conhecem e em quem confiam, aliviando o uso deste equipamento”. A interação de bebés e crianças com o mundo natural e cultural deve manter-se. O envolvimento em experiências culturais associadas à música, ao desenho, à pintura, às histórias, à dança, aos jogos, não pode ser descurado.

As circunstâncias são excecionais e os profissionais devem apoiar a criança no regresso à creche neste período de adaptação, partilhando memórias das famílias em tempo de quarentena, e devem criar instrumentos pedagógicos que facilitem o processo de planeamento. Por outro lado, os elementos da equipa educativa devem refletir e partilhar experiências e angústias, na perspetiva de encontrar estratégias e soluções para melhorar a vida na creche.

Por seu turno, as direções das creches têm o dever de “zelar pelo superior interesse das crianças, prestar apoio às famílias, acompanhar a equipa de forma regular e próxima nos seus dilemas profissionais e necessidades pessoais”. Além disso, esses responsáveis devem garantir os materiais necessários, acautelar o bem-estar psicológico da equipa educativa, providenciar formas de realizar saídas ao exterior, bem como “equilibrar a responsabilidade da continuidade institucional com os valores de compromisso cívico e apoio social”.

Ambiente tranquilo e flexível
Quanto à organização dos espaços, a APEI refere que as medidas de distanciamento físico “não poderão representar o confinamento nem o isolamento social das crianças”. “Nesta faixa etária, o bem-estar, o desenvolvimento e a aprendizagem estão dependentes das oportunidades criadas para o movimento livre e autónomo. A redução prevista do número de crianças por grupo e a expansão dos espaços da creche poderão constituir medidas de salvaguarda deste direito das crianças”, sustenta. “Um ambiente tranquilo, do ponto de vista visual e sonoro, organizado e flexível, confortável e esteticamente pensado são outros aspetos que contribuirão para a experiência positiva de crianças e adultos”.

Os materiais devem ser verificados, controlados e desinfetados várias vezes ao dia, deve haver também rotatividade de conjuntos de materiais e de brinquedos. Desaconselha-se a utilização de objetos em tecido, peluches e materiais de difícil lavagem. Os dispositivos não necessários às atividades devem ser retirados dos espaços.

A APEI sugere que se deve equacionar a melhor forma de organizar o grupo, em grandes ou pequenos grupos, ou individuais. “A organização da rotina diária deve ser cautelosamente pensada para que se possam cumprir as regras estabelecidas”. Os momentos de higiene, alimentação e sesta exigem especial atenção, e o planeamento destes momentos é fundamental para que a equipa educativa consiga encontrar estratégias que transmitam calma e segurança e que possam também ser momentos estimulantes em termos de relação e da aprendizagem.

“Não obstante a situação que vivemos, não deve ser excluída a possibilidade de saídas ao exterior da instituição. Existem espaços que podem ser utilizados, cumprindo as regras de segurança e saúde, quer para exercício ao ar livre, quer para explorações e aprendizagens diversificadas (por exemplo, hortas, jardins, matas, museus, bibliotecas, em tempo oportuno)”, lê-se no documento da APEI.

A primeira reação da associação à reabertura das creches foi dura e contundente, antes das orientações precisas da DGS, antes de algumas alterações entretanto anunciadas pela tutela. Nessa altura, a APEI estava bastante preocupada e referia, em comunicado, que as regras eram “profundamente perturbadoras”. Uma “violência contra as crianças”, escrevia.

“Manter uma distância física de dois metros entre cada criança e impedir que possam interagir entre si, evitar o toque em superfícies, dispor mesas em linha ou crianças colocadas de costas umas para as outras, evitar a partilha de brinquedos e outros objetos, ter adultos de referência (educadores e auxiliares), com os quais as crianças mantêm vínculos profundos, a usar máscaras, são medidas reveladoras de um desconhecimento sobre a realidade do trabalho educativo em creche e sobre o desenvolvimento das crianças com menos de três anos”, alertava nesse momento.

Luís Alberto Ribeiro, presidente da APEI, adianta que os aspetos mais preocupantes foram alterados. “As questões negativas acabaram por se esvaziar”, refere ao EDUCARE.PT. “No dia 1 de junho, o mundo será outro. É preciso gerir duas questões. Ter algumas cautelas no distanciamento entre crianças - e as crianças precisam de afeto, de carinho, de colo. E a questão da saúde. Há várias complicações no trabalho com crianças tão novas”. De qualquer forma, as expetativas não são negativas.

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