COVID-19: ONU e Banco Mundial alertam para efeitos "devastadores" na escolarização

As crianças do centro e norte de Moçambique estão outra vez sem aulas um ano depois dos ciclones severos que atingiram o país, uma situação que pode ter efeitos "devastadores" na sua vida, alertam dirigentes da ONU e do Banco Mundial.
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Desta vez, as escolas estão fechadas por causa da pandemia de COVID-19, que "pode ter um impacto muito mais devastador na vida de todas as crianças moçambicanas do que qualquer desastre anterior", referem, apelando ao trabalho de autoridades e parceiros para implementar ensino à distância.

Caso contrário, "o impacto da pandemia nos resultados da aprendizagem pode ser catastrófico", destacam Myrta Kaulard, coordenadora residente das Nações Unidas em Moçambique, e Mark Lundell, representante do Banco Mundial no país, num artigo publicado na segunda-feira pela ONU.

Quase 15 000 escolas e universidades em Moçambique foram encerradas a 23 de março, afetando mais de 8,5 milhões de estudantes, como forma de prevenção: "uma decisão necessária que provavelmente salvará milhares de vidas, mas o preço é alto", referem.

Um preço semelhante ao que foi pago na República Democrática do Congo.

Quando as escolas fecharam para prevenir a propagação de ébola, no último ano, as organizações humanitárias repararam que "quanto mais vezes as crianças ficam longe da escola, menor a probabilidade de voltarem, aumentando o risco de cair no analfabetismo", recordam.

Moçambique enfrenta esse risco, em especial nas regiões já afetadas pelos ciclones em 2019.

O Idai atingiu o cento de Moçambique em março, provocou 603 mortos e a cidade da Beira, uma das principais do país, foi severamente afetada.

O ciclone Kenneth causou destruição em Cabo Delgado e Nampula no mês de abril e matou 45 pessoas.

As estatísticas do país são já por si um sinal: "mais de um terço dos estudantes abandonam a escola antes da terceira classe e menos de metade completa a escola primária", recordam Kaulard e Lundell.

Agora, muitas famílias "mandam os seus filhos trabalhar, como estratégia de sobrevivência, ou organizam o casamento prematuro das filhas" no contexto das restrições impostas pela COVID-19, acrescentam.

Os dirigentes depositam esperanças no trabalho do Ministério da Educação moçambicano, com apoio do Ministério da Saúde, em conjunto com as Nações Unidas, Banco Mundial, principais agências bilaterais e outros parceiros em busca de "alternativas inovadoras para garantir que a aprendizagem possa continuar, à distância".

"Para a maioria das crianças, as rádios comunitárias, usadas com sucesso noutros países, serão o meio mais acessível, mas uma variedade de outras formas complementares de ensino à distância - como televisão, plataformas digitais ou programas de recuperação e aceleração - podem também ser implementadas", sublinham.

O Ministério da Educação de Moçambique e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lançaram na última semana um projeto de 15 milhões de dólares (13,8 milhões de euros) para mitigar o impacto da COVID-19.

O projeto é financiado pela Parceria Global para a Educação (GPE, na sigla inglesa) e servirá para financiar "as principais atividades do plano de resposta" desenhado pelo Governo para a área do ensino.

Moçambique tem 209 casos de infeção pelo novo coronavírus, um morto e 71 pessoas recuperadas.

O Governo deverá anunciar esta semana os próximos passos depois de decretado o estado de emergência a 01 de abril e prorrogado até 30 de maio, sendo que a Constituição permite mais duas prorrogações.

O país vive com várias restrições: espaços de diversão e lazer encerrados, proibição de todo o tipo de eventos e de aglomerações, recomendando-se à população que fique em casa, caso não tenha motivos de trabalho ou outros essenciais para tratar.

Durante o mesmo período, há limitação de lotação nos transportes coletivos, é obrigatório o uso de máscaras na via pública, as escolas estão encerradas e a emissão de vistos para entrar no país está suspensa.

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