O pouco gosto pela escola é um problema crónico

Estudo internacional revela que a pressão com os trabalhos de casa é elevada em Portugal e que o gosto pela escola diminuiu significativamente. A atividade física continua fraca e as raparigas mais velhas estão cada vez mais ligadas à comunicação online.
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O Health Behaviour in School-aged Children (HBSC/OMS) estuda os comportamentos e a saúde dos adolescentes de 45 países nos seus contextos de vida. Há boas e más notícias, há situações que não mudam, há desafios também. O gosto pela escola dos alunos portugueses está em níveis muito baixos, é fraco em si mesmo e fraco na comparação com os restantes países. “Os resultados são maus desde 1998, a pedir ação urgente na escola, na comunidade e na família”, lê-se no relatório do estudo que é realizado de quatro em quatro anos e conta com a colaboração da Organização Mundial da Saúde. Os dados agora divulgados abrangem amostras representativas de alunos de 11, 13 e 15 anos.

O gosto pela escola dos alunos portugueses piorou. Em 1998, cerca de 29% dos adolescentes de 15 anos afirmavam gostar muito da escola, 20 anos depois, em 2018, a mesma resposta caiu para os 9,5%. É uma das piores médias dos 45 países e que coloca Portugal em 38.º lugar. O Azerbaijão surge em 1.º lugar, a Arménia em 2.º, a Islândia em 3.º, a Macedónia do Norte em 4.º do lado dos que gostam muito da escola.

As raparigas portuguesas gostam mais da escola do que os rapazes. Os dados de 2018 mostram que aos 11 anos, as raparigas (29%) gostam mais da escola do que os rapazes (22%). Aos 13 anos continuam a ser as raparigas (14%) a gostar mais da escola do que os rapazes (10%). Aos 15 anos, as diferenças entre géneros não são significativas, no entanto, a tendência mantém-se: as raparigas (11%) gostam mais da escola dos que os rapazes (8%). Segundo o relatório, os alunos que gostam mais da escola “apresentam mais satisfação com a vida, menor risco de uso de substâncias e melhores indicadores de saúde mental”.

A pressão com os trabalhos da escola, sobretudo nos mais velhos e nas raparigas, é elevada e também põe Portugal nos piores lugares, desde 1998. Esta é outra das más notícias crónicas. Em 2018, as diferenças entre géneros nos 11 anos não são significativas, verifica-se, no entanto, a tendência para as raparigas (30%) sentirem mais pressão com os trabalhos de casa do que os rapazes (28%). Ambos os géneros se mantêm acima da média europeia (rapaz 26%, raparigas 25%), apesar da tendência europeia ser em sentido diferente do que em Portugal, ou seja, em média os rapazes é que tendem a sentir mais pressão com os trabalhos de casa. Aos 15 anos, as raparigas (73%) sentem mais pressão com os trabalhos de casa do que os rapazes (49%), acima da média europeia (rapaz 38%, rapariga 51%).

Outra má notícia crónica diz respeito à prática da atividade física dos jovens portugueses que continua fraca, poucos cumprem com o recomendado, e fica aquém da média europeia. Os resultados são maus desde 1998. Os jovens portugueses apresentam valores mais elevados no que se refere ao excesso de peso e à obesidade, comparativamente à média dos restantes países do estudo.

Satisfeitos com a vida, seguros na escola
Há também boas notícias. O comportamento alimentar continua, em geral, melhor do que a média europeia, e também melhorou a nível nacional. “A qualidade está garantida, mas não a apresentação e o sabor de acordo com os adolescentes portugueses”. O consumo de cannabis está a descer e, neste momento, é menor do que a média europeia. Mais uma boa notícia do estudo que, ao todo, recolheu respostas de 227 441 adolescentes de 11, 13 e 15 anos de 45 países. Esta base internacional incluiu 5839 jovens portugueses, 3065 dos quais do género feminino, 52,5% da amostra.

Há situações que se mantêm ao longo dos anos. A qualidade da comunicação com o pai e a mãe, com diferenças de padrão nos rapazes e nas raparigas, mantém-se e é superior à média europeia. A perceção de suporte familiar aumentou entre 2014 e 2018. Em 2018 ambos os géneros estavam acima da média europeia (rapazes 73%, raparigas 70%), enquanto em 2014 mantinham valores semelhantes à média europeia (rapazes 72%, raparigas 69%). “Em termos comparativos os resultados do apoio social entre pares sugerem que as raparigas recebem mais apoio social por parte dos amigos e os rapazes por parte dos colegas da escola”.

A satisfação com a vida melhorou desde 2014. Os jovens de 15 anos dão nota de 7,4 numa escala de 0 a 10. O estudo, feito no nosso país desde 1998 e internacionalmente desde 1983, adianta ainda que 80,3% dos alunos portugueses sentem-se sempre ou quase sempre seguros na escola. Os acidentes e lesões são menos frequentes que a média europeia nas raparigas mais novas e são mais frequentes nas raparigas mais velhas. São mais frequentes que a média europeia nos rapazes mais novos e menos frequentes nos rapazes mais velhos. O que sugere, lê-se, “um padrão de desenvolvimento diferente nos acidentes e lesões em rapazes e raparigas em Portugal em comparação com os outros países”. O que merece atenção.

As lesões e os acidentes têm vindo a aumentar sobretudo nas raparigas no escalão etário intermédio, dos 13 anos, e nos rapazes mais novos. O ciberbullying é inferior à média europeia. Tem tendência a subir dos 11 para os 13 anos e descer dos 13 para os 15 anos. As lutas diminuíram nos mais velhos e nas raparigas e são menos frequentes face à média europeia. Aumentaram, porém, nos mais novos, sendo nesta idade mais frequentes que a média europeia.

Tristeza, nervosismo, irritação
As raparigas mais velhas usam bastante a comunicação online, verifica-se um elevado uso das ferramentas tecnológicas. Na preferência pela comunicação online para a partilha de segredos, sentimentos e preocupações, sobressaem os rapazes de 11 e 13 anos, quando comparados com as raparigas. No relato de impactos negativos das redes sociais verificam-se diferenças estatisticamente significativas nos 13 anos, apresentando as raparigas uma maior percentagem: rapazes 6%, raparigas 9%.

O álcool apresenta uma tendência de subida, mas a embriaguez está a descer. Os rapazes e raparigas de 13 anos e as raparigas de 15 demonstram um consumo ligeiramente superior à média ao longo da vida e nos últimos 30 dias em que participaram no estudo. E 11% dos rapazes e 9% das raparigas de 15 anos reportaram ficar embriagados nesses últimos 30 dias, sendo que a média dos restantes países é de 16% e 13%, respetivamente.

Em 2018, na percentagem de adolescentes que refere ter tido relações sexuais até aos 15 anos, Portugal com 18,5% está na média europeia, que é de 19%. A percentagem do uso do preservativo (68%) e da pílula (34%) na última relação sexual está acima da média europeia (preservativo 61%, pílula 26%). Relativamente a ter tido relações sexuais até aos 15 anos, em 2018, em Portugal há diferenças estatisticamente significativas entre géneros: rapazes 22%, raparigas 15%.

Em 2018, é mais frequente os alunos apresentarem dois ou mais sintomas físicos ou psicológicos do que em 2014, mas ainda assim inferior à média europeia. No mesmo ano, de modo geral, são mais frequentes as dificuldades em adormecer, tristeza, nervosismo, irritação e dores de costas. São menos frequentes as dores de cabeça. Há uma menor frequência de tonturas em relação à média europeia, valor que se manteve em 2018 em Portugal.

Margarida Gaspar de Matos, coordenadora do estudo em Portugal, psicóloga e professora, destaca a questão do fraco gosto pela escola e a pressão dos trabalhos de casa. Um problema crónico, na sua opinião. “Temos a falta de atividade física sobretudo nos mais velhos e nas meninas. Outro problema crónico”, refere ao EDUCARE.PT. A alimentação melhorou, o excesso de peso mantém-se. Evidencia-se a perceção de um bom apoio social dado pela família e pelos amigos, não tanto pelos professores. Há três resultados que serão estudados no próximo ano. A cannabis a descer. O álcool a subir, mas a embriaguez a descer. As lesões com a idade a descer nos rapazes e a subir nas raparigas.

“Ouvir os alunos e os professores, os pais e os outros profissionais na escola, é importante para mudar as coisas. Já há muitas escolas a fazer grande trabalho. Pode aprender-se com estas e multiplicar efeitos. Parece que o estilo e o dinamismo do(a) diretor(a) faz toda a diferença, agora que as escolas estão num processo de autonomia”, diz Margarida Gaspar de Matos. “Este ano iniciamos um projeto muito inovador em nove escolas por todo o país, em conjunto com a Direção-Geral da Educação, o ESABE – Ecossistemas de Aprendizagem, Saúde e Bem-Estar. É um projeto de construção e partilha de soluções. Se o projeto continuar, apareceremos com um conjunto de metodologias durante o próximo ano”, adianta.

No estudo internacional, Portugal encontra-se na 22.ª posição, nos 45 países que participam no estudo HBSC, quanto ao nível médio de riqueza das famílias portuguesas. A maioria dos pais, 94,6%, está empregado, 1,5% dos pais e 3,5% das mães não têm um trabalho, e 0,4% de jovens têm ambos os pais desempregados. Portugal apresenta um nível de desemprego nas mães (3,5%) superior à média dos 45 países incluídos (2,9%). A frequência de pais e mães empregados de 94,6% é inferior à média europeia de 95,3%.

No estudo em Portugal, os jovens são na sua maioria de origem portuguesa (74,8%). Existem 19,5% em que pelo menos um dos seus pais nasceu fora do país. Relativamente à estrutura familiar, 69,8% vivem com os pais na mesma casa. Dos que não vivem com ambos os pais, 17,8% vivem numa família monoparental e 12,4% noutro tipo de estruturas familiares.



 

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