Pais e professores com muitas reservas no regresso à escola

Inquéritos revelam que a maioria da comunidade educativa não concorda com a reabertura das escolas e creches tal como está definida. A saúde dos alunos, as condições de segurança, as orientações, consideradas insuficientes e desadequadas à realidade dos estabelecimentos de ensino, são os principais argumentos de quem torce o nariz à decisão do Governo.
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O blogue ComRegras e o Sindicato de Todos os Professores (S.TO.P) juntaram-se e realizaram um inquérito para auscultar as opiniões da comunidade educativa sobre o regresso às escolas e ao ensino presencial a partir desta segunda-feira, dia 18. “Regresso às escolas” obteve 6170 respostas entre os dias 10 e 12 de maio. A maioria dos inquiridos está contra a reabertura dos estabelecimentos de ensino neste momento, sejam secundárias, sejam do pré-escolar, e manifesta a sua discordância quanto à decisão que faz parte do plano de desconfinamento aprovado pelo Governo.

Na pergunta se concorda com a abertura das aulas presenciais para os alunos do 11.º e 12.º anos do Secundário e dos cursos de 2.º e 3.º anos do ensino profissional, a maioria dos inquiridos responde que não. São 73,1% dos profissionais do ensino (professores, diretores escolares, funcionários não docentes), 65,9% dos encarregados de educação, e 70,4% da totalidade dos inquiridos. As percentagens descem significativamente do lado do sim. Apenas 16,5% dos encarregados de educação referem que estão de acordo com o regresso à escola tal como está proposto, 11,5% dos profissionais do ensino dão a mesma resposta.

Quanto aos argumentos apresentados pelos que não concordam com a reabertura das escolas, a maioria, 70,8%, considera que a decisão compromete a saúde dos alunos e da população, 51,4% referem que não estão reunidas as condições de segurança, 41,7% dizem que a continuação do ensino à distância adequa-se melhor à situação atual, 36,9% respondem que as orientações são insuficientes ou não se adequam à realidade das escolas, e 27,2% respondem que a opção da tutela não garante a universalidade e equidade do ensino.

As percentagens dos que concordam com a decisão do Governo, mas com a implementação de outras medidas, não diferem muito. Essa visão é partilhada por 12,3% dos profissionais do ensino, 12,1% dos encarregados de educação, e 12,5% de todos os inquiridos. Ao todo, 5,4% dos encarregados de educação não sabem ou não têm opinião sobre o assunto, tal como 2,8% dos profissionais do ensino.

Relativamente à reabertura das creches e do pré-escolar também predomina a discordância com a decisão governamental. Ou seja, 86,6% dos profissionais do ensino e 85,5% dos encarregados de educação não concordam com a opção governamental. No total, apenas 3,7% concordam com a decisão tal como está proposta, 4% são encarregados de educação e 3,2% profissionais do ensino. Sim, mas com a implementação de outras medidas é a resposta de 7,7% dos encarregados de educação e de 7,3% dos profissionais de ensino. No global, 3,1% dos inquiridos dizem que não sabem ou não têm opinião, 2,8% são encarregados de educação e a mesma percentagem, 2,8%, são profissionais do ensino.

Os que discordam do regresso dos mais novos às creches têm várias reservas: 69% consideram que a reabertura compromete a saúde das crianças e da população, 58,6% acham que não estão reunidas as condições de segurança e 55,1% que as orientações são insuficientes ou não se adequam à realidade das escolas.

“Não forçar o que não deve ser forçado”
O inquérito foi respondido, na sua maioria, por profissionais do ensino, que são 58% da amostra, seguindo-se os encarregados de educação com 33,6%. No total, apenas 4,6% são alunos. Em relação à faixa etária, a maior percentagem de inquiridos, 39,6%, situa-se entre os 40 e os 49 anos, os que têm entre 30 e 39 representam 22,9%, os que estão entre os 50 e os 59 são 22,1%, e com 60 ou mais anos 6,6%. No total, 21,3% dos inquiridos são do distrito de Lisboa, 13,1% do Porto, 10,4% de Setúbal, e 9,7% de Bragança.

“Os resultados do nosso inquérito mostram que existe um receio muito grande por parte dos docentes e encarregados de educação no regresso às escolas. Os índices de confiança não mudam como os interruptores, é preciso tempo e permitir o regresso de forma faseada”, comenta Alexandre Henriques, professor e autor do blogue ComRegras. Apesar de reconhecer os esforços da tutela e das escolas, no sentido de transmitir segurança à comunidade educativa, Alexandre Henriques diz que não se pode ignorar “o facto de ter sido aberta a porta do ‘abandono’ para aqueles que não queiram para já regressar”.

“É legítima a dúvida dos pais, o ensino à distância surpreendeu muita gente pela sua qualidade, apesar de todas as dificuldades, por isso existe alguma incompreensão na opção do regresso a um mês do final das aulas”, refere ao EDUCARE.PT. O ensino à distância poderia manter-se, em seu entender, para os que não querem regressar. “Para o efeito, basta ligar uma câmara na sala de aula e o professor manteria o contacto com os alunos presentes e à distância”.

“Aos poucos, com confiança, todos irão regressar, até porque querem regressar, mas é preciso dar tempo e não forçar o que não deve ser forçado a fim de não prejudicar o início do próximo ano letivo”, sublinha Alexandre Henriques.

Ensino à distância, avaliação interna, exames
A Federação das Associações de Pais do Concelho de Vila Nova de Gaia (FEDAPAGAIA) também tem resultados sobre o regresso à escola dos alunos do Secundário. De 29 de abril a 1 de maio, a federação recolheu as opiniões de 1325 pais e encarregados de educação dos alunos matriculados no 11.º e 12.º anos do ensino público e privado em Vila Nova de Gaia. “Entendemos que a nossa obrigação é poder dar voz a quem isoladamente não conseguirá ser ouvido. Gostaríamos que a decisão da tutela tivesse ido noutro sentido que, de resto, é o da esmagadora maioria dos pais para, portanto, não regressarem as aulas presenciais”, refere a estrutura no documento em que divulga os dados do inquérito.

A maioria dos pais e encarregados de educação, 60,3%, discorda da decisão do regresso às aulas para os alunos do 11.º e 12.º anos, enquanto 29,8% concordam com o regresso sem condicionantes. Na parte da permissão, dos filhos frequentarem as aulas presenciais, 47,5% revelam que autorizam, 28,3% não autorizam, 14,9% estão indecisos.

O regresso às aulas tem por base medidas de contingência, nomeadamente o uso de material de proteção e normas de distanciamento social. A escola tem condições e meios para garantir estas medidas? Ao todo, 47,6% respondem que não e 35,4% dizem que sim.

Este ano letivo, como deveria decorrer a conclusão do Ensino Secundário? No inquérito da FEDAPAGAIA, 46,2% dos pais e encarregados de educação dizem preferir o ensino à distância, avaliação interna das escolas, com exames apenas para o acesso ao Ensino Superior. E 27,8% consideram que a conclusão do ano letivo deveria ser, à semelhança dos restantes níveis de ensino, com ensino à distância e apenas com a avaliação interna das escolas. Por outro lado, 22,8% concordam com o Governo, ou seja, atividade letiva presencial e exames às disciplinas cujas notas contam para a média de entrada no Ensino Superior.

A maioria dos inquiridos concorda com a alteração do calendário escolar dos exames nacionais do 11.º e 12.º anos. A primeira fase foi remarcada e acontecerá entre 6 e 23 de julho. A segunda fase tem lugar entre 1 e 7 de setembro.





 

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