Como está a literacia digital de alunos e professores?

A motivação e os meios disponíveis são fundamentais numa altura em que se ensina, se aprende, e se estuda em casa. A literacia digital é essencial e há desafios pela frente. Garantir o acesso ao novo modelo de escola a todos os alunos e assegurar uma maior articulação e menor dispersão das práticas docentes são alguns exemplos.
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A situação é inédita. Não tanto pelo ensino à distância que já existia no formato MOOC, e-learning e mesmo b-learning, há vários anos, mas pelo motivo que obrigou ao seu recurso generalizado nos moldes em que está a acontecer e pelas faixas etárias que está a envolver. Nunca antes, alunos e professores, de todos os níveis de ensino, estiveram ligados por um modelo digital e tecnológico como agora. Ensina-se, aprende-se, estuda-se sem sair de casa. A comunidade educativa mudou-se da sala de aula para um ambiente totalmente online. E como está a literacia digital?

Vários relatórios internacionais não apresentam indicadores favoráveis quanto ao nível de competência digital e de preparação tecnológica das escolas e dos professores portugueses, colocando-os num patamar inferior ao da apetência e literacia digital dos alunos. No entanto, a resposta sobre a literacia digital de quem ensina e de quem aprende não é simples de dar e simplificá-la é “incorreto e desonesto”, segundo Neuza Pedro, professora do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, doutorada em Educação na especialidade TIC.

“A verdade é que neste domínio a realidade nacional é marcada por grandes assimetrias e os dados que existem nivelam em torno de medidas de tendência central (níveis médios), os quais levaram à adoção de respostas negligentes face às grandes diferenças que pautam a nossa realidade educativa”, refere ao EDUCARE.PT. “Por um lado, há que notar que existe um grupo particular de escolas e de professores com grande preparação e com experiência de particular relevo no domínio da inovação e da integração das tecnologias nas práticas pedagógicas (note-se, por exemplo, a grande profusão de ambientes educativos inovadores que existem atualmente em Portugal); mas, ao mesmo tempo, existe ainda uma fatia substancial de escolas e de professores para os quais a realidade tecnológica que pauta o nosso dia a dia é totalmente desconsiderada, replicando-se em sala de aula dinâmicas de ensino muito tradicionais”, adianta.

As estimativas mais recentes apontam para cerca de 200 mil alunos sem acesso a computador para uso pessoal e/ou sem acesso a serviços de Internet, ou seja, em situação de infoexclusão. Há entre os alunos, nomeadamente os de meios socioeconómicos desfavorecidos, um acesso e um uso desiguais no que diz respeito às tecnologias digitais e ambientes online. Portanto, a resposta à questão se os alunos e os professores estão preparados e têm respondido bem à utilização das novas plataformas de ensino é complexa e demorada. Além disso, há todo um contexto ligado a uma pandemia e as adversidades vividas nos últimos meses de dimensão sem precedentes.

Segundo Neuza Pedro, também co-coordenadora do Laboratório de e-learning da Universidade de Lisboa, professores e alunos procuraram da melhor forma mudar a sala de aula para um ambiente online. “Considerando tudo o que se fez, todos os esforços do ministério, das autarquias, das direções escolares, dos pais, professores e alunos, e atendendo ao panorama nada favorável em que todo o processo se deu, diria que o saldo é positivo e o que se conseguiu estabelecer como sistema educativo nos últimos meses suplanta em muito as fragilidades que a este se pode apontar”, sublinha.

Heterogénea, desigual, superficial
A 16 de abril, o professor Paulo Guinote publicou um texto que intitulou #EstudoEmQualquerLugar no seu blogue  “O Meu Quintal”, levantando uma questão. Os alunos estão ou não preparados para lidar com as novas tecnologias? “(…) muita miudagem não percebe grande coisa de computadores. Nasceram com o chip dos zingarelhos, com os polegares em riste, mas a maior parte deles não consegue perceber o que é para fazer se não for ver vídeos e jogar umas cenas maradas, tipo gta, versão 10.3 com o crack das chocapicas”, escreveu.

Os alunos estão ou não estão focados no ensino à distância que exige a utilização plataformas tecnológicas? A resposta tem várias variantes. A motivação, os meios e os equipamentos disponíveis têm peso nesta resposta. “É muitas vezes dito que as gerações mais novas ‘já trazem o chip’ dos suportes digitais e que são nativos de um mundo já dominado pela tecnologia quando nasceram. Isso só é parcialmente verdade, por duas razões principais: a primeira é que uma competência para determinados procedimentos não nasce do facto de convivermos com eles em nosso redor”, refere Paulo Guinote ao EDUCARE.PT. “A sua aprendizagem é necessária e mesmo que seja mais rápida entre quem já nasce rodeado por aparatos tecnológicos não significa que tenha sempre sucesso ou que se transforme em verdadeira mestria”, acrescenta.

A segunda razão, explica, é que o acesso aos meios tecnológicos “é muito desigual na sociedade, como sempre aconteceu com a generalidade das inovações ao longo dos tempos”. “A História ensina-nos que os grandes avanços tiveram sempre ‘vencedores’ e ‘perdedores’. Os que ficaram na vanguarda graças ao domínio das novas técnicas (do fogo ou da roda à imprensa, à máquina a vapor, à biotecnologia) e os que foram deixados para trás. Veja-se o caso da vacinação que há mais de meio século se generalizou no mundo desenvolvido, mas ainda hoje tem dificuldades em impor-se em várias zonas do mundo. E o mesmo é válido para as novas tecnologias”.

Os alunos até podem ter acesso a equipamentos, mas, na sua opinião, “nem sempre têm a capacidade ou a disciplina necessárias para gerir uma nova situação que vai além do uso de redes sociais ou a exploração de jogos na perspetiva do utilizador”. E o que é simples, como regras de segurança para gerir os nomes de utilizador e palavras-passe em diferentes equipamentos, pode tornar-se um quebra-cabeças. “Mesmo no Ensino Secundário, algo tão elementar como um registo na Escola Virtual pode provocar uma avalanche de mails ou mensagens por incapacidade em perceber procedimentos muito simples. E em reter as informações para a sua exploração. Pelo que a literacia digital (e não é caso exclusivo português) é muito heterogénea, desigual e muitas vezes superficial”, sustenta.

E os professores? Paulo Guinote aplica parte do que disse para os alunos, mas não necessariamente pelas mesmas razões. “A adaptação às novas tecnologias foi gradual, foi uma imersão progressiva desde, como no meu caso, os finais dos anos 80 e por vezes o problema é a capacidade para acumular mais informação nova e ir acompanhando a sucessão de ferramentas, dos suportes físicos (eu continuo a desgostar dos formatos miniaturizados ao máximo, mesmo se muito portáveis) às plataformas”.

“Para quem nasceu no tempo do trabalho manuscrito ou da tecla batida e da tira corretora, o que mudou em cerca de três décadas foi imenso e nem sempre é fácil acompanhar o ‘estado da arte’ em matérias digitais”, repara. E há ainda a pressão por parte de quem é mais dedicado às novas ferramentas para que todos adiram, mas “nem sempre com as melhores metodologias”. “Os suportes digitais deveriam servir para um aligeiramento dos procedimentos, para a chamada ‘desmaterialização’ da burocracia e da documentação e não para a sua replicação”. Paulo Guinote diz que isso não tem acontecido. “Em muitas escolas, as ferramentas digitais não substituem as analógicas, apenas se sobrepondo a elas e criando uma nova camada de trabalho hiperburocrático”. E não apenas para os mais velhos. “Também os mais novos protestam com a irracionalidade de múltiplas grelhas de monitorização e registo de atividades que replicam o que as próprias plataformas já fazem de forma automática”.

Manter rotinas associadas à aprendizagem
Rolando São Marcos, professor de Informática, Eletricidade e Eletrónica, refere que, de uma forma geral, a utilização das novas ferramentas do ensino à distância está a correr bem. “Por incrível que pareça, os miúdos estão a desenrascar-se muito bem”, afirma. Aulas online, videoconferências, trabalhos no computador, sem problemas de maior. No seu caso, nas disciplinas que leciona, não há como dar volta: os alunos têm de fazer trabalhos no computador. Seja como for, e apesar de estar a correr bem, não é a mesma coisa. “Os afetos, sobretudo em idades tão iniciais, perdem-se por completo”, repara. A interação tem agora quilómetros de distância e ecrãs pelo meio.

Há, no entanto, outras questões. Falta de equipamentos, falta de meios, Internet demasiado lenta. Os alunos, regra geral, lidam bem com as ferramentas e plataformas digitais, há editoras que disponibilizam tutoriais que facilitam o trabalho a professores e estudantes, como é o exemplo da Escola Virtual. As reservas de Rolando São Marcos recaem nos alunos mais carenciados que não têm equipamentos para as aulas online. Famílias sem computadores, algumas com smartphones que acabam por esgotar dados. “Ainda existem algumas dificuldades”, repara.

Há agrupamentos que estão a disponibilizar computadores com acesso à Internet, mas é um procedimento que ainda não está generalizado. No caso de não haver acesso total às tecnologias usadas no ensino à distância, há um novo circuito a cumprir. Os professores fazem chegar os trabalhos às escolas que os entregam às autarquias locais que os fazem chegar aos alunos. Trabalhos feitos pelos alunos, entregues nas juntas de freguesia que os levam às escolas que os digitalizam e enviam para os professores.

Os alunos têm um ponto a favor, ou seja, a familiaridade com o mundo tecnológico. “Independentemente da plataforma, é mais natural adaptarem-se”, refere Lurdes Figueiral, presidente da Associação de Professores de Matemática (APM). Não é difícil, portanto, os alunos lidarem com novas tecnologias. “O problema não é por aí, é mais o sentido crítico em relação àquilo que utilizam e às potencialidades do que utilizam”, adianta ao EDUCARE.PT.

“O mesmo pode não acontecer com alguns professores”, observa. Alguns docentes estão familiarizados com as novas tecnologias, outros não. “Está a ser um verdadeiro desafio”, diz Lurdes Figueiral. Os menos familiarizados, por exemplo, anotam todos os passos que têm de dar na utilização das novas plataformas digitais. Não é intuitivo, precisam de cábulas para não se perderem no mundo online. “Há um certo receio em funcionar com os meios tecnológicos, não têm familiaridade que lhes permita ser intuitivos”. O que coloca outras questões, ou seja, mais stress, maiores dificuldades no novo modelo de ensino à distância. “É mais uma fonte de ansiedade e de trabalho”, repara a presidente da APM.

Os professores estão a adaptar-se, estão mais orientados do que no início, a utilização das novas tecnologias tem melhorado. É um novo ambiente, é a novidade, e as circunstâncias são excecionais. Para Filomena Viegas, presidente da Associação de Professores de Português (APP), o ensino à distância é a “substituição possível” para o que não está a acontecer de forma presencial. Na sua opinião, a capacidade para trabalhar conteúdos não se perdeu. Há as aulas síncronas, momentos assíncronos, emissões televisivas do #EstudoEmCasa. “Tudo isto é novo e as pessoas estão a aguentar-se bem”. Alunos e professores.

Filomena Viegas realça um dos aspetos que lhe parece da máxima importância. “A manutenção das rotinas, associadas às aprendizagens, para professores e alunos. Isso é muito importante, toda a gente precisa de rotinas, professores e alunos”. “É uma forma de manter o desenvolvimento das aprendizagens”, acrescenta. Por outro lado, há os exageros, a carga burocrática que acaba por aumentar, segundo a presidente da APP. Nos horários, nos recursos, na quantidade de trabalhos enviados aos alunos. Filomena Viegas tem escutado casos de trabalho fora de horas, professores que se sentam frente ao computador às oito da manhã e às oito da noite ainda estão a responder e a enviar emails a pais e alunos. “Por vezes, é difícil manter uma disciplina muito forte relativamente a pais e alunos”, refere.

“Sentir coletivo de escola”
Há desafios que se colocam neste regime de ensino e no ambiente online. Garantir o acesso a este novo modelo de escola a todos os alunos, num nível mínimo de igualdade de circunstâncias. Assegurar um maior trabalho de articulação entre professores, ou seja, maior trabalho interdisciplinar, maior homogeneidade nas práticas docentes, menor dispersão. Estes são os desafios indicados por Neuza Pedro. “É necessário que se crie um ‘sentir coletivo de escola’ online, tal como em cada escola se procura criar no presencial, logo a proliferação de uma grande multiplicidade de soluções, plataformas e recursos de suporte à aprendizagem não é favorável. Cria nos alunos mais desorganização do que era necessário”, sustenta.

As escolas fecharam e, na sua opinião, o encerramento terá sido compensado com algum excesso. Excesso de soluções e de meios mobilizados para fazer face à ausência de escola - plataformas online, sistemas de webconferência, trabalhos por email, #EstudoEmCasa, etc.. “Excesso de ferramentas, excesso de medidas de apoio, excesso de trabalho enviado aos alunos, excesso de horas ligados online… tudo causado pela boa vontade dos atores, por um forte sentido de missão abraçado por escolas e professores”.

Até que ponto as plataformas, ferramentas e recursos digitais, cujo uso se generalizou, devem fazer parte do quotidiano escolar. Ou seja, mais do que uma solução temporária, e de recurso, deveria tornar-se um método usual e comum? “Sim, totalmente de acordo”, responde Neuza Pedro. “O uso da tecnologia nas escolas deveria ser uma realidade estabelecida e plenamente difundida no dia a dia das escolas. Aliás isso deveria ser uma exigência da sociedade civil, tal como o é na saúde, na indústria… não aceitamos que nenhum médico exerça hoje sem recorrer à tecnologia que tem ao dispor, não nos faz qualquer sentido… na educação também deveríamos ter a mesma exigência”.

O país está hoje muito melhor do que na década anterior, mas é preciso insistir neste caminho. “Caso contrário, a escola estará a preparar as crianças e jovens para um mundo que já não existe. Sublinho que as nossas escolas têm procurado combater esse atraso tecnológico e muito se tem conseguido, mas é necessário continuar a insistir nesse processo”. Neuza Pedro coloca o dedo em vários pontos. “As escolas estão tecnologicamente hoje muito mal equipadas, os professores precisam ainda de formação no que respeita à integração educativa das tecnologias, os currículos precisam de ser científica e tecnologicamente atualizados e os nossos jovens precisam deter maiores índices de literacia digital, esses elementos são requisitos mínimos para fazer face à sociedade que queremos edificar e para um melhor amanhã.

 

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