#EstudoEmCasa. Aulas na televisão como complemento

O balanço é positivo. Aulas organizadas, professores dedicados, alunos atentos, empenho e esforço coletivos. As emissões televisivas do ensino à distância para o 1.º, 2.º e 3.º Ciclos, na RTP Memória, são um recurso até terminar o ano letivo. De manhã e à tarde, de segunda a sexta-feira.
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As escolas encerraram a 16 de março por indicação do Governo que, entretanto, decidiu manter os alunos do 1.º ao 3.º Ciclo em casa, devido à pandemia do COVID-19, no novo regime do ensino à distância até final do ano letivo. A 20 de abril, arrancaram as transmissões televisivas na RTP Memória como mais um instrumento de ensino ao dispor da comunidade educativa. De segunda a sexta-feira, das 9h00 às 17h50, há aulas televisivas que professores e alunos do 1.º ao 9.º ano encaixam nos seus horários.

O #EstudoEmCasa tem nota positiva. As aulas na televisão, modelo que chegou a ser referido como uma nova versão da “telescola”, é uma ferramenta complementar ao trabalho dos professores. E isso ficou bem claro quando as decisões sobre o modo de funcionamento do 3.º período foram anunciadas pelo primeiro-ministro. António Costa fez questão de esclarecer que as emissões da RTP Memória não substituem o trabalho dos professores. São um complemento.

São 112 professores de seis escolas públicas e duas privadas que todos os dias estão do lado de lá do ecrã televisivo com matérias e conteúdos curriculares de vários anos e diferentes níveis de ensino. O #EstudoEmCasa merece aprovação com distinção de Filinto Lima, professor, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP). “É algo diferente, é algo criativo, que cativa os alunos”, afirma ao EDUCARE.PT. As suas expetativas não foram defraudadas, ao ponto de pensar que o projeto poderá ter continuidade como um canal de educação ligado às escolas, ao estudo, ao ensino. É uma ideia que deixa no ar.

Os professores que aceitaram o desafio e dão a cara no #EstudoEmCasa são, para Filinto Lima, “heróis” que se superam diariamente e a quem presta homenagem. “São heróis. Não têm experiência de palco, e é um palco de grande responsabilidade, e estão a portar-se muito bem”, refere.

É um recurso educativo audiovisual que, por vezes, junta vários anos na mesma aula, conteúdos que já foram dados, uma vez que as escolas têm autonomia e flexibilidade e os programas curriculares não coincidem. É uma ferramenta que ajuda a reativar e a consolidar aprendizagens. Manuel Pereira, professor, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), também está satisfeito com o #EstudoEmCasa. “Está a correr muito bem, dificilmente conseguiríamos exigir mais”. “As aulas estão bem organizadas, o feedback tem sido positivo, há algum entusiasmo em grande parte dos nossos alunos”, refere.

Ferramenta adequada à situação
Cláudia Azevedo é mãe de Carolina que anda no 9.º ano e de Francisca que está no 5.º ano. As aulas transmitidas pela televisão já fazem parte da rotina familiar. “É um bom complemento em algumas disciplinas, é uma ferramenta que está muito bem adequada à situação”, comenta. A avaliação é positiva. Por vezes, há matéria que se repete que já foi dada na sala de aula. “Cada escola tem o seu plano curricular organizado”. Carolina e Francisca adaptaram-se bem, vão seguindo as aulas na televisão, e estão a gostar.

Neste momento, o ensino à distância implica vários momentos. Aulas assíncronas, os trabalhos que os professores enviam e que fazem parte de uma grelha definida, que exige autonomia dos alunos. Aulas síncronas que colocam a turma em contacto direto com o professor, através de diversas plataformas, em que estão todos ao mesmo tempo conforme um horário refeito para o novo modelo do 3.º período. E as aulas transmitidas pela televisão.

“Conjugar tudo é o que é mais complicado”, repara Cláudia Azevedo que lembra que também é preciso gerir as atuais circunstâncias dos alunos, a ausência do convívio e contacto presencial com os colegas, com os professores, com o desporto e a atividade física, com as atividades extracurriculares. De qualquer forma, Carolina e Francisca já assimilaram a nova rotina, o ensino à distância, as aulas por videoconferência que vão tendo com os seus professores, com as emissões televisivas que funcionam como um complemento às matérias.

Miguel Padilha é professor de Matemática do Ensino Secundário. A abordagem, na sua perspetiva, é muito importante para o desenvolvimento do aluno e os conceitos iniciais da disciplina que mexe com números são essenciais. Tudo isso deve também fazer parte do #EstudoEmCasa. A forma de ensinar a multiplicação e soma de frações, por exemplo, faz toda a diferença. São conceitos básicos que devem ser abordados, sem esquecer de explicar aos alunos de onde as coisas surgem, simplificar no início, puxar pelo raciocínio e não pela calculadora. Seja na sala de aula, seja na televisão.

“Seria ótimo se abordassem alguns conteúdos que considero fundamentais”. Mais do que conceitos para decorar, porque dá menos trabalho, é fundamental insistir para que os alunos percebam matérias e saibam aplicá-las. “Tinha impacto extraordinário não só para os alunos, como para os professores”, diz Miguel Padilha. “Vamos aproveitar a mudança que está a acontecer no mundo para mudarmos as mentalidades dos nossos alunos em relação à Matemática e isso acontecerá se nós enquanto professores mudarmos, melhorarmos a nossa forma de ensinar”, sustenta.

Paula Carqueja, presidente da Associação Nacional de Professores (ANP), concorda com as decisões da tutela neste contexto excecional e, em seu entender, o estudo em casa está a correr bem dos dois lados do ecrã. Para os alunos, como complemento das matérias, e para os professores que diariamente dão a cara num modelo televisivo de ensino e aprendizagem. “É muito bom ver que temos capacidade de nos reinventar e não virar a cara”. As críticas, a desconfiança, e o ceticismo iniciais, que colavam o #EstudoEmCasa à velhinha telescola do período antes do 25 de Abril, caíram por terra, na sua opinião.

“O ministro conseguiu, em pouco tempo, criar condições para que os alunos não ficassem perdidos”, refere Paula Carqueja. O ensino readaptou-se em tempo de pandemia, todos estão a dar o seu melhor e, em seu entender, as experiências de agora podem ser aproveitadas no futuro. “É uma excelente solução que devia ser mantida depois do regresso à escola.” “Teria de ser pensada e repensada de forma a dar continuidade a um canal com estes conteúdos”, acrescenta.

A opinião positiva em relação às aulas televisivas na RTP Memória é partilhada por quem disponibiliza os conteúdos para o #EstudoemCasa, como é o caso do Grupo Porto Editora, que possibilitou a utilização da Escola Virtual, plataforma de e-learning, e das suas edições escolares (incluindo Areal Editores e Raiz Editora). “É justo aplaudir a generosidade, o empenho, a entrega e a dedicação dos muitos professores que aceitaram o desafio de enfrentarem as câmaras de televisão nesta iniciativa #EstudoEmCasa. Tudo em nome das muitas dezenas de milhares de alunos que, em Portugal, não têm acesso a computadores, dispositivos móveis e internet e que estavam impedidos de continuar os seus estudos com o apoio de professores”, refere a Porto Editora.

Não esquecer o que não está a acontecer
A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) divulgará em breve os resultados de um inquérito acerca das opiniões dos docentes sobre a nova realidade de ensino e das condições de exercício da profissão. Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, refere que chamar telescola ao #EstudoEmCasa é um erro. “A telescola era outra coisa”. O que agora existe, diz, “é um recurso criado para uma situação atípica impeditiva de um trabalho presencial nas escolas”. Uma forma de minimizar estragos perante um novo contexto.

Há constrangimentos, aponta. “É algo feito e apresentado da mesma forma para todos os alunos, independentemente das necessidades que possam ter de um apoio mais direto e acrescido”. A FENPROF pediu que os conteúdos em língua gestual fossem transmitidos em tamanho maior, e não se restringissem a um pequeno retângulo, e que emissões já preparadas fossem disponibilizadas aos alunos com dificuldades, nomeadamente aos surdos.

Aulas na televisão e aulas presenciais não são a mesma coisa. Segundo Mário Nogueira, não pode haver confusão neste ponto. As emissões televisivas, “uma projeção igual para todos”, ajudam a reforçar aprendizagens com conteúdos mais generalistas. Em seu entender, não faz sentido dar continuidade a este sistema num contexto extracurricular quando os alunos regressarem à escola, mas sim aproveitar plataformas digitais e conteúdos multimédia em sala de aula para enriquecer o ensino e a aprendizagem. “É um recurso que deve ficar em carteira para uma nova situação que possa surgir”, comenta.

O ano letivo que se avizinha não pode passar uma esponja no que está a acontecer, no modelo de ensino à distância, nas respostas temporárias, nos constrangimentos causados, na ausência das aulas presenciais, na falta de contacto entre quem ensina e quem aprende, nessa distância entre professores e alunos ao longo de três meses. “A preparação do próximo ano letivo tem de ter em conta o que não está a acontecer este ano”, avisa o secretário-geral da FENPROF. Ou seja, as escolas têm de ter autonomia para tratar de um conjunto de questões, nomeadamente dos conteúdos curriculares que não foram abordados devido às circunstâncias. Mário Nogueira defende um apoio reforçado de professores para atenuar desgastes e prejuízos.

 

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