O confinamento vai alterar o comportamento das crianças no futuro? Tudo depende dos adultos

“Não te aproximes de ninguém”. “Dá uma cotovelada à avó, em vez de um beijinho”. “Não dês abraços”. À conta da pandemia de COVID-19, essas são frases que se tornaram rotineiras nos lares das famílias portuguesas, ditas de pais para filhos. Mas, quando isto tudo passar, os comportamentos das crianças sairão alterados? O medo da proximidade com os outros vai condicionar as ações dos mais novos? Se a mensagem passada, ao longo desta época de confinamento e distanciamento físico, for positiva, o regresso surgirá de forma natural. Cabe aos adultos, no presente, preparar o futuro das crianças.
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Avós e netos, atualmente, veem-se através do ecrã de um computador ou de um telemóvel. Em alguns casos, há encontros à janela ou no quintal, ao ar livre. Entre primos e tios, a situação é semelhante. Entre amigos e conhecidos, também. Não há abraços nem beijinhos. Incutiu-se nas crianças que, no máximo dos máximos, pode ser dada “uma cotovelada”, como cumprimento. O distanciamento físico tornou-se necessário, para combater um novo coronavírus que ainda não tem data para nos deixar. E toda a gente fala de uma “nova normalidade”, com a qual teremos que lidar por tempo indefinido. Mas, depois de tudo passar, não irão as crianças ter receio da proximidade física com os outros?

Ana Vasconcelos, pedopsiquiatra, defende que, em primeiro lugar, devemos deixar de falar em “distância social”. “Até foi uma cientista que nos chamou à atenção disso. Tem que haver uma distância física, mas, por outro lado, uma aproximação muito mais social. Os pais têm de perceber que devem caprichar, para a distância física ser compensada com uma aproximação emocional e afetiva”, explica a especialista. Para a pedopsiquiatra, “os pais devem estimular o mais possível as necessidades emocionais e afetivas de que as crianças precisam e encontrar recursos de vinculação aos seus meninos”. Por outro lado, torna-se necessário manter proximidade afetiva com os restantes familiares, através, por exemplo, de contactos regulares telefónicos ou por videochamada.

Usar as palavras certas
Preparar o futuro. No fundo, é isso que é necessário fazer nesta fase. E uma das formas de o fazer é acalentar o positivismo. “É a gestão dos adultos que vai determinar os comportamentos das crianças, porque eles têm um grau de compreensão diferente, mais limitado. Uma coisa é a adesão ao que agora lhes é pedido, outra é a compreensão. Por isso, é essencial explicar que as medidas atuais estão a ser tomadas porque é mais seguro para todos, que são temporárias e que não tarda nada voltamos à normalidade”, sublinha Inês Afonso Marques, psicóloga clínica e psicoterapeuta infantojuvenil. “É essa a mensagem que deve ser passada. As crianças não se vão tornar mais receosas ou medrosas, mas tudo depende da forma que os adultos gerirem esta fase. Deve-se evitar dizer-lhes coisas como ‘é muito perigoso’ ou ‘ficar infetado’, por exemplo”.

Voltar a abraçar ou a beijar outras pessoas, que não os pais, será, na realidade, fácil para os mais novos. Principalmente para aqueles que já gostavam de o fazer antes desta fase de confinamento. Até porque, como recorda Inês Afonso Marques, a tendência natural da criança é o contacto físico”. E porque, frisa Ana Vasconcelos, “nós temos um cérebro social”. “Temos uma coisa que se chama neurónios de espelho, que faz com que, quando estamos bem, consigamos identificar o que quem está a comunicar connosco está a sentir, está a pensar e como vai agir. Isso acontece porque o nosso cérebro é social. Somos feitos para a intercomunicação e o nosso cérebro, para funcionar, precisa do cérebro dos outros”, adianta a pedopsiquiatra.

Voltar à alegria da vida
Rui Costa, o neurocientista português que lidera o Instituto do Cérebro da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos da América (EUA), defendeu, em entrevista recente à TSF, que a pandemia “vai causar um trauma colectivo que é subtil”. “É provável que haja marcas na nossa memória emocional, que fiquem durante muitos anos. Mesmo para as crianças que são muito pequeninas, isso é implícito”, referiu o neurocientista àquele órgão de informação. “A pessoa pode, às vezes, nem saber explicar certas coisas, mas isto, biologicamente, e emocionalmente, vai deixar marcas que vão durar muitos anos”, afiançou.

Na visão de Ana Vasconcelos, as coisas não são assim tão lineares, discordando, de certa forma, com o neurocientista. “A nossa memória está ligada a uma zona do cérebro que é a do medo e que pode causar pânico. Falo da amígdala. É o que nos dá a hipervigilância às coisas que nos podem causar dano. Mas todos nós temos também circuitos cerebrais de recompensa, que nos dão o prazer da vida. Por isso, penso que os pais nunca se podem esquecer disto: neste momento, os miúdos têm de voltar à alegria da vida. O cérebro social precisa de alegria. Precisamos daquela alegria de dizer ‘fantástico!’, ‘que bom, é isso mesmo!’ ou ‘como estou contente!’, por exemplo”, refere.

Na realidade, como o mimetismo faz parte do ser humano, torna-se essencial, nesta fase, por muito que os pais nem sempre consigam mostrar alegria aos filhos, em virtude das dificuldades pelas quais alguns estão a passar, tentar mostrar confiança aos filhos. “Os miúdos precisam de sentir que os adultos não perderam a confiança. O mimetismo é positivo se as crianças tiverem exemplos positivos em casa. E é também muito importante os pais terem conhecimentos sobre outras pandemias antigas, para dizerem aos filhos que houve alturas em que os humanos ficaram na mão de doenças, mas que a ciência tem sempre mostrado que consegue vencer. Dar a ideia, sobretudo aos adolescentes, de que nós, adultos, apesar de tudo, com a ciência somos capazes”, aconselha Ana Vasconcelos.

Os mais introvertidos e tímidos
A dificuldade maior, aquando do retorno à normalidade, vai existir nas crianças que já antes da pandemia eram mais introvertidas e com menos tendência à aproximação física. Mas, de acordo com as especialistas ouvidas pelo EDUCARE.PT, mesmo nesses casos, não se espera que a situação seja preocupante. Para a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, “os miúdos envergonhados, que têm algumas inibições sociais e excesso de timidez, ou que podem ter uma grande vulnerabilidade emocional, podem ter alguma dificuldade, quando voltar a ser permitida a aproximação física, em lidar com essa situação. O que não quer dizer que tudo não seja possível, desde que os pais, conhecendo o feitio dos miúdos, os ajudem a ultrapassar essas situações”, garante.

O essencial, para Inês Afonso Marques, é que os pais “percebam como é que as crianças eram antes desta fase e se há algumas características mais marcadas que possam estar exacerbadas”. “Os sinais de alerta, a que se deve estar atento já durante este período de confinamento, são alterações comportamentais, oscilações emocionais, irritabilidade e alterações no padrão de sono ou do padrão alimentar, que podem esconder necessidades. É imprescindível criar espaços para as crianças se poderem expressar”, adverte. No entanto, acrescenta, “elas adaptam-se com grande facilidade às circunstâncias que as rodeiam”.

Como falar sobre a pandemia?
A National Association of School Psychologists (Associação Nacional de Psicólogos Escolares, em português), dos EUA, lançou uma série de diretrizes, para os adultos ajudarem as crianças a lidar com as mudanças resultantes da pandemia de COVID-19. “Ser um modelo”, “explicar o distanciamento”, “demonstrar uma respiração profunda”, “concentrar-se no positivo”, “evitar uma exposição excessiva a ecrãs”, “manter uma rotina diária” e “oferecer muito amor e carinho” são algumas das dicas. A essas juntam-se outras, como “ter tempo para conversas” com os mais novos, “ser honesto e preciso” e “dar explicações adequadas a cada idade”.

Segundo as orientações da associação, às crianças do 1.º ciclo deve-se “fornecer informações breves e simples” sobre a COVID-19, “com garantias de que os adultos estarão lá para ajudar a mantê-los saudáveis e para cuidar deles se ficarem doentes”. Para os do 1.º e 3.º ciclos, o conselho é que os adultos os ajudem “a separar a realidade do boato e da fantasia”, discutindo com eles “os esforços que os líderes nacionais estão a fazer para impedir que o vírus se espalhe”. Em relação aos adolescentes mais velhos, do ensino secundário, a associação diz que as questões já podem “ser discutidas com mais profundidade” e que se deve envolvê-los “na tomada de decisões sobre planos familiares”, tal como na “programação e ajuda nas tarefas domésticas”.

O diálogo, de acordo com todos os especialistas, parece ser fundamental, na época que o país e o mundo atravessam. A forma como as crianças vão lidar com o regresso, ainda sem data, à normalidade, para se sentirem confiantes e sem medo, ao enfrentar a sociedade, depende muito da forma como os pais encararem esta fase de confinamento. E Ana Vasconcelos é muito clara no conselho que dá: “Tudo depende do presente. O futuro ganha-se com o presente. Isto é válido também para nós, adultos”.


 

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