Alunos do Ensino Superior estão preocupados com avaliações

Estudo revela que os estudantes universitários menos satisfeitos com a atual situação são mais críticos do modelo à distância, das aulas não presenciais, e até da preparação dos docentes. A maioria concorda com a decisão de encerrar escolas em março. Hoje, se houvesse condições, cerca de 78% voltariam amanhã para as suas universidades.
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Mais de metade dos alunos do Ensino Superior, mais precisamente 59,4%, considera que a atual situação de aulas não presenciais é globalmente desfavorável em comparação com o modelo presencial, e ponderando questões de natureza financeira, pedagógica, pessoal. Apenas 14,8% consideram que a atual situação lhes é globalmente favorável. E 25,8% respondem que nem é favorável, nem desfavorável. Ou seja, há um grupo mais numeroso descontente com aulas à distância e um grupo mais reduzido satisfeito com o atual modelo. O estudo do Observatório de Políticas de Educação e Formação (OP.EDU), que incidiu sobre perceções e opiniões de estudantes do Superior relativamente aos efeitos da pandemia no sistema de ensino, divulga uma série de resultados.

No conjunto dos dois grupos, cerca de 70% dos alunos inquiridos concordam que a decisão de encerrar as escolas foi tomada no momento certo. Praticamente metade, ou seja, 49,6% dos universitários, que consideram estar numa situação globalmente favorável na passagem do ensino presencial para o não presencial, acha que as aulas mantêm o interesse. A percentagem desce para 26,6% no grupo dos que acham estar numa situação globalmente desfavorável. Genericamente, os alunos consideram que as atividades não presenciais são menos interessantes do que as aulas e as atividades desenvolvidas presencialmente.

Os que estão satisfeitos com o ensino à distância mantiveram, tendencialmente, o mesmo nível de participação nas aulas não presenciais. Já o nível de participação, no ensino não presencial, diminuiu para 44% dos que consideram a atual situação globalmente desfavorável, mas só diminuiu para 15% dos que consideram estar numa situação globalmente favorável. A quase totalidade, 95,6%, dos que consideram a situação globalmente favorável, concorda que a solução encontrada para o que resta do ano letivo é viável. A mesma opinião é partilhada por 62,9% dos alunos que consideram a situação atual globalmente desfavorável.

A carga de trabalhos é outro fator que diferencia os dois grupos. “Um pouco mais de 2/3 daqueles que consideram a situação atual como globalmente desfavorável entendem que o ensino não presencial dá demasiado trabalho, convicção que apenas é partilhada por 44,9% dos que entendem que a situação atual é globalmente favorável”, lê-se no relatório. Há também diferenças entre os dois grupos relativamente ao nível de preocupação com as avaliações finais. Há bastante preocupação, de uma forma geral, em ambos os grupos. Apenas 3,5% dos que consideram a situação atual globalmente desfavorável não estão preocupados com as avaliações, valor que sobe para os 14,2% no lado dos que consideram a situação atual globalmente favorável.

São os estudantes de Artes e Humanidades que, ponderadas questões financeiras, pedagógicas e relacionais, mais sentem estar numa situação desfavorável. São também os alunos desta área que mais referem ter diminuído a sua presença em aula com a passagem ao ensino não presencial.

Professores preparados? As opiniões divergem
“Outro fator relevante de diferenciação entre os dois grupos é a perceção relativamente à preparação dos docentes para o ensino não presencial. 59,1% dos que consideram a situação atual como globalmente favorável entendem que os professores estão bem preparados para o ensino não presencial. Mas essa perceção só é partilhada por 24,1% dos que consideram a situação atual como globalmente desfavorável”.

Na opinião dos alunos, os professores universitários estão ou não bem preparados para o ensino à distância? As opiniões dividem-se: 59,1% dos estudantes, que se acham numa posição globalmente favorável, respondem que sim, que os professores estão bem preparados; 75,9% dos insatisfeitos respondem que não, que, em geral, os professores não estão bem preparados. Os alunos de Artes e Humanidades são os que mais consideram que os docentes não estão preparados, seguindo-se os de Ciências, Matemática e Informática.

“No total da amostra predominam os que estão moderadamente satisfeitos com a solução encontrada pela instituição para o ensino não presencial (43,8%). Mas entre os que se julgam numa situação globalmente desfavorável, predominam os que estão moderadamente satisfeitos (25%) logo seguidos pelos ligeiramente insatisfeitos (33,1%), e depois os que estão completamente insatisfeitos (23,3%), gerando um nível de insatisfação de 56,4%”, adianta o relatório. E entre os que consideram estar numa situação globalmente favorável predominam os que estão moderadamente satisfeitos (48,2%), seguidos daqueles que estão completamente satisfeitos (36%), gerando um nível de satisfação de 84,2%.

Os que entendem estar numa situação globalmente desfavorável são a quase totalidade dos que consideram que a solução encontrada para o ensino não presencial não é viável até ao final do ano letivo. Cerca de 1/3 dos alunos desse conjunto referem mesmo que a solução encontrada não é viável e que tem de ser definida outra solução.

Cerca de 78% dos que se sentem mais insatisfeitos com o atual cenário voltariam amanhã para a sua universidade e 44,1% dos satisfeitos com aulas à distância manifestam essa vontade. A vontade anda acima dos 60% numa lista liderada pelos alunos de Comércio e Direito, seguindo-se os das Ciências Sociais e os das Ciências, Matemática e Informática. Por outro lado, 20,5% dos que consideram que o ensino não presencial os deixou numa situação favorável não têm vontade de voltar à faculdade, 35% sentem esse desejo, mas não imediatamente.

“Se a percentagem dos estudantes do Ensino Superior que não têm saído de casa é elevada, ela é ligeiramente mais elevada (73,2%) entre os que se sentem estar numa situação globalmente desfavorável que entre aqueles que entendem estar numa situação globalmente favorável (68,1%)”. No entanto, os níveis de ansiedade entre os dois grupos apresentam um desvio mais acentuado, atingindo os 45,8% entre os que dizem estar numa situação globalmente desfavorável e 27,6% entre os que referem estar numa situação globalmente favorável.

Os que se sentem em situação desfavorável têm maiores níveis de ansiedade, apatia, isolamento e agitação. Os que estão satisfeitos não notam alterações significativas no comportamento. Os alunos de Ciências Sociais são os que revelam maiores níveis de ansiedade, seguidos dos de Comércio e Direito e dos das Ciências, Matemática e Informática.

Neste estudo foi usada uma amostra de 5235 respostas validadas, 89,4% dos inquiridos frequentam instituições públicas, 75% são do sexo feminino. É um estudo global sobre o impacto da pandemia no sistema de ensino português que está a ser realizado pelo OP.EDU, que junta o Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento da Universidade Lusófona, e o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. O estudo é coordenado pelos investigadores Ana Benavente, Paulo Peixoto e Rui Machado Gomes.




 

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