“A escola tem de apoiar sonhos”
Cristina Simões, 46 anos, professora de Educação Especial, está no grupo internacional e restrito dos 50 finalistas do Global Teacher Prize, considerado o Nobel da Educação. Este ano, é a única portuguesa e a primeira mulher do nosso país a atingir este patamar.
Sara R. Oliveira
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A infância vivida num ambiente rural ajuda, de alguma forma, a explicar a vontade de ensinar, de querer ser professora. Eram dias cheios e animados, sempre rodeada de crianças da sua idade, alguns mais novos, outros mais velhos, irmãos, primos, amigos. “Não tenho uma data precisa, acho que sempre quis ser professora, sempre fez parte da minha vida. Tomei conta dos meus irmãos, dos meus primos, e desenvolveu-se esta vontade de estar com crianças”, conta ao EDUCARE.PT. Tornou-se professora em 1994, há 26 anos. Passou um ano a dar aulas nos Açores, depois voltou ao Continente e conseguiu sempre ensinar não muito distante de casa.
Cristina Simões é professora de Educação Especial, tem 46 anos, vive em Tondela, pertence ao Agrupamento de Escolas de Tondela - Cândido de Figueiredo. Está entre os 50 finalistas do Global Teacher Prize, prémio internacional que define o melhor professor do mundo, em cada ano, uma espécie de Nobel da Educação. É a primeira mulher portuguesa nesta lista, a terceira docente do país a ter lugar neste grupo internacional que se realiza anualmente. “É indescritível, é um patamar muito importante, é difícil conseguir lá chegar. Estou bastante contente de ser uma das 50 finalistas mundiais”, refere. O vencedor é divulgado a 12 de outubro.
No início da carreira, decidiu especializar-se em Educação Especial. Mais tarde, criou uma escala assente num modelo de qualidade de vida para adultos com deficiências. Um modelo baseado em oito domínios: desenvolvimento pessoal, autodeterminação, relações interpessoais, inclusão social, direitos, bem-estar emocional, bem-estar físico e bem-estar material. Em nome do direito à qualidade de vida de quem tem dificuldades acrescidas em aprender, em aceder aos currículos. Primeiro centrou-se na idade adulta, depois nos mais novos, dos seis aos 18 anos. A validação do modelo concretizou-se. “Provei que estes domínios são possíveis em Portugal”.
A qualidade de vida é, no fundo, uma das suas ferramentas de trabalho. Há três grandes áreas que são essenciais: a independência, a participação social, e o bem-estar. Em seu entender, é fundamental olhar para todas as áreas da vida dos alunos com multideficiência e não pensar por eles, não decidir por eles. Escutar o que têm a dizer, olhá-los como iguais. Não proteger em excesso, não infantilizar em demasia.
“Ouvir estes alunos e perceber o que é realmente importante para eles. A escola tem de apoiar sonhos, é um veículo para conhecer os alunos e o que querem da vida”, sublinha. Conversar com os alunos e suas famílias. “Ouvi-los e ajudá-los a serem pessoas independentes e que têm os seus sonhos”, acrescenta.
Ir ao supermercado, aos correios, à padaria
Na sua opinião, os alunos com deficiência devem estar integrados nas turmas, mas é também necessário trabalhar outras componentes. A independência é uma delas. Cristina Simões dá bastante ênfase à inclusão social e, por isso, atravessa os muros da escola e sai com os alunos para a rua. Leva-os aos correios, ao supermercado, ao centro de saúde, aos bombeiros, à padaria e à florista, aos jardins e percursos pedestres. O ensino é planeado para uma aprendizagem personalizada. O que se aprende a fazer na escola é assim transferido para a comunidade envolvente. Criam-se projetos de vida.
“A qualidade de vida permite trabalhar os resultados pessoais que os alunos pretendem atingir”, diz. Cristina Simões também cria materiais pedagógicos como livros feitos à medida com vocabulário e histórias que despertem interesse, dominós, jogos, cartões de memória. Escuta sonhos, tenta gerir expetativas. “Dotá-los de competências para terem uma vida adulta com mais qualidade. E nem todas as aprendizagens se podem esgotar na escola em si”, explica. A diversificação de estratégias tem feito parte do seu modo de ensinar.
Cristina Simões é professora de corpo inteiro, sente-se bem na profissão que escolheu. “Este trabalho é um mundo”, confessa. “E é um grande desafio, um desafio constante. Temos de nos adaptar constantemente às necessidades dos nossos alunos. Perceber quais as expetativas dos alunos, o que pretendem para a vida, e ir ao encontro dessa realização pessoal”. “Conhecer verdadeiramente os alunos que se tem à frente e conduzi-los para um projeto de vida”, realça.
Na sua apresentação na página oficial do Global Teacher Prize, entre os finalistas de várias partes do mundo, lê-se que Cristina Simões entende a diversidade como um valor essencial. “A defesa dos direitos de aprendizagem e o direito de obter uma melhor qualidade de vida para os seus alunos são o motor que a inspirou a exercer a sua profissão”. “Como professora e investigadora, reconhece que o grande desafio atual é combater os preconceitos sociais, mudar a visão que a sociedade tem das pessoas com deficiência e reconhecê-las como sujeitos, envolvê-las no seu próprio processo de aprendizagem, promovendo a sua autonomia e independência”.
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