Luis Sepúlveda, o escritor que “fez leitores”

A mensagem de Luis Sepúlveda ficará para sempre. As noções de amizade, de lealdade e de sentido de proteção da natureza perdurarão. Com as suas obras, a imaginação continuará a não ter limites. Para sempre e para todos. Luis Sepúlveda morreu, na semana passada, a 16 de abril, com 70 anos, vítima de COVID-19. Deixou 21 obras literárias. Luis Sepúlveda era, acima de tudo, “um escritor que fez leitores”, como o caracteriza Teresa Calçada, comissária do Plano Nacional de Leitura (PNL), do qual constam nove livros do autor chileno. Um escritor que deixará saudades a professores, alunos e leitores em geral.
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“Luis Sepúlveda, com a sua obra, fomentou a leitura por gosto, junto de leitores mais jovens. Ele tinha a capacidade de usar a palavra apelando a muitas emoções. Muitas obras dele foram aproveitadas para leitura recreativa. Há escritores que fazem leitores. É o caso dele”, explica Teresa Calçada ao EDUCARE.PT. Algumas das suas obras, como é o caso de “História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar”, são de referência nos planos curriculares. Mas, sublinha a comissária do PNL, “alguns professores também tiveram a oportunidade de utilizar a obra dele não tanto num ambiente curricular, mas sim num ambiente mais informal”, o que aproximou jovens estudantes da sua escrita.

Aparentemente simples, as histórias narradas por “Lucho” – alcunha pela qual o escritor era carinhosamente tratado – têm por hábito fazer sonhar. “O velho que lia romances de amor”, editado em 1988, tornou-se, indubitavelmente, o seu livro mais conhecido. Dedicou-o ao ambientalista brasileiro Chico Mendes, seu amigo e defensor da floresta Amazónia. É que a defesa da natureza era também uma bandeira de Luis Sepúlveda, que chegou a viver com os índios Shuar, no Equador, e que participou numa missão de investigação científica das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

A importância no ensino básico
“História de um caracol que descobriu a importância da lentidão”, “História de um cão chamado Leal” e “História de um gato e um rato que se tornaram amigos” são algumas das obras de Sepúlveda, dirigidas a uma faixa etária mais jovem, que integram o PNL. Mas a que acaba por ter mais impacto junto dos adolescentes portugueses é mesmo “História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar”, escolhida pelos professores, em muitas escolas, no 7.º ano de escolaridade. E porquê essa opção? “É um livro muito cativante para os miúdos, com uma mensagem de uma amizade improvável, capaz de superar obstáculos, e com uma moral muito bonita. Há alguns autores que os alunos dessa faixa etária têm dificuldade em entender, mas com Luis Sepúlveda isso não acontece”, conta Sara Santos, professora de Português, do ensino básico e secundário.

Filomena Viegas, presidente da Associação de Professores de Português, destaca, precisamente, a importância do autor no ensino básico. “A obra dele foi, e é, uma leitura de referência. Dá-nos a lição de que com a imaginação tudo é possível. Espero que continue a fazer parte dos currículos, porque está inserida num ano de escolaridade muito bom, em que os adolescentes começam os seus grandes sonhos e a crescer como pessoas, com as suas fortes convicções”, realça. Filomena Viegas não consegue deixar de se comover, confessa, ao recordar Luis Sepúlveda. Afinal, a história que conta a amizade do gato Zorbas com a gaivota “é um livro de grande ternura, de fácil leitura, com diálogos muito elegantes, simples e sóbrio”. “É uma parábola muito solidária”, atesta.

Sara Santos realça, também, o facto de o escritor chileno ter livros direcionados “para várias faixas etárias” e de imprimir “toques pessoais” às suas personagens. Uma constatação que vai ao encontro do que o próprio autor confessou publicamente, numa entrevista à agência Lusa, em 2016: “Todas as personagens têm algo muito do autor e isso é o fascinante da literatura. As personagens ‘boas’, naturalmente, reúnem a melhor parte de nós, porque são uma demonstração da parte boa, mas as personagens malvadas são também uma parte de nós, uma vez que ativam a nossa capacidade de ser perversos”. “Um escritor está sempre com os seus fantasmas e, quando começa a escrever, estes, naturalmente, saem à luz, para o bem e para o mal”, sublinhou, ainda, Luis Sepúlveda, que tem todas as suas obras editadas pela Porto Editora e pela ASA, em Portugal.

“Obras fáceis”
Sepúlveda era presença assídua no nosso país. Aliás, foi cá, na Póvoa de Varzim, que esteve em fevereiro, no evento “Correntes d’Escritas”, antes de regressar a Gijón, Espanha, onde vivia, e de lhe ter sido diagnosticado o novo coronavírus, que o viria a vitimar. “É um facto que vai ficar na história e que acaba por nos aproximar ainda mais dele”, adianta Teresa Calçada.

“Lucho” havia-se fixado em Espanha, há vários anos, apesar de ter nascido em Ovalle, na região de Coquimbo, Chile. Foi no seu país de origem que iniciou a atividade política – primeiro na Juventude Comunista, depois no Partido Socialista Chileno e, por fim, na Unidade Popular –, tendo entrado no círculo mais próximo do presidente Salvador Allende, que acabaria morto num golpe de estado militar. Luis Sepúlveda foi preso e obrigado, mais tarde, ao exílio. Foi cineasta e jornalista. Viveu histórias que não chegou, certamente, a contar.

A fábula é o estilo que se tornou uma das suas assinaturas. “São obras fáceis, não muito longas no tamanho. E isso pode parecer um pormenor, mas não é. Acaba por cativar alguns leitores e tem bons livros para leitores que não tenham competências de leitura muito desenvolvidas. Cativa mesmo jovens mais adultos, que não estão habituados a ler, porque parece uma leitura fácil”, explica a comissária do PNL. É que “na nossa vida atual – tirando esta fase de confinamento que estamos a atravessar – vivemos a um ritmo apressado, quando a leitura exige um tempo mais lento, o que acaba por afastar alguns leitores”. Luis Sepúlveda, no entanto, parece ter conseguido encontrar a fórmula para contornar essa dificuldade. E terá sido assim que “fez leitores”.




 

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