COVID-19: Como vai ser o 3.º período?

Neste momento, não há orientações precisas, o Ministério da Educação deverá dar indicações a 9 de abril, depois do Conselho de Ministros. Tudo indica que o próximo período arrancará com professores e alunos em casa, com princípios que guiem o ensino à distância, e um relatório semanal feito pelas escolas sobre as atividades desenvolvidas.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

Oficialmente, e na teoria, o calendário escolar mantém-se. As férias da Páscoa começaram na última sexta-feira, apesar dos alunos terem estado duas semanas em casa, numa pausa letiva forçada devido às medidas de proteção e segurança e com o país em estado de emergência. Está previsto que o 3.º período comece a 14 de abril e termine durante o mês de junho. Mas tudo aponta para que a última fase do ano letivo arranque com aulas à distância. O Conselho de Ministros reúne-se a 9 de abril e, nesse dia, o Ministério da Educação (ME) deverá dar indicações mais precisas à comunidade educativa.

O primeiro-ministro admite que o fecho das escolas pode “ir muito além” das férias da Páscoa devido à pandemia. António Costa reconheceu, na Assembleia da República, que o Governo “provavelmente” terá de “prolongar” o encerramento dos estabelecimentos de ensino públicos e privados para lá das férias.

“O terceiro período, provavelmente, não vai ser muito diferente do que têm sido estas semanas”, referiu o primeiro-ministro durante o plenário quinzenal no Parlamento. A suspensão das aulas presenciais nas escolas foi uma medida decretada pelo Governo, ainda antes da declaração do estado de emergência pelo Presidente da República, que antes de anunciar a decisão reuniu o Conselho de Estado.

O 3.º período poderá então arrancar sem aulas presenciais, como aconteceu com as duas últimas semanas antes das férias da Páscoa. As aulas foram dadas à distância mediante os procedimentos que cada escola e professores adotaram, num contexto particular, e as avaliações do 2.º período não serão colocadas em causa. O documento do Governo que estipula as medidas excecionais para este tempo de pandemia sustenta que “não está prevista qualquer alteração do calendário” escolar. “Em função da evolução da situação, bem como do período de suspensão das atividades letivas presenciais, poderão ser definidas medidas de recuperação das aprendizagens”, sublinha.

Entretanto, o secretário de Estado da Educação, João Costa, reconheceu, num programa da TVI, que é “bastante evidente” que o 3.º período não começará com aulas presenciais. O responsável adiantou que estão a ser tomadas medidas para que todos os alunos tenham meios para o ensino à distância e garantiu que a avaliação do 2.º período será feita. “O 3.º período vai acontecer, perto ou longe… vai acontecer e os alunos terão as suas classificações finais, como é normal”, referiu.

A tutela tem em cima da mesa vários cenários e medidas e tem de avaliar impactos e consequências. O secretário de Estado da Educação garante, porém, que a ausência do ensino à distância, como aconteceu em várias escolas nas duas últimas semanas, não se irá verificar no 3.º período e que as escolas terão de fazer um relatório semanal das atividades desenvolvidas. O responsável fala numa “forma estruturada” de trabalho no período que se segue e em “princípios orientadores” para o ensino à distância. “Nenhum sistema educativo do mundo estava preparado para isto”, comentou no programa da TVI.

Plano sem alternativas
Há vários cenários em cima da mesa. Há, no entanto, vários pontos que estão a preocupar a comunidade escolar. Entre eles, estão as desigualdades do acesso dos alunos às ferramentas de ensino à distância. Há famílias sem computadores, sem internet, o que poderá pesar e ter consequências nas avaliações. No plano que o ME começou a enviar às escolas, em relação ao 3.º período, não estão a ser indicadas alternativas para os alunos que não têm ferramentas e meios tecnológicos em casa.

As últimas duas semanas foram complicadas e incomuns. Como ensinar novos conteúdos programáticos à distância? Como avaliar os alunos no final do 2.º período nas atuais circunstâncias? Um desafio ao ensino, um desafio à aprendizagem, um desafio à forma de acompanhar os alunos sem aulas presenciais. Um desafio à coerência de meios de comunicação entre docentes e alunos, à dispersão de métodos e técnicas. Uma oportunidade para verificar se o acesso aos recursos tecnológicos é ou não igual para todos. Uma questão de igualdade.

Manuel Pereira, professor, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), antevê um 3.º período a funcionar como as duas últimas semanas, com as escolas a utilizarem os recursos que têm ao dispor, tentando fazer o melhor acompanhamento possível aos alunos, no sentido que trabalhem e que continuem envolvidos nas aprendizagens. “Não é fácil. Temos de recorrer à imaginação, sabendo que boa parte das competências curriculares, até ao final do ano, é para esquecer”, refere ao EDUCARE.PT.

Filinto Lima, professor, diretor escolar, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), diz que, neste momento, há duas certezas. As avaliações do 2.º período serão feitas. E a 9 de abril, há uma reunião do Conselho de Ministros de onde, em sua perspetiva, “sairá alguma indicação a dar às escolas como começar e como vai decorrer o 3.º período”. Ainda assim, lembra, “as coisas alteram-se constantemente”.

“Quero acreditar que o ME conhece bem o sistema educativo, sabe os vários constrangimentos que qualquer decisão pode ter, tem em cima da mesa todos os cenários, e vai dizer algo”, afirma ao EDUCARE.PT. Os últimos tempos têm sido vividos dia a dia, sem possibilidade de traçar projetos e médio e longo prazo. “É uma navegação à vista”, comenta.

Num texto de opinião publicado no jornal Público, com o título “Ataque de nervos e o digital”, Filinto Lima faz um balanço do que aconteceu nas últimas duas semanas. “A educação à distância reafirmou aquilo que todos sabemos: há lares sem computadores, sem rede de internet, sem tablets, encontrando-se estes alunos limitados no acesso ao ensino e impossibilitados de progredirem nas suas aprendizagens”.

“O entusiasmo inicial dos docentes fez com que se verificasse uma avalanche de tarefas pedagógicas dirigidas aos alunos e que gerou imensas dificuldades no acompanhamento proporcional por parte dos pais e encarregados de educação, pelos prazos apertados para a sua realização e posterior devolução. E houve quem estranhasse, questionando a quantidade de matéria que faltava dar a duas semanas do fim do 2.º período”, escreve nesse artigo, no qual acrescenta que os novos cenários que se colocam são importantes “janelas de oportunidade”, já que “legitimam a relevância que o digital assume no presente de todos nós, sobretudo na forma como, tendencialmente, se afirmará como lugar comum no nosso futuro”.

Garantir o mínimo de equidade
A Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) pede que as dificuldades no ensino à distância sejam resolvidas antes do 3.º período começar. “Se à data do início do 3.º período não tivermos já dado passos significativos na organização deste novo modelo de ensino, se não tivermos sido capazes de nos adaptar a esta realidade, então teremos o ano letivo seriamente hipotecado”, avisa, em comunicado.
Medidas claras e precisas caso o ensino à distância se mantenha no 3.º período. É isto que a Federação Nacional dos Professores (FENPROF) quer, reclamando assertividade ao ME. “As implicações deste ano irão sentir-se, no mínimo, no próximo ano com adaptações que, provavelmente a nível dos currículos e de outros tipos de organização escolar, têm também que ser feitas”, referiu Mário Nogueira, secretário-geral da estrutura sindical, em declarações à Lusa.

A FENPROF estranha a posição do ME que continua sem revelar uma “alternativa para tudo o que ainda falta até final do ano em curso”. “Não é possível substituir de forma instantânea o ensino presencial por ensino a distância tendo como referência o caráter universal que se exige da Escola Pública”, sustenta a federação em comunicado, sublinhando que a tutela “tem a obrigação de garantir um mínimo de equidade na resposta em todo o território nacional”.

    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.