Ensinar e estudar em casa. Todos tentam dar o seu melhor

Os professores vão gerindo o ensino à distância com as ferramentas e plataformas que sabem manusear. Os alunos navegam na net para aulas digitais e fazem exercícios e atividades em manuais e cadernos. A comunidade educativa tenta manter a rotina nas atuais e excecionais circunstâncias. Uma missão quase impossível.
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A atividade letiva está suspensa, as aulas presenciais não acontecem, os professores tentam manter o contacto com os alunos por várias formas, e os alunos tentam responder às solicitações como podem. Quem tem internet e computador em casa, consegue. Quem não tem, não consegue. As férias da Páscoa começam oficialmente na sexta-feira, as avaliações têm de ser feitas, e as notas lançadas. Não se sabe como será o 3.º período, não se sabe se as notas deste período serão as do final do ano letivo. Ensinar e estudar em casa tem sido um tremendo desafio para professores, alunos, pais, encarregados de educação.

Ana Gomes é professora de Geografia do 3.º Ciclo e Secundário. É diretora de turma. Dá aulas a três turmas do 7.º ano e a quatro do 8.º. Agora, a partir de casa, tenta gerir o ensino à distância, recebe uma média de 40 a 50 emails por dia. “É uma mudança muito brusca. Pedem-nos para fazer tudo e mais alguma coisa”, confessa. Não há indicações universais, de cima, para orientar o ensino e a aprendizagem à distância, depois do encerramento de todas as escolas públicas e privadas do país por decisão governamental.

A sua escola mandou um email para todos os professores para que cada docente mantivesse o contacto com os alunos da forma que melhor entendesse e melhor percebesse. Na última sexta-feira de trabalho, os diretores de turma tiveram de confirmar se tinham os contactos de todos os estudantes, pais e encarregados de educação para partilhá-los com os restantes colegas docentes. Nesse dia, vários alunos já não foram à escola por decisão dos pais, alguns foram apenas fazer testes que estavam marcados e foram para casa.

A primeira semana de aulas em casa foi cansativa. Ana Gomes passou horas e horas em frente ao computador, a conferir contactos, a perceber como trabalhar com plataformas digitais, a pedir aos alunos para fazerem exercícios no manual e no caderno de atividades. “Foi uma semana muito complicada, muitas tarefas para fazer”, conta a professora que contabiliza nove anos de serviço. “Desejei estar a dar aulas na escola, nem que fossem mais horas”, confessa.

Há indicações mais recentes da sua escola. Os professores devem fazer o que conseguirem para avaliarem os seus alunos. Esta semana tem então de começar a pensar nas notas a atribuir aos alunos, sem saber se haverá ou não 3.º período, sem saber se essa avaliação será ou não a última deste ano letivo. “Não é fácil gerir tudo isto em termos profissionais”.

Ana Gomes é professora e é mãe também. Tem uma filha de oito anos que anda no 2.º ano de uma escola privada. O estudo está a correr bem, a primeira semana foi de adaptação, agora o método está absorvido. A professora envia uma planificação semanal dividida por dias e consoante as disciplinas de cada dia. O final da manhã e parte da tarde são dedicados aos exercícios e atividades que chegam da escola. Ana está sempre por perto para ajudar no que for necessário. “Há momentos em que baixo o computador e deixo o teletrabalho”.

A filha Gabriela tem treinado canções para Música, já ilustrou um livro para Português, fez o jogo do dinheiro com euros e cêntimos para Matemática, e exercícios em Inglês. O método é misto. Aulas digitais, exercícios feitos no manual que são fotografados e colocados numa pasta com o nome da aluna e o respetivo dia. A professora corrige diretamente na folha enviada como se fosse no caderno. Assinala os erros, dá dicas de correção. Antes de ir para a cama, mãe e filha verificam no planeamento semanal quais as atividades para o dia seguinte.

Duas escolas, dois procedimentos
Patrícia Castro Almeida é professora de Matemática a dar aulas de TIC. Leciona em duas escolas, uma em Cascais, outra em Lisboa. E as realidades são completamente distintas. Em Cascais, os professores foram avisados que antes de qualquer decisão seria feito um levantamento para perceber se os alunos tinham ou não computador ou tablet, acesso à internet, em casa. O objetivo foi não criar qualquer diferenciação, qualquer desigualdade, numa altura como esta. Como há estudantes sem meios digitais para manter a ligação à escola, não há indicações de métodos de estudo.

Na escola de Lisboa, escola TEIP, território educativo de intervenção prioritária, o processo é diferente. Os professores estão a enviar trabalhos de casa, fichas, atividades. A ideia é manter os alunos ocupados com atividades escolares para que não percam o ritmo. Essa é a preocupação da escola. Patrícia Castro Almeida enviou uma ficha de trabalho para os alunos e só obteve resposta de seis.

“Há referências cruzadas, há procedimentos distintos, está tudo um pouco desorganizado. É cada um para o seu lado a fazer o seu melhor”, afirma. São os professores, são os alunos, são os pais. A professora, com mais de 10 anos de serviço, acredita que os alunos não sairão prejudicadas desta situação excecional, pouco comum, tendo em conta as circunstâncias, o cenário de pandemia, o pouco tempo de adaptação dada à comunidade educativa. “Temos de perceber o que pode vir a acontecer. Perder duas semanas num ano letivo não é muito grave. Ficar sem o 3.º período, mais estas duas semanas, é que é problemático”, sublinha.

Movimento nacional de motivação
A Porto Editora abriu o acesso à Escola Virtual , plataforma digital com conteúdos educativos para todos os níveis de ensino, para ajudar alunos e professores a manterem a ligação durante este tempo de distância. O acesso é totalmente gratuito. Outras editoras também disponibilizam conteúdos digitais aos professores e alunos.

Depois do fecho das escolas, o Ministério da Educação (ME) divulgou um site com um conjunto de recursos para apoiar as escolas na utilização de metodologias de ensino à distância. Uma forma, segundo a tutela, de manter o contacto regular com os professores e colegas, consolidar aprendizagens já adquiridas, desenvolver novas aprendizagens.

Mais recentemente, o ME lançou um desafio aos alunos para que mostrem fotografias do estudo em casa - #EstudoEmCasa. É um movimento que pretende assinalar uma “vontade de aprender e estudar” e de, de certa maneira, celebrar o Dia Nacional do Estudante, nesta terça-feira, 24 de março. É um “movimento nacional de motivação” que reconhece o trabalho e esforço da comunidade educativa no atual contexto. As fotografias publicadas nas redes sociais com a hashtag serão compiladas na página de Instagram @estudoemcasa2020 .
 

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