Pais e filhos em casa. Como vivem as famílias este isolamento?

Tentam manter rotinas, têm planos diários, trabalhos e atividades que chegam das escolas, tempos livres para brincar e saciar a curiosidade. Com flexibilidade, sem agendas rígidas. Gerir o turbilhão emocional e tentar responder a perguntas sem respostas são tarefas complicadas.
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Margarida tem nove anos e anda no 4.º ano. Miguel tem cinco e está no pré-escolar. São irmãos e, neste momento, passam os dias em casa com a mãe e o pai que se encontram em regime de teletrabalho, por força das atuais circunstâncias. As previsões são feitas no dia anterior com o que poderá ser feito no dia seguinte. A família criou uma agenda em conjunto, em que escreve os planos do dia seguinte, onde define o que cada um tem e quer fazer. Ao final do dia, fazem a revisão do que foi e não foi cumprido nessa espécie de compromisso familiar numa altura excecional e sem precedentes.

Os dias começam com o pequeno-almoço, saudação ao sol, um pouco de exercícios de ioga. Segue-se a parte do estudo para Margarida, abrir livros e cadernos, reler matéria, aceder à Escola Virtual para rever conteúdos, resolver alguns testes. Miguel tem liberdade para explorar o que há lá por casa, brinquedos e livros, para ocupar o tempo. Antes de vir para casa, estava a aprender coisas sobre o quadro “A noite estrelada” de Van Gogh com a sua turma do pré-escolar. Lá por casa, há livros sobre o pintor com imagens da obra do artista que Miguel anda a explorar.

O pátio no prédio acaba por permitir um jogo de futebol, exercícios para mexer o corpo, antes ou depois do almoço. É um tempo curto, mas que serve para arejar no exterior. Depois da refeição, tempo mais livre lá por casa, jogar playstation, fazer um bolo, pintar figuras. Mãe e pai em teletrabalho a tentarem cumprir o horário do escritório, o que nem sempre é fácil, e a gerirem as movimentações dentro de casa.

Margarida recebeu trabalhos de casa de Português, Matemática, Estudo do Meio e Inglês, em word, para fazer em papel. As tarefas chegaram-lhe no dia 13 de março. A sua escola deverá, entretanto, usar uma plataforma online para facilitar a comunicação entre professores e alunos, e novos exercícios e tarefas chegarão para serem feitos na última semana de aulas antes das férias da Páscoa. Tudo à distância, agora. Tal como as aulas de balé que se mantém nos horários habituais, quatro vezes por semana, dadas pela professora à turma vestida a rigor, como se estivesse na sala, toda junta.

Às três da tarde, através de uma aplicação, Margarida junta-se a amigas da escola para conversar, falar, jogar. É uma forma de manter a ligação à turma, à escola, manter a conversa em dia. “É um dia a dia um bocado diferente. Tentamos passar serenidade aos pequenos, mas há sempre uma ansiedade em não sabermos o que vai acontecer”, refere a mãe Inês Santos, gestora de conteúdos.

Delinear os dias com liberdade
Afonso Almeida tem 12 anos, anda no 7.º ano, joga basquetebol e, neste momento, os planos de treino são dados à distância pelo treinador que tenta manter a equipa em boa forma física e próxima. “A ideia é tentar que o dia pareça normal, com horários”, explica o pai Pedro Almeida, que está agora em teletrabalho. Afonso está mais autónomo, já prepara o seu pequeno-almoço, não interrompe quando percebe que o pai está a trabalhar a partir de casa.

O quotidiano escolar é mantido de diversas formas, através da Escola Virtual com ligação aos professores da escola, trabalhos de casa que chegam por email, e ainda sugestões dadas pela mãe e pelo pai. Habitualmente, no dia anterior definem-se as tarefas para o dia seguinte e faz-se o ponto de situação do que é preciso fazer. Os momentos lúdicos duram agora mais tempo. Não só playstation, ou ver televisão, há também desenhos e pinturas, e Afonso está a fazer uma construção com mil peças de lego.

“Não há um horário rígido, sabemos o que temos de fazer. Temos de nos organizar e assim as coisas fazem mais sentido e os tempos de lazer ganham outra importância”, refere Pedro Almeida. A ligação à escola é mantida com conversas no WhatsApp. Afonso pergunta, de vez em quando, quando vai voltar à escola. Ninguém sabe ainda e os pais explicam-lhe a importância de organizar o trabalho em casa e o tempo de lazer. Afonso sabe o que se está a passar. E, nos tempos de lazer, quando o tempo permite, sai com o pai para um passeio perto de casa para tomar um pouco de ar.

Joana Silva tem dois filhos, Vasco de mês e meio e Salvador de cinco, que anda no pré-escolar e que agora passa os dias em casa. O ritmo do recém-nascido marca os passos lá de casa, por óbvias razões. Há uma estrutura lá em casa, não rígida, bastante flexível. Salvador sabe o que se está a passar, com informação adaptada à sua idade, com informação transparente. Até porque antes da decisão do Governo fechar todas as escolas do país, mãe e pai já ponderavam a sua vinda para casa mais cedo.

Salvador brinca ou vê um pouco de televisão antes do pequeno-almoço, depois dedica-se a fazer os trabalhos e atividades que a professora envia por Facebook para os pais da sua turma. Almoça e depois depende. Ou ouve uma história e faz um trabalho para registar esse momento. Ou escuta uma música. A mãe navega por alguns sites lhe para preencher os tempos livres. Salvador gosta da Escola Virtual e do Plano Nacional de Leitura com sugestões e planos de leitura adequados à sua idade escolar. Mas tudo pode ser interrompido a qualquer momento pelos imperativos do bebé Vasco.

“Apesar de termos uma estrutura, o dia delineado, é preciso haver alguma liberdade. Se não ouvimos uma história, vemos um filme, se não vemos um filme, vemos um concerto na Internet”, conta Joana Silva. A família sai da cama e tira o pijama, veste outra roupa. Não vive o dia colada às notícias, há dois momentos apenas em que se concentra na informação. E faz exercício com indicações que chegam online. E fazer videochamadas para ver e conversar com os avós.

Depois de seis semanas resguardada após o parto, havia outros planos. “Íamos preparando para fazer alguns passeios, quando rebentou esta autêntica bomba”, recorda Joana Silva. “Não podermos ir à rua é limitativo, os miúdos têm energia e precisam de a gastar”. Os dias vão passando, provavelmente mais devagar do que o habitual.

Gerir o carrossel de emoções
Este tempo de isolamento social exige muita adaptação. É uma nova situação e ninguém estava realmente preparado para o atual contexto, uma pandemia, o país em estado de emergência. “Em período de isolamento social é natural que possam coexistir emoções ambíguas: medo, tristeza, preocupação, zanga, revolta, calma, esperança, otimismo, solidão, frustração, aborrecimento, diversão, ansiedade”, adianta Inês Afonso Marques, psicóloga clínica, coordenadora da área infantojuvenil da Oficina de Psicologia. “Se para os adultos a gestão emocional nesta fase pode ser um desafio, para as crianças, cujas áreas cerebrais responsáveis pela capacidade de planeamento, controlo de impulsos e regulação emocional ainda se encontram em fase de maturação, regular este carrossel de emoções pode ser tarefa hercúlea”, sublinha.

Gerir as novas circunstâncias exige interajuda, serenidade, calma. Mais do que nunca, os mais novos contam com os seus pais para os apoiar na gestão emocional e comportamental. “Validar os estados emocionais que as crianças manifestam, evitando desvalorizar ou criticar, é o primeiro passo para ajudar no momento de acalmar e tranquilizar”, refere Inês Afonso Marques.

É importante ter sempre em mente que a atual situação é atípica, mas é também transitória. Será possível encontrar oportunidades nesta crise? Parece que sim. “Tempo para fortalecer laços afetivos, para arrumar aquela gaveta há muito esquecida, para partilhar mais refeições, para estimular a criatividade de todos, para ler mais, para rever álbuns de fotografias e recordar momentos especiais”, sugere a psicóloga clínica.

“Em condições habituais das nossas vidas, costumo salientar três pilares essenciais ao nosso bem-estar emocional: sono, alimentação e atividade física. Dentro de uma nova rotina, que se espera conseguir manter próxima do habitual, importa continuar a valorizar o sono (as rotinas, a duração e a qualidade); continuar a privilegiar uma dieta equilibrada e usar a criatividade para continuar a estimular o movimento (aulas de ginástica via vídeos, jogar à macaca em casa giz no chão tende a ser inócuo), dançar. A meditação é um excelente aliado para adultos e crianças”.

Definir espaços dentro de casa específicos para o trabalho de cada um é importante e evita conflitos. Tanto para pais em regime de teletrabalho, como para filhos que têm de manter períodos de estudo. É também aconselhável, de manhã, despir o pijama e vestir roupa alternativa para sintonizar o cérebro que não se está em casa em modo trabalho ou doença. Um bom pequeno-almoço, mantendo a rotina, é também fundamental.

Inês Afonso Marques aconselha a filtrar informação, adultos e crianças. “A exposição constante a informação detalhada associada a esta pandemia pode ser potencialmente traumática. As crianças devem ser protegidas de informação desnecessária e quaisquer dúvidas que tenham devem ser respondidas com verdade, omitindo detalhes desnecessários e usando uma linguagem ajustada à sua faixa etária”, recomenda.

O tempo em casa espicaça a imaginação. A psicóloga clínica sugere duas tarefas para crianças e adultos. Escrever um diário. “A escrita tem um importante efeito terapêutico”. Exercício da gratidão. “Diariamente anotar num papel, que se guarda depois numa pequena caixa, algo pelo qual se está grato naquele dia. Qualquer coisa pela qual se esteja grato, desde a torrada com doce do pequeno-almoço”.

Novas rotinas, muitas atividades
O que fazer dentro de casa? Há todo o mundo por descobrir e explorar. O Ministério da Educação gravou um vídeo com 10 conselhos pela voz de Margarida Pinto Correio. Dez dicas para pais e filhos. Garantir que o horário que a escola estabelece é cumprido. Perguntar todos os dias o que foi feito. Verificar se todos os trabalhos propostos são realizados. Ajudar a identificar as dúvidas para colocar aos professores. Manter o contacto com os professores e os diretores de turma. Lembrar que o tempo não é de férias. Aproveitar os tempos livres entre aulas para que haja leitura. Aproveitar para visitar museus e exposições virtuais. Praticar exercício físico em casa. E pedir ajuda quando não se conseguir ajudar os mais novos.

Há estruturas que se adaptam aos novos tempos, reajustam as suas atividades, propõem outros caminhos, estão disponíveis à distância de uma chamada. O Exploratório de Coimbra é um desses casos e tem uma linha telefónica gratuita para dar ideias às crianças de atividades que podem fazer em casa. “Quaren… Quê? Estou chateado!” é o nome da iniciativa ao dispor através do 800 210 093, todos os dias, das 10h00 às 18h00.

“A linha não pretende dar informações técnicas sobre o coronavírus, mas antes dar sugestões e ideias para as crianças passarem um tempo mais educativo e agradável em casa”, explica o diretor da instituição, Paulo Trincão, em declarações à Lusa. O Exploratório de Coimbra está também a lançar a iniciativa dirigida aos pais, “Juntos em casa a fazer o quê?”, em que vai divulgando, na sua página de Facebook, conteúdos com sugestões, pequenos vídeos, informações gráficas, imagem e texto de atividades que se realizam naquele espaço.

O que fazer em tempos de isolamento? Muita coisa. Estudar, rever matéria, colocar cadernos em dia, manter a atividade física à distância. Jogar cartas e outros jogos, arrumar gavetas, reabrir álbuns de fotografias, dançar, partilhar histórias, ler em conjunto, brincar com os filhos, ligar e colocar a conversa em dia com a família e amigos, conversar, ouvir, ver filmes e séries em conjunto no sofá, aprender croché, fazer legos e puzzles, pintar e desenhar, ajudar a estudar online, escrever, tratar das plantas, resolver pendentes.

“O equilíbrio é o bom senso. Nem 8 nem 80. Nem excesso de alarmismo, nem desresponsabilização. Vamos ser realistas e criar novas rotinas”, sugere Bárbara Ramos Dias, psicóloga clínica especialista em crianças adolescentes, na sua página de Facebook. “Todos nós andávamos a correr muito, sem tempo para nada, trânsito, trabalho, banhos, gritos, transportes… Pois é, agora temos tempo! Afinal, queríamos ou não?”
 

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