Covid-19: antecipar férias da Páscoa, fechar todas as escolas? Governo vai decidir

Há escolas fechadas, aulas suspensas, alunos em casa. O coronavírus colocou o país em alerta. Todos os estabelecimentos de ensino de Lousada e Felgueiras estão encerrados, os acessos a serviços públicos estão condicionados. A ideia de antecipar as férias da Páscoa já chegou ao Ministério da Educação. Amanhã, quarta-feira, dia 11, o Governo decide se fecha ou não todas as escolas.
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As medidas para conter um surto do novo coronavírus apertam em Portugal, a Organização Mundial da Saúde (OMS) avisa que o risco de pandemia é real. No último domingo, a Direção-Geral da Saúde (DGS) anunciou o encerramento de todas as escolas dos concelhos de Lousada e Felgueiras, no distrito do Porto. Em Portimão, distrito de Faro, a Secundária Manuel Teixeira Gomes, onde uma aluna foi diagnosticada com Covid-19, e a Escola Básica Professor José Buisel, onde leciona a mãe da aluna doente, também infetada, estão encerradas. A Secundária da Amadora, distrito de Lisboa, e a Escola Básica 2,3 Roque Gameiro, no mesmo concelho, estão encerradas até 20 de março, depois de identificados dois novos casos de Covid-19. Os programas de Erasmus para os alunos e professores do Secundário estão a ser cancelados ou sob avaliação.

Amanhã, quarta-feira, dia 11, o Governo vai anunciar ao país se todas as escolas devem ou não fechar. A decisão será tomada depois de uma reunião com o Conselho Nacional de Saúde Pública. De qualquer forma, a vontade de antecipar as férias da Páscoa em duas semanas, com consequente antecipação do início do terceiro período, já chegou ao Ministério da Educação. Há diretores escolares a defender essa solução e a assegurar que os pais estão recetivos à ideia. Nesse caso, os alunos entrariam de férias já na próxima sexta-feira, dia 13. Neste momento, os planos de contingência das escolas passam sobretudo por suspender aulas, condicionar o acesso a espaços e edifícios escolares, e insistir no cumprimento das regras de higiene.

Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), adiantou à Lusa que a ideia de antecipar as férias da Páscoa foi inspirada em sugestões de professores italianos, com quem tem mantido contacto nos últimos dias. “Os colegas de Itália dizem-me que se as decisões tomadas agora pelo Governo tivessem sido tomadas há um mês, quando o processo começou, provavelmente ter-se-ia evitado toda esta situação que está a acontecer em Itália”, revelou à Lusa.

“Falámos com algumas associações de pais e com muitos pais em particular. Tenho estado a falar com 30 ou 40 diretores todos os dias e há uma boa abertura por parte dos encarregados de educação, que percebem que o bem-estar dos seus filhos é a grande prioridade das escolas, e penso que era possível contar com o apoio dos pais num processo de antecipação do período”, acrescenta Manuel Pereira, em declarações à Lusa. O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), Jorge Ascenção, refere que a prioridade é a saúde. “A saúde dos filhos está em primeiro lugar e, neste momento, a principal preocupação é garantir a segurança de todas as crianças”, disse à Lusa.

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), receia que a antecipação das férias afete a vida das famílias e dos professores, o que poderá trazer “mais problemas do que soluções”. Mesmo assim, admite, “para situações excecionais, aceitam-se medidas excecionais”, lembrando, porém, que neste momento as escolas “têm muito pouco tempo para conseguir pôr a medida em prática”.

“Desafio médico, político, social e económico”
A Câmara de Lousada ficou mais tranquila com a decisão de encerrar todas as escolas públicas e privadas do município. São 40 estabelecimentos de ensino fechados e cerca de 7500 alunos sem aulas. O presidente da autarquia, Pedro Machado, admite que são “medidas muito gravosas que mexem com o dia a dia das pessoas”, todavia, sublinha, a atual situação é “um desafio médico, político, social e económico”. “Mais vale prevenir do que remediar”, refere. Os estágios curriculares e as viagens ao estrangeiro estão também suspensos. “De um dia para o outro, as medidas podem ser alteradas, revistas ou contempladas”, adianta o autarca.

Em Felgueiras e Lousada, escolas, ginásios, bibliotecas, piscinas e cinemas, estão encerrados. E, entretanto, a Universidade da Beira Interior (UBI), na Covilhã, pediu aos alunos de Lousada e de Felgueiras para não se deslocarem à sua instituição, caso tenham estado nas zonas de origem do vírus nas últimas semanas. “Na eventualidade de ser necessário aplicar medidas de quarentena ou tratamento a alunos, estes poderão ter acesso aos exames de época especial ou à possibilidade de assistirem às aulas a partir de casa”, adianta a UBI à Lusa.

A Câmara de Paços de Ferreira acaba de pedir à tutela a interrupção imediata das atividades letivas no concelho, por existirem nas escolas do seu território “muitos alunos e professores provenientes de Lousada e Felgueiras”. A câmara decidiu encerrar piscinas, pavilhões, a biblioteca e o mercado até ao final deste mês, pelo menos. A autarquia, em comunicado, apela “a todas as pessoas que adotem e promovam comportamentos serenos e responsáveis, por forma a não colocar em risco a saúde de todos”.

O Liceu Francês em Lisboa decidiu suspender as aulas até 24 de março, depois de ter sido identificado um caso positivo de infeção de um aluno com o novo coronavírus. “O aluno que deu resultado positivo não frequentou a escola desde o início do ano”, escreve a diretora da escola, Isabelle Negrel, numa mensagem enviada aos pais dos alunos, a que a Lusa teve acesso. A decisão foi tomada nesta terça-feira, dia 10. Os alunos mais novos só podem sair da escola com os pais, os mais velhos estão autorizados a sair depois do almoço, caso tenham meios para se deslocar. Caso os pais não possam ir buscar os filhos, eles podem ficar na escola. Amanhã, quarta-feira, a escola já não abre.

As escolas estão em alerta por causa do coronavírus. “Em face da situação epidemiológica e com o objetivo de contenção, determina-se o encerramento das duas escolas e o consequente isolamento social profilático voluntário de toda a comunidade escolar, por um período de 14 dias”, lê-se no comunicado emitido pelo delegado de saúde do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) da Amadora e pelo diretor do Agrupamento de Escolas Pioneiros da Aviação Portuguesa, divulgado à comunidade escolar domingo à noite. A Unidade de Saúde Pública do ACES Amadora está a acompanhar o estado de saúde de toda a comunidade escolar, através do sistema de telemedicina.

A associação de pais de uma escola da Amadora, Lisboa, está preocupada com um eventual contágio dos filhos por alunos que continuam a ir às aulas, apesar de terem irmãos em isolamento social devido ao Covid-19 detetado no agrupamento. O caso da professora de Físico-Química infetada e de dois alunos levou ao encerramento da Secundária da Amadora e da Escola EB 2,3 Roque Gameiro, do Agrupamento Pioneiros da Aviação Portuguesa. Os alunos destas duas escolas estão em isolamento social, mas os irmãos que frequentam outros estabelecimentos continuam a ir às aulas. A associação de pais considera que este procedimento dificulta a contenção do vírus e questionou o delegado de saúde.

“Não há pânico, não há alarme social”
A Federação Nacional da Educação (FNE) e a Federação Nacional dos Professores (FENPROF) apelam aos docentes das escolas que encerraram, devido ao surto de Covid-19, que respeitem e cumpram o período de isolamento. Neste momento, é necessário e importante garantir que todos os mecanismos de proteção estão a ser adotados.

“A atitude genérica dos professores tem sido de preocupação, acompanhamento da situação e busca de informação”, referiu à Lusa João Dias da Silva, secretário-geral da FNE. De qualquer forma, o dirigente sindical considera que deve prevalecer o bom senso, sem “alarmismos inúteis”. Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, revela que há muitos colegas que têm contactado a estrutura sindical para saber o que podem fazer. “Claro que não há pânico, não há alarme social, e é bom que não haja, mas também não pode haver negligência”, sublinha.

O perigo de contaminação está a levar as escolas secundárias a analisar as viagens previstas no âmbito do programa Erasmus. “Algumas escolas já cancelaram estes programas e outras estão, neste momento, a analisar os processos. O Erasmus+ é um programa que já está muito incrementado e que envolve milhares de alunos de professores”, revelou, à Lusa, Filinto Lima, presidente da ANDAEP.

No Norte, a Câmara do Porto suspendeu todas as atividades que impliquem saída de transporte e as atividades extracurriculares nas escolas. “Demos indicações à Direção Municipal de Educação que todas as atividades que não pusessem em causa o normal funcionamento das escolas, programas extras, pudessem ser suspensas neste período. As atividades que garantem o normal funcionamento das escolas, (...) só suspenderemos por indicação do Ministério da Educação ou da Direção-Geral de Saúde”, referiu o vereador da Educação da câmara portuense, Fernando Paulo.

No Sul, a Câmara de Portimão encerrou preventivamente os equipamentos culturais e desportivos sob a sua gestão até 31 de março. A medida abrange o teatro, museu e biblioteca municipais, o Portimão Arena, os pavilhões desportivos, as piscinas municipais de Portimão, Alvor e Mexilhoeira Grande e os campos de ténis do concelho.

A epidemia de Covid-19 foi detetada em dezembro, na China, e já provocou mais de 3800 mortos. Cerca de 110 mil pessoas foram infetadas em mais de uma centena de países, e mais de 62 mil recuperaram. Nos últimos dias, a Itália tornou-se o caso mais grave de epidemia fora da China, com mais de 350 mortos e mais de 7300 contaminados.
 

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