Bullying: “Campanhas avulsas surtem poucos ou nenhuns efeitos”

Sofia Neves, coordenadora científica do Observatório Nacional do Bullying e presidente da Associação Plano i, fala sobre a nova plataforma de recolhe casos em contexto escolar. Em menos de 24 horas, foram feitas 89 denúncias. “É necessário um investimento na capacitação de toda a comunidade escolar, procurando instituir uma cultura de tolerância zero ao bullying”, alerta.
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O Observatório Nacional do Bullying, iniciativa da Associação Plano i, surgiu há dias para recolher informações sobre situações de bullying em contexto escolar, através de um questionário online, disponível no site da associação, que deve ser preenchido por pessoas que são ou foram vítimas de bullying, que são ou foram testemunhas de bullying, ou que tomaram conhecimento de casos. Os dados recolhidos serão usados para o mapeamento e caracterização do fenómeno e para o reforço da prevenção e do combate ao bullying.

“Os impactos do bullying podem ser tão devastadores e incapacitantes, a nível psicológico, físico, sexual e social, que constrangem a tomada de decisão das vítimas de partilharem as suas vivências. É preciso não esquecer que o bullying pode resultar na morte das vítimas, por homicídio ou suicídio”, refere Sofia Neves, coordenadora científica do Observatório Nacional do Bullying e presidente da Associação Plano i, em entrevista ao EDUCARE.PT.

Na sua opinião, é importante reforçar mecanismos formais e informais de prevenção e combate ao bullying. “A formação especializada nesta área é fundamental para quem intervém em contexto escolar”, sublinha. Sofia Neves é licenciada em Psicologia e doutorada em Psicologia Social pela Universidade do Minho, professora auxiliar no Instituto Universitário da Maia (ISMAI) e investigadora integrada do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG - ISCSP/ULisboa).



EDUCARE.PT: As notícias mais recentes, divulgadas no ano passado, indicam que o bullying nas escolas desceu para metade em cinco anos. Em Portugal, apenas 7,3% dos estabelecimentos escolares reportaram pelo menos um episódio por semana, abaixo dos 14% da média da OCDE. Até que ponto estes números refletem a realidade?

SOFIA NEVES (SN): O retrato de qualquer realidade reflete apenas uma parcela da mesma. Nos casos específicos de vitimação, as evidências sugerem a existência de um elevado número de cifras negras, ou seja, casos que não são reportados às autoridades competentes e que, por isso, não constam das estatísticas oficiais. Em bom rigor, os números servem apenas como indicadores parciais da realidade.

E: A comunidade escolar, os pais e encarregados de educação, o ministério e o Governo, terão perceção do que é ser vítima de bullying em contexto escolar e do impacto para quem está a crescer?

SN: Ainda que o fenómeno do bullying seja social e politicamente reconhecido, nem sempre a informação que é veiculada sobre as suas práticas e respetivos impactos é a mais correta, até pela sua incompletude. Consideramos, contudo, que tem vindo a ser feito um trabalho importante de sensibilização e formação, ainda que pouco consistente, o qual tem servido para esclarecer o quão complexo e grave é o problema.
O importante é reforçar os mecanismos formais e informais de prevenção e combate ao bullying e garantir que os vários interlocutores se articulam efetivamente no sentido de otimizar a eficácia das respostas que as vítimas já têm à sua disposição e/ou criar outras complementares.

E: O medo em contar e admitir episódios de bullying ainda persiste? Como se explica essa resistência?

SN: As vítimas, de um modo geral, resistem em efetuar denúncias. As vítimas de bullying não são exceção. Dentre os vários fatores que explicam esta resistência, destacam-se o medo de represálias por parte da(s) pessoa(s) agressora(s), a vergonha, a culpa e a desesperança face à resolução do problema.
Os impactos do bullying podem ser tão devastadores e incapacitantes, a nível psicológico, físico, sexual e social, que constrangem a tomada de decisão das vítimas de partilharem as suas vivências. É preciso não esquecer que o bullying pode resultar na morte das vítimas, por homicídio ou suicídio.

E: As campanhas em torno deste tema têm ajudado, de alguma forma, a travar estas situações?

SN: As campanhas são sempre importantes para o alerta face ao problema, mas se forem feitas de forma avulsa e pontual, surtem poucos ou nenhuns efeitos em matéria de prevenção, a médio e a longo prazos. A prevenção deve implicar um processo de educação sustentado no tempo, liderado por profissionais especializados/as, e que responda às necessidades atuais das crianças e dos/as jovens que são sujeitos à prática do bullying ou que podem vir a sê-lo.

E: O Observatório Nacional do Bullying é uma plataforma de denúncia informal e que garante o anonimato. Quais os objetivos desta estrutura? Quem é o público-alvo? Como serão tratados os dados recolhidos?

SN: O Observatório Nacional do Bullying (ObNB) foi criado com o intuito de desocultar um fenómeno que tende a ser silenciado pelas razões anteriormente enunciadas. Pretende, assim, mapear e caracterizar os casos reportados, com vista a uma mais completa visão sobre as suas dinâmicas e consequências.
O ObNB visa ser utilizado por pessoas que são ou foram vítimas de bullying em contexto escolar (nos diferentes ciclos de estudos) e por pessoas que testemunharam ou tiveram conhecimento de casos de bullying (docentes, familiares, colegas).
Os dados serão analisados pela equipa técnica, recorrendo a metodologias quantitativas e qualitativas. Anualmente será publicado um relatório com a súmula dos dados, mais uma vez acautelando o anonimato e a confidencialidade da informação.

E: O mapeamento do fenómeno e a caracterização das vítimas, dos agressores, e das consequências do bullying, podem servir para alertar consciências e até motivar políticas públicas? Quais as expetativas para este observatório?

SN: Consideramos que sim, que terá não só o efeito de aumentar a consciencialização sobre o fenómeno e os seus impactos, como de alimentar as políticas públicas nesta matéria. A nossa expectativa é de que possamos ser mais um recurso ao serviço das vítimas, ex-vítimas e testemunhas, dando-lhes a oportunidade de partilharem as suas vivências informalmente, num espaço seguro e protegido, e serem encaminhadas para estruturas de apoio.
Contamos também que o ObNB possa diminuir as cifras negras. Em menos de 24 horas recebemos 89 denúncias, o que dá conta da importância de um recurso como este.

E: O que, de facto, é preciso fazer para combater o bullying em contexto escolar? Como prevenir, como sensibilizar, como atuar?

SN: Como no âmbito da prevenção de outras formas de violência, a aposta terá de ser na educação para os Direitos Humanos e para a Cidadania, e no reforço de mecanismos e estruturas de proteção e apoio às vítimas e às pessoas que lhes são significativas. A formação especializada nesta área é fundamental para quem intervém em contexto escolar.

E: Aumentar o número de psicólogos nas escolas poderá ser uma boa medida para travar o bullying?

SN: Sim, poderá ser uma das medidas. O número de psicólogos/as escolares é manifestamente insuficiente, atendendo ao número de estudantes e à diversidade de problemáticas com que as escolas se confrontam. Adicionalmente, é necessário um investimento na capacitação de toda a comunidade escolar, procurando instituir uma cultura de tolerância zero ao bullying.

E: Na sua opinião, o que é que o Ministério da Educação pode e deve fazer nesta matéria e de que forma se deve envolver em iniciativas ligadas a estas questões de violência e agressões entre os mais jovens?

SN: O Ministério da Educação tem vindo a desenvolver iniciativas no domínio da prevenção do bullying, sendo que o seu envolvimento deve ser cada vez mais articulado com as entidades que lidam com o fenómeno no terreno.

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