À procura da magia do Natal

Nem todas as famílias vivem o Natal da mesma forma. Ao longo dos últimos anos, o apelo ao consumo tomou conta do momento, comprando presentes de forma compulsiva e desenfreada, mesmo sem que as crianças as tenham desejado.
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Lúcia Freitas é uma madeirense de 55 anos que continua a recriar o Natal da sua infância. Oriunda de uma família numerosa, os valores e as tradições que foram mantendo ao longo dos anos faz com que o Natal seja sempre um momento mágico de convívio e partilha. Nesta família, o Natal começava logo no dia 1 de dezembro. “Recordo-me do cheiro a doce que pairava na cozinha”, relembra Lúcia que foi buscar a memória de outros tempos. Faziam, todos os elementos da família porque se tratava de um trabalho de equipa, broas de mel, bolos de mel e bolachas de toda a qualidade e feitio. “A minha mãe fazia a massa e eu e os meus irmãos fazíamos bolinhas com as mãos que, depois de achatadas, eram colocadas num tabuleiro para ir ao forno”.

As tradições não ficavam por aqui. O presépio, que era feito de papel, tinha uma preparação prévia. As folhas de papel eram pintadas e secas ao sol, um processo demorado, mas em que era um gosto participar. O ponto alto era o dia 24 de dezembro, onde a azáfama tomava conta de tudo e de todos logo pela manhã. A estrutura do presépio era montada, o presépio construído e a árvore de Natal também era engalanada nesse dia. “Nesse dia não parávamos. Era de manhã até à noite quase sem respirar”, recorda Lúcia Freitas.

A música de Natal que era ponto de honra desde o amanhecer e arrastava-se pelo dia fora. Quando os trabalhos terminavam, já a noite ia longa, a ceia de Natal era servida tardiamente e a preceito. De seguida, iam à missa do galo e só depois é que as prendas eram abertas. “Eu também era miúda nessa altura e adorava todo aquele ritual. Entretanto o nosso ponto alto terminava e recolhíamos para a cama. Na sala ficavam os mais velhos e outros elementos da família que se juntavam a nós e lá permaneciam a jogar cartas.”, explica Lúcia.

Os irmãos foram crescendo, multiplicaram-se e novos caminhos ditaram outras vivências. “Esta memória, com esta intensidade, não esteve, nem nunca estará, acessível aos meus filhos e sobrinhos. Tento, ainda assim, dentro daquilo que hoje é uma vida mais agitada, fazê-los sentir o Natal”, defende Lúcia Freitas. Mantendo sempre os mesmos valores, Lúcia faz uma adaptação aquilo que considera importante para a formação dos seus filhos. Envolve-os em atividades fora de casa para que percebam como é importante o sentimento de partilha, dar um pouco do seu tempo a outros, fazendo-os perceber que há pessoas com vidas mais complexas e que um pequeno gesto ou uma palavra valem muito mais do que a materialização do momento.

Pela primeira vez em 11 anos, Lúcia vai conseguir ter todos os seus irmãos e respetivas famílias à mesma mesa de Natal. As prendas não são nem nunca foram valorizadas pois por serem sempre muitos, praticam já há muitos anos o amigo secreto. Com uma condição. Não gastar dinheiro. Vale pela brincadeira, pelo gozo, mas sobretudo pela imaginação. E esta prática é aplicada à medida que os meninos vão crescendo. “Queremos que eles usufruam deste momento único de convívio familiar para que também eles possam espalhar o verdadeiro significado da palavra Natal.”, conclui Lúcia.

Mas nem todas as famílias vivem o Natal da mesma forma. Ao longo dos últimos anos, o apelo ao consumo tomou conta do momento, comprando presentes de forma compulsiva e desenfreada, mesmo sem que as crianças as tenham desejado.

Perante uma sociedade claramente consumista, Hercília Guimarães, professora de pediatria e diretora do serviço de neonatologia do Centro Hospitalar Universitário São João, considera que, de um modo geral, os pais dão demasiadas prendas aos filhos. “A quantidade de presentes é inimiga da ligação da criança às coisas, aos brinquedos e aos momentos. Não é a quantidade que importa. Um pequeno presente pode estar carregado de significado e pode fazer a diferença. É a presença dos pais e da família que deve ser valorizada”, defende a pediatra.

“Se pensarmos num plano a curto prazo, há pequenas coisas que os pais podem fazer para trabalhar a visão materialista das crianças em relação ao Natal. Partilhar coisas com elas, envolvê-los em ações de interajuda, dentro ou fora de portas. O importante é fazer momentos em família, que são momentos de partilha. No Natal é suposto fazer algo para os outros e pelos outros. E esta iniciativa pode ser feita já, nem precisa de entrar na resolução de Ano Novo. E a médio/ longo prazo será introduzir crianças mais pequenas nesta lógica, para que facilmente percebam que vão dar para o outro e conseguem perceber a dádiva sem ser material”, justifica Gilda Nóbrega, especialista em Psicologia Clínica e Psicoterapia.

“A perceção de falta de tempo dos pais em relação aos filhos leva-os, muitas vezes, a compensar essa ausência com bens materiais. Os pais são os guias dos filhos e as crianças percebem a dinâmica do mundo perante aquilo que os pais apresentam. Se os pais apresentarem de forma rápida que uma coisa boa é materializada num objeto, é isto que a criança vai interiorizar. Para agradecer ou se sentir feliz, a criança tem de possuir aquele objeto. Mesmo que o tempo disponível seja curto, o mais importante é aquilo que se faz com ele. Se num fim de dia de trabalho os pais alocarem efetivamente 30 minutos para ouvir os filhos e estar interessados em brincar com eles, conseguem chegar à pessoa e usufruir de momentos de felicidade que não é um objeto”, argumenta Gilda Nóbrega.

Hercília Guimarães defende que começa a haver alguma consciencialização da excessiva materialização do Natal. Ainda que a recuperação de valores e o recuo na compra de bens materiais não aconteça de forma imediata, é notório em algumas famílias que, no dia seguinte, são guardados grande parte dos brinquedos que acabam por ser doseados ao longo do ano. “Nas famílias em que o exagero é ponto de ordem, aconselha-se que substituam brinquedos por cultura, espetáculos de música ou até mesmo iniciativas natalícias. Os meninos interagem, brincam e até gostam de participar. É um momento em família em que estão todos juntos e longe de uma pilha de brinquedos. E há que evitar o isolamento. Pensar em jogos para serem jogados em família para contribuir para um crescimento socialmente mais saudável”, explica a pediatra.

Luís Osório, jornalista e escritor, vai viver este ano, pela primeira vez, o Natal com que sempre sonhou e sempre lhe foi negado. Cresceu dentro de uma família disfuncional em que do lado paterno não se celebrava o Natal por razões ideológicas, e do lado materno, uma mãe, extremamente pobre, trabalhava de dia e de noite para que o filho pudesse sentir o mínimo cheiro a Natal. O segundo casamento da sua mãe permitiu uma mudança de rumo e, no primeiro Natal que passou em casa da família do padrasto, Luís ficou completamente esmagado com a árvore de Natal da casa, que o terá impressionado ao ponto de desejar algo semelhante um dia mais tarde. Pai de quatro filhos de gerações completamente diferentes, um divórcio precoce fez com que Luís compensasse os filhos de forma mais material pela sua ausência de forma diária. “O conceito de Natal, de presença e de família, não existia e talvez por isso os tenha entupido de prendas”, relembra Luís Osório.

“As prendas são uma concessão de uma sociedade cada vez mais consumista que perde a noção daquilo que verdadeiramente conta, mas por outro lado somos fruto daquilo que nos aconteceu ao longo da vida. Vai existir prendas, sim, mas também vai existir a mensagem. No fundo, o mais importante é podermos estar todos juntos e partilhar uma ideia de futuro comum, tudo o resto é supérfluo, a começar pelas prendas”, afirma Luís.

Com o nascimento dos dois mais novos e passados 40 anos, Luís Osório vai poder concretizar este sonho. “Hoje a minha casa existe uma árvore provavelmente tão grande como aquele que conheci em casa do meu padrasto, e estamos preparados para ter um Natal com os filhos todos, e eu estou muito feliz porque, num certo sentido, este é o primeiro Natal da minha vida!”
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