PISA | Algumas oscilações nos resultados, acima da média da OCDE

Alunos portugueses mantêm resultado a Matemática, descem ligeiramente a Leitura, e baixam nove pontos em Ciências. Avaliação internacional mostra que o efeito do estatuto socioeconómico e cultural no desempenho escolar é significativo em Portugal. As expetativas são maiores em contextos mais favorecidos. Mais de metade não escuta o que os professores dizem, 50% chegaram tarde à escola nas duas semanas antes do PISA, e o gosto por ler diminuiu.
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O PISA - Programa de Avaliação Internacional de Alunos voltou a avaliar a literacia de leitura, a literacia científica e a literacia matemática dos alunos de 15 anos de idade de 79 países. Os resultados acabam de ser revelados e os estudantes portugueses estão na média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) nos três domínios avaliados. Este estudo trienal envolveu mais de 600 mil alunos. Em Portugal, participaram 276 escolas, 5 932 alunos e 5 452 professores, de todas as regiões do país.

Os desempenhos médios globais no PISA não variaram nas últimas duas décadas e Portugal é, segundo o relatório, um dos poucos países que apresenta uma trajetória de melhoria nos três domínios avaliados, estando a par da média da OCDE. China, Singapura e Macau, do continente asiático, obtiveram as melhores pontuações médias nas três áreas disciplinares examinadas.

O Estatuto Socioeconómico e Cultural (ESCS) é um dos fatores analisados. Em Portugal, o contexto socioeconómico do aluno continua a ter um impacto expressivo no desempenho escolar. A probabilidade de um estudante, entre os 25% mais desfavorecidos, obter uma pontuação abaixo do nível 2 de proficiência é aproximadamente três vezes maior do que a de um aluno com estatuto socioeconómico superior.

O efeito do estatuto socioeconómico e cultural no desempenho em Leitura é, por exemplo, maior em Portugal do que no conjunto dos países da OCDE. A diferença da pontuação em Leitura entre os alunos portugueses mais favorecidos e os menos favorecidos é de 95 pontos, sendo que 13,5% da variação dos resultados pode ser explicada pelo ESCS. Em Portugal, 22% dos alunos têm possibilidade de se matricularem em escolas frequentadas por estudantes que atingem níveis mais elevados, mais do que a média da OCDE, de 17%.

Dez por cento dos alunos portugueses são resilientes, não divergindo significativamente da média da OCDE, de 11%. Apenas um em cada 10 alunos, provenientes de famílias mais desfavorecidas, teve um desempenho em Leitura no quartil superior, ou seja, obteve uma pontuação entre as 25% melhores.

Em relação às expetativas, 73,6% dos alunos portugueses querem concluir um curso do Ensino Superior, resultado superior ao da OCDE, de 69%. Portugal é um dos países em que a diferença entre os alunos mais e menos favorecidos quanto à expetativa de concluir o Ensino Superior é mais expressiva, de 43%. Quase todos os alunos, 93,1%, de meios com ESCS mais favorecidos pretendem concluir o Ensino Superior, enquanto só metade dos alunos com ESCS mais baixo manifestam o mesmo desejo.

Quanto aos hábitos de leitura, em 2009 e em 2018, a proporção de alunos portugueses de 15 anos que “gosta de falar de livros com outras pessoas” foi superior à observada para a média da OCDE. No entanto, a percentagem de jovens portugueses que mantém esse gosto diminuiu 11 pontos em 2018. A percentagem de alunos portugueses que “só lê se for obrigado” e que considera a leitura uma “perda de tempo” aumentou em 2018 nove e três pontos percentuais respetivamente, seguindo a mesma tendência da OCDE.

Mais de metade dos alunos portugueses, 53,5%, admitem que não escutam o que os professores dizem em algumas aulas e cerca de um quinto em muitas aulas. Trinta por cento contam que os professores demoram muito tempo até sossegarem a turma. As queixas refletem-se nos resultados. Os alunos que dizem ter sempre indisciplina e barulho nas aulas tiveram menos 17 pontos na avaliação à Leitura, em relação aos que não se queixam desses problemas. Por outro lado, os alunos portugueses faltam mais e chegam mais vezes atrasados às aulas do que a média da OCDE. Vinte e oito por cento dos alunos faltaram um dia às aulas e 50% chegaram tarde à escola nas duas semanas que antecederam o PISA – na OCDE foram 21% e 48%, respetivamente.

Raparigas com melhores resultados em Leitura
Em Leitura, Portugal obteve uma pontuação média de 492 pontos, cinco pontos acima da média da OCDE de 487 pontos, menos seis pontos da média nacional de 2015, e acima das médias de 2000 e 2009. O relatório nacional do PISA indica que, entre 200 0 e 2018, e considerando a variação média em ciclos de três anos, Portugal foi um dos países que apresentou uma evolução positiva e significativa em literacia de leitura, ou seja, de mais 4,3 pontos, e acima da variação média da OCDE que foi de 0,4 pontos.

Perto de 80% dos alunos portugueses alcançaram, pelo menos, o nível 2 de proficiência em leitura, enquanto na OCDE essa percentagem ficou nos 77%. Neste nível, os alunos conseguem identificar a ideia principal de um texto moderadamente longo, localizar informação mediante critérios explícitos embora complexos, compreender relações ou atribuir significado a uma parte específica de um texto, fazendo inferências simples, refletir sobre a finalidade e a forma dos textos, mediante indicações explícitas. Cerca de 7% dos alunos portugueses alcançaram os níveis superiores da escala de proficiência em leitura, os níveis 5 e 6. Na OCDE esta média sobe para 9%. Nestes níveis, os alunos conseguem compreender textos de leitura demorada, lidar com conceitos que são abstratos ou contraintuitivos e distinguir factos de opiniões baseados em dados que dizem respeito ao conteúdo ou à fonte de informação.

Nas subescalas que avaliam a Leitura, Portugal obteve melhores desempenhos em “Avaliar e Refletir” com 494 pontos do que nos processos cognitivos que implicam “Localizar Informação” com 489 pontos e “Compreender” com 489 pontos, seguindo a tendência internacional. A pontuação média obtida por Portugal, em qualquer uma das subescalas da Leitura, corresponde a uma proficiência de nível 3, o que significa que os alunos conseguem localizar vários elementos de informação que obedecem a várias condições e, em alguns casos, conseguem identificar relações entre esses elementos.

O relatório nacional revela ainda que no processo “Compreender”, “os alunos conseguem integrar várias partes de um texto para identificar uma ideia principal, compreender relações ou atribuir significado a uma palavra ou a uma frase”. Nas tarefas que implicam “Avaliar e Refletir” conseguem estabelecer relações, comparações, produzir explicações, e avaliar um aspeto particular de um texto.

As raparigas obtiveram melhores desempenhos em Leitura do que os rapazes, à semelhança do que se tem verificado. As raparigas obtiveram, em média, 24 pontos acima da pontuação média alcançada pelos rapazes, ou seja, 504 pontos versus 480 pontos. A diferença é menor do que a verificada em 2009 e semelhante à observada em 2000. “Portugal seguiu a tendência internacional, embora a diferença de pontuação entre rapazes e raparigas portugueses seja menor do que a observada para a maioria dos países/economias”, lê-se no relatório nacional.

Em Leitura, China, Singapura, Macau e Hong Kong, no continente asiático, tiveram os resultados mais altos, pontuações superiores a 520 pontos. A pontuação de Portugal não é significativamente diferente da pontuação alcançada pela Alemanha (498 pontos), pela Eslovénia (495 pontos), pela Bélgica (493 pontos), pela França (493 pontos), pela República Checa (490 pontos) e pela Holanda (485 pontos).

12% dos alunos nos níveis superiores de Matemática
Os alunos portugueses obtiveram uma média de 492 pontos em literacia matemática, três pontos acima da média da OCDE, e os mesmos pontos alcançados em Leitura. Em Matemática, verifica-se um aumento significativo de 26 pontos relativamente a 2003 e de 5 pontos relativamente a 2012. Entre o ciclo de 2015 e o de 2018, a pontuação média em Matemática não se alterou significativamente, a subida foi de mais 0,9 pontos. China, Singapura, Macau, Hong Kong e Taipé Chinês obtiveram os melhores resultados do PISA, todos acima dos 500 pontos. China com o melhor desempenho atingiu 591 pontos, mais 99 do que Portugal.

Entre 2003 e 2018, há um crescimento significativo de 6 pontos e, no mesmo período, a OCDE registou uma tendência negativa evidenciando um ligeiro decréscimo, de menos 0,6 pontos. Cerca de 12% dos alunos portugueses alcançaram os níveis superiores da escala de proficiência em matemática, resultado superior ao verificado em 2003 e em 2012 e semelhante à média da OCDE, de 11%. Nos níveis 5 e 6 da escala de proficiência, os alunos conseguem modelar matematicamente situações complexas e selecionar, comparar e avaliar estratégias adequadas para resolver problemas.

Setenta e sete por cento dos alunos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em matemática, percentagem semelhante à média da OCDE, de 76%. Neste nível, os estudantes conseguem interpretar e reconhecer, sem instruções diretas, como se pode representar matematicamente uma situação simples.

Em Portugal, os rapazes obtiveram mais 9 pontos do que as raparigas na avaliação da literacia matemática, sendo a diferença significativa, 497 para os rapazes, 488 para as raparigas. “Os rapazes revelaram níveis de proficiência superiores em todos os ciclos PISA em que a Matemática foi domínio principal (2003 e 2012), embora a diferença tenha diminuído em 2018. Ainda assim, foi superior à diferença verificada no conjunto de países da OCDE (492 vs. 487 – 5 pontos favoráveis aos rapazes)”.

Ciências em queda generalizada, rapazes com melhor desempenho
Em Ciências, Portugal obteve 492 pontos na avaliação, três pontos acima da média da OCDE. Mas verifica-se uma quebra de nove pontos em relação aos resultados divulgados em 2015, embora essa tendência decrescente seja generalizada. Apesar desta descida, quando se analisa a variação média em ciclos de três anos, Portugal é um dos 13 países que apresenta uma variação positiva e significativa de mais 4,3 pontos na avaliação das ciências. À semelhança do verificado na avaliação da Leitura, China, Singapura e Macau são os três países com melhor desempenho.

Oitenta por cento dos alunos portugueses alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência, percentagem ligeiramente superior à média dos países da OCDE, de 78%. Neste nível, os alunos são capazes de utilizar conhecimentos do dia a dia acerca de conhecimentos e procedimentos elementares para identificar uma explicação científica apropriada, interpretar dados e identificar a questão investigada num delineamento experimental simples.

Nos níveis de desempenho que exigem o domínio de tarefas de maior complexidade, níveis 5 e 6, os resultados de Portugal são inferiores aos da média da OCDE. Apenas 6% dos alunos portugueses conseguiram alcançar, pelo menos, 633 pontos na escala das ciências enquanto, em média, no conjunto dos países da OCDE foram 7%. Nestes níveis de proficiência os alunos conseguem, por exemplo, aplicar o seu conhecimento de ciências e sobre ciências de forma autónoma e criativa a uma grande variedade de situações, mesmo as menos familiares.

Os rapazes tiveram melhores desempenhos em Ciências do que as raparigas, embora a diferença não seja significativa (494 pontos para 489 pontos). A tendência é comum aos resultados nacionais em ciclos anteriores, mas não é comum aos resultados da OCDE. Os resultados médios da OCDE, em função do género, mostram diferenças menos acentuadas do que as verificadas em Portugal e sobretudo favoráveis às raparigas em 2018.

No conjunto dos alunos portugueses com melhores desempenhos, um em cada dois rapazes pensa vir a desenvolver uma profissão na área das ciências e das engenharias, enquanto uma em cada sete raparigas pensa vir a fazê-lo. Ou seja, 48% dos rapazes e 15% das raparigas. Estes resultados são significativamente diferentes dos observados no conjunto dos países da OCDE, com uma média de 25% dos rapazes e 14% das raparigas. Na área da Saúde, a tendência inverte-se com a preferência de 47% das raparigas e 15% dos rapazes.
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