O que uma escola portuguesa faz com as novas tecnologias

UNESCO analisa o potencial dos recursos tecnológicos nas aprendizagens dos alunos e apresenta Colégio Monte Flor, em Carnaxide, como referência. Nesta escola privada do 1.º Ciclo, aprende-se em todo o lado, a qualquer hora. Todos são valiosos, todos têm algo para dar. O currículo assenta em projetos e os talentos não são desperdiçados.
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As novas tecnologias de informação e comunicação (TIC) fazem parte do quotidiano de crianças e jovens e já estão nas escolas. O seu papel na Educação tem sido reconhecido e é, aliás, destacado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como uma ferramenta que deve ser aproveitada para fortalecer os sistemas educacionais, disseminar o conhecimento, fornecer acesso à informação, promover qualidade e aprendizagem da maneira mais eficiente. No entanto, há evidências que demonstram que sistemas educativos e estabelecimentos de ensino raramente estão preparados para aproveitar as virtudes das TIC, das novas plataformas que estão em todo o lado.

Esta realidade, a relevância do mundo digital, e a vontade de estimular ambientes inclusivos de aprendizagem, merecem atenção da UNESCO, organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. O caso do Colégio Monte Flor, em Carnaxide, é analisado e mostrado com uma referência pela UNESCO, que está atenta a práticas e modelos bem-sucedidos nas escolas, bem como na partilha desses exemplos.

O Colégio Monte Flor é uma escola privada do 1.º Ciclo, fundada em 1973, que defende uma aprendizagem individualizada, em que cada criança deve ser valorizada pelos seus talentos e aspirações. Neste momento, tem cerca de 200 alunos e 13 professores entre 35 funcionários. Em 2013, percebeu a importância das novas tecnologias. Em 2016, desenvolveu um modelo centrado nos alunos, fez mudanças na avaliação, passou a dar mais importância ao pensamento crítico, à criatividade, à comunicação e colaboração, ou seja, às habilidades sociais. E também a outras competências que se podem manifestar através de projetos realizados nas escolas.

A abordagem está focada em projetos, combinou-se um currículo centrado no aluno com o programa nacional, e tudo se interliga. Todos os projetos começam com perguntas e questões feitas em conjunto, alunos e professores, para estimular a imaginação e discussão. Todos os meses há uma assembleia para discutir desafios e estratégias para a implementação de projetos.

Os projetos duram, regra geral, um mês, mas podem ser mais curtos ou mais longos. Começa com uma questão. Por exemplo: Como podemos usar o nosso dinheiro? É feito um mapa numa parede com várias perguntas. O que aprender? O que fazer? Como fazer? Quando? Quem? As atividades são distribuídas e os alunos têm a palavra para dizer se concordam ou não quanto ao que farão no projeto. Se a ideia é, por exemplo, criar um mercado para falar de dinheiro, é preciso fazer etiquetas com preços, cartazes, decorar o espaço, organizar o local, dispor os produtos, pensar e criar publicidade. É então feito um calendário para organizar o trabalho e o projeto é executado.

“A apresentação do projeto é uma celebração da aprendizagem. Os alunos fazem apresentações, teatro, vídeos, eventos”, lê-se no relatório da UNESCO. Depois é hora de avaliar, o que os alunos mais gostaram, o que menos gostaram, o que poderia ter sido diferente, o que se mudaria. É tempo de partilha no bloco de notas do OneNote, que está acessível a todos os alunos.

Autonomia, respeito, determinação
“A tecnologia não está no centro, mas é crucial para o sucesso do processo de aprendizagem, pois tudo depende disso”, lê-se no documento. A avaliação, os recursos, a comunicação, e o processo criativo, são feitos com dispositivos móveis, com novas tecnologias. E todos, alunos, pais, professores, estão interligados. Neste colégio português, valoriza-se a autonomia, a responsabilidade, a determinação, o respeito, a cooperação, porque há consciência de que o sucesso na vida depende dessas competências desenvolvidas na escola.

Aprender a qualquer hora e em qualquer lugar. Explorar talentos, desenvolver habilidades, estar preparado para o século XXI. Tudo isso importa, tudo isso contribui para a educação. No início do ano letivo, explica-se a visão da escola e os projetos aos pais e encarregados de educação. O Colégio Monte Flor usa as plataformas digitais no dia-a-dia e sente que, nos últimos dois anos, há um maior comprometimento com a abordagem escolhida, ou seja, a utilização de tecnologia por parte dos alunos que vivem num mundo imerso em meios digitais. “A tecnologia está presente em tudo o que nos rodeia e a aquisição de competências digitais é a chave para o sucesso, não só no futuro, mas também no presente”. Por isso, a tecnologia faz parte da aprendizagem, do processo de aprender.

Em 2009, o programa nacional E-Escolas proporcionou o acesso dos alunos a tablets a baixo custo ou, em alguns casos, de forma gratuita. O colégio aproveitou a oportunidade e viu mais além. Os professores receberam formação intensiva para massificar o uso de novas tecnologias na escola que assumiu o Office 365, aderiu à Escola Virtual e ao Weduc. O E-Escolas foi cancelado, mas o colégio continuou o caminho. “A escola tem hoje um modelo bem consolidado em que pais, professores e alunos sabem o que esperar da escola, mas a escola também sabe o que esperar de todas as partes envolvidas”.

Os alunos podem adquirir conhecimentos em qualquer lugar e o colégio sabe disso. Nesse sentido, as crianças têm oportunidade de explorar o conteúdo de cada currículo através da Escola Virtual, uma plataforma de recursos digitais com matérias das várias disciplinas. Os alunos são encorajados a explorarem sozinhos a ferramenta, mas há um professor responsável por monitorizar e avaliar o progresso de cada um. “Aprender no seu próprio ritmo é a principal ideia no uso desta plataforma, onde os alunos podem explorar vídeos, atividades, documentos sobre todos os tópicos do currículo, podem avaliar os seus conhecimentos, e se alguma coisa não for entendida, a ferramenta sugere exercícios e outros recursos”.

A tecnologia é importante, mas os alunos são sempre o centro da aprendizagem. “Hoje, mais do que nunca, a escola desafia os seus alunos a sonhar, pensar, discutir e, mais importante, criar”. Esta é uma premissa importante do Colégio Monte Flor. Os meios tecnológicos ajudam a comunicar com os colegas, a procurar informações, comparar dados, confrontar diferentes opiniões. A tecnologia é um poderoso aliado na educação. Faz parte da escola, faz parte da vida dos alunos.

O percurso está traçado. Estratégias e metas em torno de um modelo de ensino que integra as TIC no processo de ensinar e de aprender. Avaliação e monitorização para acompanhar o trajeto escolar, verificar o que se pode melhorar. Uma escola em constante mudança e que não cruza os braços. Fibra ótica para aumentar a velocidade da internet, políticas e regras para a utilização dos dispositivos móveis. Mas as mudanças na pedagogia não foram alcançadas sem dificuldades. Os pais tiveram de adaptar novas formas de trabalhar com os filhos e a escola manteve-se atenta com explicações e reuniões. “O uso de plataformas digitais para se comunicar com os pais, o uso de vídeos na escola, ou vídeos tutoriais explicando procedimentos e conteúdos, são cruciais para uma melhor compreensão da maneira como o processo de aprendizagem ocorre na escola”.

Ampla variedade de recursos
A escola tem rede sem fios, ligação segura por login aberta a todos os utilizadores. Cada aluno, do 1.º ao 4.º ano, tem um dispositivo pessoal que é usado em projetos, atividades e várias tarefas. Cada sala de aula do pré-escolar tem um computador e um quadro interativo. Cada aula tem um caderno digital e as lições e os conteúdos são enviados para o bloco de notas da turma. Professores e alunos criam os seus próprios recursos - textos, vídeos, músicas, jogos, apresentações, ideias, mapas mentais - que estão disponíveis em qualquer lugar, a qualquer hora.

Nos últimos três anos, 63 alunos estiveram envolvidos em atividades de codificação com Kodu e Lego Mindstorms e, desde 2015, mais de 150 partiparam no Dia da Internet Segura. Este ano, vários alunos estiveram em várias empresas e instituições, nomeadamente no Ministério da Justiça e na Siemens, a sublinhar quão importante é a alfabetização digital e a segurança no mundo da net. O colégio tem ainda um laboratório de aprendizagem com nove computadores, uma playstation, uma televisão, um projetor de alta definição na parede e um quadro interativo. Esta sala, inspirada no Future Classroom Lab em Bruxelas, é usada frequentemente.

O corpo docente é estável, a faixa etária anda entre os 23 e os 63 anos. Todos os docentes e educadores são pós-graduados, têm vastos conhecimentos no uso de tecnologias no ensino. Há formações constantes, workshops para trocar ideias e refletir sobre estratégias. Os professores participam em eventos com outros docentes em várias partes do mundo para a partilha de experiências pedagógicas. Todos os professores do colégio são membros da Comunidade de Educadores da Microsoft. Em 2011, um dos professores do colégio foi reconhecido como um dos 18 professores mais inovadores no Fórum Global da Microsoft. Em 2013, o colégio foi considerado, pela Microsoft, com uma das 150 escolas de excelência no uso das TIC em todo o mundo.

Desde o Natal de 2018, que os alunos preparam e apresentam uma peça num lar de idosos, com uma demonstração de Robótica, organizam jogos de tabuleiro, e apresentam danças interativas para promover a atividade física. “A ideia deste projeto não é complexa. No entanto, o projeto tem um grande impacto social, não só na vida dos idosos, mas também na forma como os alunos veem, sentem, e interagem com eles”.

Os alunos do Colégio Monte Flor têm vindo a ganhar prémios nas áreas de Ciências, Matemática, Português, Desenho, Desporto. É uma escola inclusiva e acessível a todos. “Ao dar aos alunos a oportunidade de comunicarem e aprenderem a qualquer hora, em qualquer lugar, a escola está a respeitar ritmos diferentes de aprendizagem. Dar às crianças uma ampla variedade de recursos significa que os seus estilos de aprendizagem individual são respeitados, permitindo uma melhor compreensão dos assuntos. Os professores dão oportunidade aos alunos de realizarem os seus próprios projetos”, lê-se no relatório da UNESCO.

O modelo do uso das novas tecnologias, como uma poderosa ferramenta para a aprendizagem no século XXI, está consolidado. O próximo passo da escola “é tornar o processo de aprendizagem ainda mais flexível, permitindo que os alunos aprendam com mais autonomia e mudem gradualmente aulas, assuntos, lições”. Um objetivo para alcançar até 2020. O caminho feito até agora é positivo. “O feedback que os professores vão tendo de ex-alunos e de pais é que o modelo os prepara para a vida, para a mudança, para o pensamento crítico e para se adaptarem a qualquer situação”. Uma escola portuguesa que é um exemplo para a UNESCO.

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O outro lado da medalha - I
Prof. Raul Guerreiro
Qualquer tecnologia depende da consciência humana e vai influenciar decisivamente o desenvolvimento da mesma. Cérebros de adolescentes e adultos já estão conformados de forma saudável. Em crianças, este processo de maturação ainda não está concluído. Há hoje inúmeros e irrefutáveis estudos científicos, medicinais e psicológicos que alertam contra a implementação precoce de uma digitalização das escolas, tendendo a uma robotização das consciências infantis e uma degeneração da educação. Só gigantescos interesses económicos podem explicar a verdadeira trapaça que está a ser implementada no seio do nosso ensino, como se fôssemos um miserável recanto do terceiro mundo, ávido de “novidades” tecnicistas para aliviar os nervos de pais e educadores despreparados. As inúmeras metanálises em todo o mundo já evidenciaram os terríveis efeitos colaterais da digitalização precoce de jardins de infância e escolas: perturbações no desenvolvimento do lobo frontal do córtex cerebral, incapacidade de pensamento e controle autónomos, danos para a postura corporal e a visão, perda de empatia social, défices na expressão linguística, dependência viciosa (como uma verdadeira droga) – e ainda os efeitos secundários do electrosmog (radiações eletromagnéticas ambientais) sobre o sistema nervoso.
14-07-2019
O outro lado da medalha - II
Prof. Raul Guerreiro
Personalidades como Steve Jobs e Jeff Bezos, proeminentes precisamente na área da tecnologia da informação, negaram aos seus filhos o acesso precoce ao mundo digital. Segundo as estatísticas, os filhos de académicos, em comparação com o resto da população, passam muito menos tempo em frente de qualquer ecrã. Neurologistas do desenvolvimento, como o Prof. Hüther e especialistas económicos como Andrew McAfee (MIT) são unânimes em prever que o futuro mundo da tecnologia da informação vai depender sobretudo de criatividade, competência social e habilidade de pensamento e ação reais. No recente encontro do Fórum Econômico Mundial o super-empresário chinês Jack Ma (Alibaba concorrente da Amazon) resumiu isso com as palavras: «Em vez de acumular conhecimentos, coisa que qualquer computador pode fazer muito mais rapidamente, as escolas deveriam ensinar valores tais como confiança, pensamento independente, e trabalho em equipe, e também dar mais espaço para temas criativos, como arte, cultura, música e esporte. Mas o desenvolvimento destas competências criativas futuristas depende do mundo real (analógico) e não do mundo digital! Este é o paradoxo a enfrentar: as competências sociais, a criatividade e o pensamento inovador precisam do contato direto entre as pessoas, inclusive um debate entre todos que alimentam ideias divergentes – tudo sem o computador!» O que deve unir pais e educadores é o amor e a dedicação às crianças e jovens, e a grande responsabilidade que temos perante o seu futuro. Eles devem poder crescer de forma saudável, para saberem enfrentar o seu futuro digital de forma competente, e realizar as suas vidas individuais.
14-07-2019
 
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