Provas mais fáceis, mais “pobres”, e sem surpresas

Os exames nacionais da primeira fase, as provas de aferição e de final de ciclo estão feitos. Para alguns alunos do Secundário, haverá ainda uma segunda etapa que começa a 18 de julho. Associações e organizações de professores analisaram os testes e falam em “facilitismo”.
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A primeira fase dos exames nacionais do Ensino Básico e Secundário terminou. Os resultados das provas fundamentais para o acesso ao Ensino Superior são afixados a 12 de julho. As notas dos testes finais de ciclo são conhecidas a 15 de julho e os processos de reapreciação afixados a 12 de agosto. A segunda fase dos exames nacionais do Secundário começa a 18 de julho e termina a 23 de julho. A 5 de agosto são conhecidos os resultados e a 26 as notas das provas que serão reapreciadas. Mais uma jornada à vista para vários alunos.

Uma das provas essenciais para o acesso ao Ensino Superior, nomeadamente aos cursos científicos das universidades, é Matemática do 12.º ano e milhares de alunos compareceram à chamada. A Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) tece várias críticas ao exame da disciplina, garante que se trata de uma “prova pobre que não avalia de forma equilibrada a aprendizagem prevista no currículo”, que não valoriza adequadamente o trabalho desenvolvido pelos alunos e respetivos professores ao longo dos três anos do Secundário, e teme que a situação se agrave no futuro.

Tal como no ano passado, a SPM destaca o facto de o exame ser feito a pensar em dois currículos. “Sujeitar todos os alunos, em particular todos os que se encontram dentro da escolaridade obrigatória, a outros referenciais eventualmente adequados para alunos que já não estão nessa situação é pura e simplesmente inadmissível”, sustenta, acrescentando que a flexibilidade curricular é “uma forma encapotada de fazer com que os currículos efetivamente lecionados não possam ser submetidos ao escrutínio público, nivelando por baixo o trabalho das escolas e transformando-as lentamente em verdadeiros centros de Atividades de Tempos Livres”.

A prova de Matemática de final de ciclo, do 9.º ano do 3.º Ciclo, deste ano não foi muito diferente à de 2018. A SPM, no seu parecer, diz que, no geral, houve uma diminuição do grau de dificuldade. “Solicita-se na esmagadora maioria das questões a execução de tarefas de natureza rotineira e de baixa complexidade”. “Nas escolas que não se deixaram perturbar pelas ‘novas’ (na realidade bem velhas) ideias pedagógicas que acompanham o projeto de ‘Autonomia e Flexibilidade Curricular’, será de prever um maior sucesso. Nas outras, poderão começar a aparecer desde já várias debilidades no desempenho dos alunos”, aponta.

Uma prova, resume, “sem surpresas, muito acessível, que não avalia adequadamente o que é prescrito pelo currículo do 3.º Ciclo e que confirma a tendência observada para uma simplificação das diferentes avaliações externas”. A SPM lembra que a partir do próximo ano letivo chegarão, ao 9.º ano, os primeiros alunos que, a título experimental, foram submetidos ao projeto de “Autonomia e Flexibilidade Curricular”. “As escolas a que pertencem não foram obrigadas a cumprir os programas das disciplinas, sendo por isso desconhecido - facto inédito em Portugal - o ensino que lhes foi ministrado, em termos de conteúdos efetivamente lecionados, de capacidades que se procuraram desenvolver ou mesmo de técnicas matemáticas-chave, que poderão não ter sido lecionadas”, realça.

Para a SPM, são necessárias medidas urgentes que terão de passar por um “diagnóstico sério do trabalho que foi efetivamente realizado com estes alunos no 7.º e no 8.º ano, corrigindo-se durante o próximo ano letivo todas as deficiências que não deixarão de transparecer. Caso contrário, a prova final de 3.º Ciclo de hoje poderá vir a ser a última a obedecer a uma matriz minimamente clara e objetiva, sendo o documento intitulado ‘Aprendizagens Essenciais’ demasiado amador e vago para servir este propósito”.

“Desmoralizar alunos, preocupar encarregados de educação”
Quanto aos testes aplicados no 1.º Ciclo do Ensino Básico, a SPM salienta a “total ineficácia de provas de aferição aplicadas no 2.º ano de escolaridade”. “A grande variabilidade na maturidade e no estádio de desenvolvimento cognitivo que tipicamente se observa nas crianças desta faixa etária - sendo também certo que as diferenças de idade, que podem ir até um ano, têm nesta fase um elevadíssimo impacto - tornam qualquer avaliação deste tipo inutilizável para fins de monitorização do bom funcionamento do nosso sistema de ensino”, escreve no parecer dado à prova.

E vai mais longe com mais críticas. “Esta inadequação instrumental leva a relatórios individualizados que apenas parecem servir para desmoralizar os alunos logo no início da sua escolaridade, preocupar os respetivos encarregados de educação e servir de pretexto à reforma totalmente insensata que está em curso na escola portuguesa. Esses relatórios, até aqui tipicamente negativos, estão em completa dissonância com todos os dados fiáveis de que se dispunha em finais de 2015 quanto à qualidade da aprendizagem dos alunos durante o 1.º Ciclo do Ensino Básico”.

Quanto à prova propriamente dita, a SPM diz que não tem erros científicos, que alguns itens apresentam ainda um grau de complexidade demasiado desajustado a alunos do 2.º ano, e que os conteúdos matemáticos são pouco variados, “provavelmente por se pretender também avaliar Estudo de Meio” - opção de que discorda por, explica, “configurar uma interdisciplinaridade artificial e forçada”. “Desta forma, os itens de Matemática não são suficientes para aferir adequadamente os conhecimentos adquiridos pelos alunos no final do 2.º ano: este teste avalia de forma deficiente um certo número de técnicas essenciais a um prosseguimento de estudos de sucesso em Matemática”.

O exame nacional de Português, um dos mais participados na primeira fase dos exames do Secundário, não parece ter sido muito complicado. Um poema de Fernando Pessoa para analisar, um excerto do “Sermão de Santo António (aos Peixes) e Sermão da Sexagésima” do Padre António Vieira para entender, uma parte mais contemporânea de “Uma História de Curiosidade” escrita de Alberto Manguel.

A Associação de Professores de Português está satisfeita com a prova que admite ter ido “ao encontro das expetativas dos alunos”, sem surpresas à mistura. Estavam inscritos 77 198 estudantes, compareceram ao exame 72 910. Não podiam usar corretor, nem consultar o dicionário, apenas caneta ou esferográfica de tinta azul ou preta.

O exame de Física e Química do 11.º ano só exigiu uma vez o uso da calculadora gráfica para responder a uma pergunta, entre os 26 itens apresentados para resolver. A Sociedade Portuguesa de Física refere que a prova deste ano foi mais fácil do que a do ano passado. Grau de dificuldade inferior, extensão adequada ao tempo previsto para a sua resolução, e uma leitura mais atenta de determinados gráficos e textos. Estavam inscritos 44 390 alunos, fizeram o exame 40 813.

Relativamente ao ponto do uso da calculadora, a SPF adianta que estava “construído de forma bem dirigida, embora não contivesse a instrução explícita de que o examinando deveria fazer uso da calculadora gráfica, que tanto trabalho deu a professores e examinandos para ser colocada em modo de exame”. Um reparo dirigido ao júri nacional de exames. Nas indicações enviadas às escolas, referia-se que os alunos só podiam utilizar calculadoras gráficas no exame de Física e Química A, caso estivessem em modo de exame, de forma a não acederem a informações guardadas em memória. As instruções referiam também que o modo de exame só deveria ser ativado já dentro das salas onde se realizaram as provas, na presença do professor coadjuvante. Vários professores protestaram por considerarem que estas obrigações discriminavam os alunos com menos recursos financeiros.

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