Ler em papel, ler em ecrãs. Duas diferentes formas de ler

Há estudos que confirmam a superioridade do papel em relação ao ecrã e esta conclusão obriga a repensar estratégias educativas. A informação é melhor compreendida quando lida no que está impresso do que nas telas das novas tecnologias, sobretudo quando há pressão do tempo. A memória também trabalha de outra forma.
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A leitura em papel produz melhores resultados ao nível da compreensão do que a leitura digital. E a vantagem da compreensão do que é lido em papel tem aumentado ao longo dos últimos anos, desde 2000, desde a viragem do século, apesar da mudança gradual da leitura para dispositivos digitais – em computadores, tablets, telemóveis, e-books. Um estudo da Universidade de Valência, em Espanha, conclui que “ler em papel é mais eficaz do que ler em formato digital”. O papel mostra a sua superioridade nesta pesquisa que envolveu mais de 171 mil participantes e que garante que isso também se verifica nos mais novos.

O mundo tem vindo a assistir a uma passagem da leitura no papel para a leitura em dispositivos digitais. Há vantagens nessa mudança, nomeadamente na redução de custos, mas há também desvantagens. “Quando se lê em papel, a compreensão do que é lido é maior, ao contrário do que acontece quando o mesmo conteúdo informativo é lido em ecrãs”, lê-se no estudo que revela que a diferença no processamento da informação é mais significativo em textos informativos face aos textos narrativos. E quando há pressão do tempo, a apreensão da informação em ecrãs é inferior ao que é absorvido na leitura em papel. O digital motiva interações rápidas, recompensas imediatas (como os likes nos post do facebook), tarefas superficiais.

Vários estudos recentes referem que a preferência pelo papel sobre a leitura digital persiste, apesar dos avanços tecnológicos, e sustentam ainda que os métodos para superar a inferioridade do ecrã são apenas eficazes para pessoas que preferem a leitura digital, mas não para aqueles que preferem a leitura em papel. “A vantagem da leitura em papel aumentou ao longo dos anos”, sublinha o estudo da Universidade de Valência.

As conclusões obrigam a olhar para o que acontece nas escolas. Dar aos alunos textos impressos, apesar do apelo dos ambientes digitais e do estudo computorizado, pode ser melhor e mais eficaz para a compreensão do que é lido. No entanto, e dada a presença de dispositivos digitais nas escolas, deve haver um trabalho para treinar os alunos nas tarefas de leitura nesses meios mais tecnológicos de forma a melhorar a aprendizagem digital.

“É claro que a leitura digital é uma parte inevitável das nossas vidas diárias e uma parte integrante do campo educacional. Embora os atuais resultados sugiram que a leitura baseada em papel deva ser favorecida em relação à leitura digital, é irrealista recomendar que se evitem os dispositivos digitais. No entanto, ignorar a evidência de um efeito robusto de inferioridade da tela pode enganar as decisões políticas e educacionais e, pior ainda, pode impedir que os leitores beneficiem plenamente da compreensão da leitura”. Por isso, professores devem saber lidar com tarefas digitais.

Os investigadores aconselham cautela na introdução da leitura digital nas salas de aula e sublinham que a pedagogia deve orientar os alunos para o desenvolvimento de habilidades que “não suportam uma abordagem pensativa da informação digital”. O estudo, que examinou se o meio de leitura afeta os resultados da compreensão da leitura, comparando a leitura no papel e no digital, avisa que os resultados sugerem que não se pode estar à espera que a inferioridade dos ecrãs, no que à leitura diz respeito, desapareça à medida que as crianças são expostas a dispositivos digitais e à medida que os adultos ganham mais experiência nessas tecnologias.

A investigação da universidade espanhola é bastante detalhada e profunda, examinou pesquisas feitas nos últimos 17 anos, fez comparações entre leituras feitas em papel e no digital, envolveu 171 055 participantes. As taxas de sucesso de leitura nos dois suportes foram testadas através de perguntas de escolha múltipla. Os participantes leram para si e em silêncio e os materiais de leitura utilizados são comparáveis em termos de conteúdos de texto, estrutura e presença de imagens.

A memória também é afetada quando se lê em papel ou no digital. Um estudo realizado há alguns anos em Inglaterra demonstrou que quem lê em papel lembra-se de mais detalhes. Um grupo de 50 adultos, homógeneo em termos de idade e de escolaridade, foi dividido a meio: 25 leram uma história de mistério de 28 páginas em papel e 25 no Kindle. Depois dessa leitura e de vários testes, os investigadores verificaram que na parte em que tinham de colocar os acontecimentos da história por ordem, os que leram no papel tiveram resultados significativamente melhores.

Um outro estudo com 72 alunos noruegueses, divididos em dois grupos, testou a leitura de um texto em papel e em pdf na tela do computador. Resultado: os estudantes que leram no papel tiveram melhor desempenho nos testes de interpretação. Os estudos prosseguem nesta área e há sempre uma questão que sobressai: saber o que é melhor no papel e o que é melhor no digital.
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