O livro, esse eterno amigo

Ler é ver, mexer, sentir, cheirar, sonhar, imaginar. É ter o mundo nas mãos. Ler é escrever e falar melhor. É expandir o vocabulário, é aprender, e é crescer. Nesta terça-feira, comemora-se o Dia Mundial do Livro.
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Celebrar o livro em toda a plenitude, promover o gosto pela leitura, respeitar as obras dos homens e mulheres da escrita. Vinte e três de abril é Dia Mundial do Livro. E o livro, objeto maior da literatura, é lembrado como sinal do progresso social e cultural da Humanidade, no dia em que nasceu e morreu William Shakespeare, o poeta e dramaturgo inglês. A devida vénia aos livros que contam histórias, que fazem sonhar, que ensinam, que mostram diversas realidades, que abrem portas para novos mundos.

Um livro não tem idade. Perpetua-se no tempo, na eternidade. “Os livros são a nossa memória coletiva e, mais, são um espaço de liberdade e uma fronteira civilizacional”, refere Mário Cordeiro, pediatra, bibliófilo e escritor (tem mais de 60 livros publicados, incluindo romance, poesia, biografias e teatro), ao lembrar que não é por acaso que é o aparecimento da escrita que define a passagem da pré-História para a História, há cerca de 8 000 anos. “Aliás, os livros surgiram também como gritos de revolta e exercícios de emancipação”, diz, citando “Les Misérables” e “Animal Farm”.

Mário Cordeiro não tem qualquer dúvida: “Ler é poder ser mais livre!” “A literatura esteve ao lado da democracia, do livre pensamento e da dignificação do ser humano, mesmo que para contar uma simples história, relatar vivências ou expressar ideias e sentimentos, como na poesia – basta ver, aliás, a sanha persecutória dos regimes ditatoriais relativamente aos livros, escritores e leitores, censurando, punindo e fazendo muitas vezes autos de fé”.

Os livros estruturam, sedimentam e perpetuam a palavra. “Ler é, também, um espaço. Um espaço de tranquilidade, que se pode rever, controlar, que exige dedicação e que permite retomar o tempo do Homem, o tempo do Tempo, a parte endorfínica da nossa vida. Ler é ver, mexer, sentir, cheirar, parar o Tempo e saborear”, comenta. Ler para crescer. “Quem lê, escreve melhor, fala melhor e será, seguramente, uma pessoa mais estruturada, sabedora e livre”, sublinha o pediatra e escritor.

E as crianças leem cada vez menos? “Os atuais pais já não pertencem a uma geração com hábitos de leitura, seja por falta de tempo e cansaço, seja porque preferem diversões que exigem menos das ‘células cinzentas’, como televisão, internet ou revistas ‘cor-de-rosa’”. “As crianças habituaram-se a hábitos de leitura praticamente nulos. Na própria escola, os manuais de ensino são ‘user friendly’, interativos, recheados de figuras, desenhos e fotografias, reduzindo o texto quase a zero. Compreende-se do ponto de vista didático e pedagógico. É mau no sentido de estimular a leitura”, observa.

Não é apenas no mundo dos mais pequenos. “A própria sociedade volta as costas aos livros. Compram-se menos, oferecem-se menos, usam-se menos”. Os livros deixaram de estar na moda? “É impossível uma página escrita competir com um ecrã. É utopia querer que o ritmo de um romance combata de igual para igual a ação de um filme ou de uma série televisiva”, nota. Mário Cordeiro vê nos livros e na leitura espaços de recreação, calma, tranquilidade, exploração táctil e olfativa. “É pena que a memória escrita, o mistério, o esforço de imaginação e de abstração que a leitura de um livro representa sejam considerados ‘incómodos’ que só se farão por obrigação. A realidade virtual substituiu algumas funções do cérebro humano. Encaro isso com grande mágoa”. Mágoa de ver clássicos em desuso, amarelecidos nas prateleiras das livrarias, substituídos por histórias de mais fácil digestão.

No entanto, é possível inverter esta tendência, estimular a leitura, controlar os hábitos televisivos, dar o exemplo e desenvolver nas crianças a capacidade e o talento de escrever. Escrever e ler andam lado a lado. “O vocabulário aumenta, a gramática melhora, a construção de frases torna-se mais fluida e mais coerente e uma coisa leva imediatamente à outra”. “Escrever. Apenas escrever, sejam diários, poemas, contos, apontamentos de viagens, o que seja”. É urgente inverter a tendência. “Não há soluções mágicas. Os hábitos culturais, para se sedimentarem, sobretudo quando vão contra a ‘lógica’ e o facilitismo do sistema, exigem esforço e tempo. Não se compram no hipermercado nem na farmácia. Depois da pré-História veio a História. Não podemos admitir que, depois desta, venha o vazio, o caos e a iliteracia. Porque virá, com eles, a diminuição da liberdade”, refere Mário Cordeiro.

Enriquece o vocabulário, espevita a curiosidade

Olívia, a ovelha que não queria dormir é um livro de Clementina Almeida, psicóloga clínica e investigadora na área do desenvolvimento dos bebés. É a história de Olívia, a ovelha, que apesar de tanto sono, não tinha vontade de dormir. Um livro com instruções de leitura para os pais com páginas perfumadas de lavanda, indutor natural do sono. Ler, em qualquer idade, faz muita diferença. Escutar uma história enriquece o vocabulário, espevita a curiosidade, desenvolve a linguagem e a vontade de aprender.

Quando uma criança pede para ler a mesma história, dia após dia, noite após noite, vezes sem conta, é um mundo de oportunidades que se abre. “Estimulamos o raciocínio lógico, com a previsibilidade dos acontecimentos, para que mais tarde consigam fazer raciocínios lógicos elaborados”. “A leitura, por si só, estimula o desenvolvimento cerebral”, adianta a psicóloga clínica. E quanto mais cedo melhor, até porque há estudos que sustentam que o número de palavras que se ouvem no primeiro ano de vida está relacionado com o desenvolvimento da linguagem e com o sucesso escolar até ao 4.º ano de escolaridade. O primeiro ano de vida é uma fase crucial.

Clementina Almeida aconselha ler, ler, ler… “A leitura é um vício que nós, enquanto pais, temos o dever de incentivar os nossos filhos desde muito cedo”, defende. “Esta rotina é especial para os pequenotes porque é nesta altura que estão a receber a máxima atenção possível da parte dos pais, e é isto que eles simplesmente nos pedem e adoram. Nenhum programa de televisão ou brinquedos é melhor do que esta experiência com os pais”. É também uma bela maneira de tornar sons e ritmos da fala mais familiares, mais próximos dos bebés. É uma parte importante do desenvolvimento da linguagem.

Ler desde sempre. Do nascimento até aos seis meses de idade, livros com grandes fotografias, muitos contrastes, materiais que estimulem sensações, como espelhos e fantoches, e um tom de voz ternurento, brincadeiras, caretas. Dos sete aos 12 meses, e porque já conhecem algumas palavras, livros com um personagem e poucos objetos. “Quando o bebé ouve os pais a dar nomes aos objetos, isto reforça automaticamente o seu vocabulário e ainda o vai ajudar a reconhecer e associar as imagens que representam os sons e as palavras, o que o vai ajudar mais tarde na leitura”.

Entre o primeiro e o segundo ano de vida, livros com algumas frases por página, dramatização da história para tornar o momento mais divertido. Clementina Almeida lembra que os bebés entre os 15 e os 18 meses já podem responder a perguntas com uma ou outra palavra e, por isso, é um bom momento para expandir vocabulário. “Os bebés dos 19 aos 24 meses de idade adoram a rotina noturna de ler um livro, porque isso lhes dá tranquilidade e, claro, faz com que se sintam mais amados e seguros durante este momento de conforto, o que, sem dúvida, ajuda a descomprimir do dia passado na creche”. Ler hoje e sempre. E em qualquer idade.

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