Menos números e mais qualidade na formação

O que esperam os professores do novo Ministério da Educação? Muita coisa. Que saia dos gabinetes, que reveja o modelo de avaliação, que consagre a autonomia das escolas, que melhore a qualidade do ensino profissional, que ouça todos os parceiros antes de avançar com alterações. Querem mais respeito pela profissão e tempo para ensinar.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A pergunta parece simples. Quais as expectativas para a nova equipa do Ministério da Educação? O Governo mudou, Isabel Alçada deixará de ser ministra da Educação e o ano letivo foi bastante conturbado. Há muito para fazer e bastante trabalho pela frente. E não há voltas a dar. A avaliação de desempenho da classe docente e a reorganização curricular são dois assuntos a tratar pelo novo titular da pasta da Educação. Os professores querem tranquilidade para ensinar e medidas sustentadas e coerentes.

Paula Canha, professora de Biologia e Geologia, já foi distinguida com o Prémio Inovação do Ministério da Educação, e gostaria que o próximo ministro da sua área tivesse sido um "excelente professor", que soubesse qual o sabor de ensinar e que reconhecesse a mediocridade e a excelência. "Que preferisse o trabalho paciente e persistente, que dá frutos depois de muito tempo, à pompa dos dias de cortar a fita e às celebrações coloridas de coisa nenhuma", diz. E que percebesse que os números teriam de esperar porque para Portugal ultrapassar o atraso não é possível ter "milhões de pessoas formadas já amanhã". E seria pedir de mais ao ministro que se segue para tirar das escolas alguns professores que não sabem ou não querem ensinar? Fica a pergunta.

Menos números, mais qualidade na formação e definição de um objetivo importante, ou seja, o professor deve formar o melhor possível cada aluno que lhe é confiado. Uma missão árdua. E não se deve exigir tudo à escola. "Como se um professor pudesse ser pai, mãe, avó, avô, psicólogo, assistente social. A educação dos cidadãos deve ser feita primeiro na família, depois na comunidade e também na escola". Se não há essa formação de base, então nesses casos "devem ser dadas condições especiais à escola para conseguir dar resposta a tão grande desafio". A família não pode ficar de fora. "É necessário penalizar seriamente os pais que não educam nem se interessam pela vida escolar dos filhos, mas simultaneamente ajudar mais os pais que não têm tempo para os filhos porque trabalham muitas horas para os sustentar. Há que distinguir as duas situações, que são bem diferentes", comenta.

O ensino profissional deve merecer uma atenção especial, tornar-se mais eficiente, investir no contacto permanente com o mercado de trabalho. "Incentivar as empresas a interessarem-se mais pela escola, tanto em programas de colaboração e proximidade, como pelo lançamento de prémios e concursos que premeiem a excelência nas mais diversas áreas do conhecimento e da cultura". Há muito para fazer e Paula Canha defende uma avaliação docente assente nos resultados e qualidade do trabalho "medidos com instrumentos cientificamente aferidos". Na sua opinião, há perguntas que têm de ter respostas: como estavam os alunos quando chegaram às mãos dos professores? E quando saíram? Que dificuldades teve o professor? Quem o ajudou? "Vamos lá pedir responsabilidades, como nas outras profissões", defende. É preciso sair das cadeiras. A tutela deve, segundo a professora de Biologia e Geologia, "enviar para o campo as pessoas que estão nos gabinetes do Ministério e das direções regionais, já esquecidos do que é a escola, para fazerem a implementação piloto das medidas que lançam no terreno". E pede ainda um ministério que "não seja refém dos sindicatos e seja capaz de decidir o que é melhor para a formação de qualidade dos alunos, independentemente do número de votos dos pais ou dos professores que pode perder ou ganhar".

Melhorar a eficiência do sistema
Para José Alberto Rodrigues, professor de Educação Visual e Tecnológica e presidente da associação que representa os docentes da disciplina, o novo Ministério da Educação terá nas mãos dois assuntos quentes para tratar e resolver: a avaliação de desempenho e as questões curriculares. Quanto ao primeiro, refere, "é fundamental desburocratizar e tornar o sistema menos complexo e 'agarrado' a um emaranhado de papéis que está a afastar os professores do seu papel principal, que é ensinar". O que se pede é transparência, equidade, rigor e isenção.

E quanto à reorganização curricular? No seu caso, a Associação Nacional de Professores de Educação Visual e Tecnológica (APEVT) espera que o novo Governo diga claramente o que pensa sobre o par pedagógico da disciplina, que o anterior Ministério queria reduzir. "Pela parte do PSD nunca houve uma posição clara na defesa do par pedagógico. Os outros partidos da Oposição fizeram questão de salientar a importância fundamental do mesmo. Além do mais, trata-se de uma disciplina que agrega duas áreas curriculares: a de Educação Visual e a da Educação Tecnológica". José Rodrigues espera diálogo numa eventual revisão curricular. "O currículo constrói-se com as escolas e com os professores. Disso estamos certos e queremos ter um papel ativo nesse campo", avisa.

Joaquim Azevedo, Nuno Crato, Santana Castilho, José Manuel Canavarro. Estes são alguns dos nomes que andam a ser falados para assumir a pasta da Educação - haverá outros a ser referidos nos corredores do poder. José Rodrigues tem a sua preferência. "Numa perspetiva estritamente pessoal, escolheria sem grandes dúvidas o professor Joaquim Azevedo, pela sua personalidade, rigor e competência. No entanto, algo me diz que para esta 'pasta' estará reservada uma surpresa".

Santana Castilho escreveu o livro O Ensino Passado a Limpo - Um sistema de ensino para Portugal e para os portugueses, editado pela Porto Editora, e onde aborda o estado da Educação. É uma crítica dura, com sugestões para um novo caminho. Na hora de mudar, o professor de Organização e Gestão do Ensino não tece grandes comentários. Contactado pelo EDUCARE.PT, Santana Castilho não se pronuncia sobre nomes e remete a sua posição para um artigo publicado no jornal Público a 8 de junho.

Nesse texto, o docente universitário volta a falar de questões e de um rumo que não se cansa de defender. Consagrar a autonomia das escolas, diminuir o abandono escolar, melhorar a qualidade do ensino secundário e profissional através de um plano de ação, melhorar a eficiência do sistema. E reforçar o papel da inspeção do ensino. "O Estado deve deixar de interferir mas deve ser o garante da qualidade. Isso faz-se com uma inspeção de carácter científico e pedagógico, que não de índole puramente administrativa. Isso faz-se com uma filosofia formativa, que não punitiva", escreve.

Castilho lembra, no seu artigo, que é preciso poupar 195 milhões de euros em 2012 e 175 milhões no ano seguinte. Para isso, é necessário racionalizar a rede de escolas, diminuir a contratação de recursos humanos e reduzir as transferências para as escolas privadas com contratos de associação. E ainda acabar com as direções regionais de educação, reformular a empresa pública Parque Escolar e moralizar o programa Novas Oportunidades. "Há que acabar com gastos improdutivos e escandalosos", sustenta. Na sua opinião, é possível poupar "sem perder qualidade".

Manuela Sousa é professora do 1.º ciclo do Ensino Básico e prefere esperar para ver. Não quer comentar nomes, mas espera que o novo ministro da Educação arregace as mangas. "Quanto à pasta da Educação, neste momento não me ocorre nenhum nome que possa encabeçar esta árdua tarefa de agradar a todos os docentes", refere. Há, no entanto, um desejo: "Espero que seja alguém que tenha estado no terreno para poder falar e executar de acordo com o que acontece na realidade nas escolas portuguesas". Acima de tudo, "que seja realista".

A realidade pede cautela e prudência. "Estou ciente que poucas alterações irão fazer ou aquelas que farão não serão para melhorar a vida do povo português, uma vez que há uma dívida a decorrer". "Desejo que o novo Governo faça o que tenha a fazer com consciência e que pense essencialmente no país", remata Manuela Sousa.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.