“Ser professor e não lutar é uma contradição pedagógica”

Os docentes tornaram-se uma classe vulnerável, mas, também por isso, mais combativa. Uma entrevista a Raquel Varela, Duarte Rolo e Roberto della Santa da Equipa Científica do Inquérito Nacional sobre Condições de Vida e Trabalho na Educação, responsáveis pelo maior e mais completo estudo alguma vez feito em Portugal sobre as grandes questões que afetam os professores.
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É um estudo abrangente, com uma amplitude nunca antes alcançada, e que coloca a nu o desgaste da classe docente portuguesa, que põe o dedo em muitos assuntos.  Exaustão emocional, burnout, cansaço, envelhecimento, falta de reconhecimento pela sociedade, lutas e reivindicações. “A população portuguesa precisa escolher se quer viver num país que salva bancos ou numa nação que desenvolve arte, ciência, cultura e trabalho criativo nas suas escolas”, sustentam Raquel Varela, Duarte Rolo e Roberto della Santa que compõem a Equipa Científica do Inquérito Nacional sobre Condições de Vida e Trabalho na Educação.

Os dados do estudo sobre o burnout nos professores, e muitas outras questões, foram amplamente divulgados, discutidos, virados do avesso. Fala-se em trabalho precário e em conflitos que saltam os muros das escolas. “A crise das escolas é uma crise da sociedade”. Fala-se numa campanha contra a dignidade docente e a vitalidade da escola. Fala-se numa implosão no setor.

O assunto é bastante sério. A equipa avisa que nem os alunos, nem os pais ou encarregados de educação, têm noção da crise que a escola atravessa e do que virá daqui a alguns anos. “Se se mobilizassem juntamente com os professores, o protesto ganharia uma amplitude completamente diferente”. “Quando as populações assumirem a questão da Educação como central e decisiva não haverá governo - ou Estado -  capaz de obstaculizar o livre desenvolvimento de cada escola”, referem.

EDUCARE.PT: Mais de 60% dos professores ensinam em exaustão emocional, 15% já ultrapassaram os limites do cansaço, mais de 50% revelam sinais preocupantes, e mais de 40% não se sentem realizados na profissão. O que se passa de tão grave para que este seja um espelho da categoria profissional docente em Portugal nos nossos dias?
R:
A dimensão da amostra e a sua distribuição representam números inauditos em inquéritos desta natureza em termos portugueses, europeus e mundiais. São cerca de 19 000 inquéritos, dos quais cerca de 15 500 totalmente preenchidos. São quase dois milhões de dados recolhidos - estamos a falar de big data. Esta amostra é mais do que consistente do universo total, quer em termos de distribuição por sexo, como por idades e/ou por regiões. Uma riqueza fenomenal. Somente a implicação direta dos profissionais docentes e dirigentes sindicais na conceção e execução do estudo pode explicar o colossal nível de participação.

É um trabalho, portanto, que deve implicar mais e maior trabalho. Apresenta-nos um quadro complexo e desafiante. Por exemplo, foi importante perceber que existe uma taxa muito elevada de exaustão emocional, 76,4%, e que o cansaço físico é também muito elevado, além de que o stress laboral dos professores é muitíssimo elevado. Grande parte dos professores tem a perceção de que o seu status socio-ocupacional e o seu prestígio público declinaram muito nos últimos tempos. E isso é muito preocupante.

Os resultados são esmagadores: há uma forte correlação entre a idade, o tempo de serviço e a fadiga crónica. Existe também um substancial nexo entre os professores que mais sofrem com a indisciplina escolar e a exaustão emocional, além de problemas com a organização do trabalho, sobrecarga de componente não letiva, burocracia, plano de carreira.

Perto de 50% não se realizam profissionalmente e temos um dado muito curioso: só cerca de 10% dos professores entraram em despersonalização ou processos de cinismo. Ou seja, não passaram, na maioria, a ver os alunos como “coisas”. Isso não significa que estão menos doentes. Significa tão-só que há um processo de “implosão” do setor e não de “explosão”. Portanto, essa doença não é a do ódio ou do desinteresse ou da “alienação” dos alunos, como existe noutros casos de burnout. É um processo implosivo. É uma doença dos professores que também se manifesta, e isso é muito visível no inquérito, numa forte competição, desconfiança e mal-estar social, fundamentalmente com o não reconhecimento público, o que imediatamente apela ao Estado e à comunicação social, com as chefias mas também entre colegas: o reconhecimento entre pares.

Não temos qualquer dúvida de que a divisão dos trabalhadores em carreiras docentes distintas, ou nomeadamente em titulares e não titulares, mas também noutras categorias (precário e fixo), leva a uma grande desagregação e a um grande mal-estar social dentro de todo o corpo docente.

E: Cerca de nove mil docentes portugueses indicam consumo excessivo de drogas e álcool para enfrentarem o ritmo de trabalho e as exigências do sistema. Têm falado em uma classe adoecida pela organização do trabalho. A tendência é para piorar?
R:
Não é exatamente essa a informação correta. Nove mil docentes indicaram preocupar-se com o consumo. Ou seja, não são questões sobre o seu próprio consumo, ou sequer sobre a sua finalidade, mas sobre a autoperceção docente acerca do uso social de substâncias. A nossa equipa tem, afortunadamente, um especialista nesta questão de saúde pública.

De acordo com o inquérito, 18,7% dos professores, com erro de 0,5% e confiança a 99%, têm pelo menos um consumo preocupante de um dos fatores de risco. A maioria destes, isto é, 15,4%, apresentam sobretudo preocupações com o consumo de medicamentos; 3,2% apresentam queixa de consumos preocupantes de drogas e outro tanto com álcool. A soma não dá os 18,7% porque cerca de 3% apresentam consumos combinados de álcool, droga e medicamentos em grau preocupante. Pelos dados conclui-se que os que se encontram em situação de esgotamento emocional extremos são os que mais estão preocupados com um destes consumos, o que está alinhado com as informações internacionais sobre esta questão.

As descobertas e conclusões que se obtiveram durante quase meio século de estudos deste tipo levam a crer que há variados índices autodeclarados - lembramos que este é o método utilizado - de disfunções pessoais, inclusivamente exaustão física, insónia, acréscimo do uso de drogas e álcool - além dos frequentes problemas familiares, interpessoais e sociais. Há várias hipóteses a esse respeito. E dúvidas.

Uma delas, não-exclusiva, é justamente de algo como um “autodoping”, enquanto estratégia de sobrevivência e defesa psíquica contra a má organização do trabalho. Existem hoje vários estudos sobre esta questão, que indicam que as substâncias psicoactivas são utilizadas como um adjuvante: para alcançar objetivos e metas do trabalho. Trata-se, portanto, de um consumo ditado por uma lógica de performance, mais do que pela habitual lógica da adicção ou, por exemplo, de um uso social meramente recreativo.

E: A metáfora do burnout surge associada ao excesso de burocracia, à indisciplina dos alunos, à falta de autonomia no trabalho, entre outros fatores. O sistema de ensino em Portugal tem de repensar o seu próprio modelo para motivar quem ensina?
R.
Sem a menor sombra de dúvidas. A crise das escolas é uma crise da sociedade. Os problemas da burocracia, da indisciplina e da heteronomia (em vez de autonomia), como antípodas da gestão democrática, do sentido de brio ou da autonomia criativa, não são uma idiossincrasia. O próprio sistema de produção e reprodução da sociedade deve ser repensado como um todo, e não só a educação escolar.

Queremos igualdade formal ou substantiva nos processos de decisão? Formamos seres humanos capazes de fruir uma vida plena de sentido? Estamos preparados para combater a reificação (coisificação) nas nossas sociedades? As questões que dirigimos à escola são as questões que colocamos à humanidade.

E: O problema é dos alunos ou o problema reside sobretudo num certo desencanto e desgaste de rotinas e regras há muito estipuladas no sistema educacional do país?
R:
O problema é das relações. Não é nem exclusivamente dos educandos e nem tão-só dos educadores. O sistema de relações, do complexo educativo, sofreu nos últimos tempos um processo de degradação. A questão, contudo, não pode ser debitada em abstrato. O problema central, do nosso ponto de vista, é a organização do trabalho.

As regras e rotinas são essenciais para toda e qualquer educação que se preze. Inclusive a exceção à regra e a rotina de se quebrar rotinas na Educação. A questão é: que regras; quais rotinas? As regras que são estipuladas pelo Banco Mundial são um desastre para a Educação! Implicam uma concepção neo-liberal (e pós-moderna). Mas as rotinas estabelecidas pela pedagogia histórico-crítica, por exemplo, para uma didática dialética em torno da catarse e da síntese do processo social de conhecimento e transmissão organizada de saber, representam o que de mais avançado já foi produzido pela humanidade neste terreno tão especial. A formação humana é a atividade vital mais complexa, difícil e desafiante que pode haver.Para quem nunca ouviu falar em pedagogia
histórico -crítica recomendamos, com muito entusiasmo, as obras editadas pelo professor doutor Demerval Saviani (PUC-SP).

E: O que, na verdade, perturba a educação escolar e o trabalho dos professores?  
R:
Salários baixos, horários extensos, lógica concentracionária, modelo de gestão. Mas aqui voltamos ao mesmo. O problema da escola é, enfim, o mesmo problema do país. Existe hoje em curso uma campanha negra contra a dignidade docente e a vitalidade da escola. Trata-se de uma campanha do mundo do capital contra o mundo do trabalho em geral. E é particularmente triste perceber isto num país que construiu uma democracia escolar baseada na educação unificada - valores herdados do 25 de Abril -, que defendia o que é a conceção mais bela e útil do ponto de vista de uma educação integral, isto é, a não separação entre trabalho material e trabalho intelectual, o saber e fazer, mãos e cabeças.

Na secção final do relatório do Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação (INCTVE) trata-se justamente do estudo sobre a história social das escolas, desde Abril até nossos dias, e dá-se voz a gente de muito valor/coragem que deu os seus testemunhos, ao mesmo tempo fantásticos e melancólicos, a partir do que é a centralidade do conhecimento do ser que trabalha a respeito de suas próprias atividades. Este material está disponível, em acesso livre, em https://bit.ly/2UajSkJ. Comentem, critiquem, divulguem. Este é também material vosso - no saber e no fazer.

E: Muitos professores continuam a andar com a casa às costas - de lá para cá. Muitos professores continuam contratados apesar de muitos anos de serviço. Haverá outras formas de organizar as colocações dos professores e de compor a carreira docente?
R.
Espezinhar os servidores perante a opinião pública era o “cozido à portuguesa” dos anos mais duros da ofensiva neoliberal – para os media, governos e patrões. Após cumprir jornadas de trabalho extenuantes, os  professores eram obrigados a assistir, nos noticiários de TV e nos discursos parlamentares, que o dilema social e o atraso da nação repousavam sobre as suas já doridas costas. O que gera um sentimento de injustiça social e de falta de reconhecimento público dos esforços e implicação dos professores e educadores.
 
Não é à toa que altíssimas taxas de doenças psíquicas, síndromes de burnout e o absenteísmo ao trabalho figuram já nas estatísticas oficiais em Portugal (e em diferentes países). A destruição do público e o declínio fo docente fizeram dos educadores uma categoria vulnerável mas, também, combativa. Trabalho flexível, precarizado e indigno produziram, contraditoriamente, também, um alto nível de conflitividade social e laboral na esfera pública, para além dos muros da escola.

Compor carreiras que sejam atrativas e organizar colocações de modo racional, contudo, não é sobretudo um problema técnico, mas uma questão abertamente política. Ser professor e não lutar é uma contradição pedagógica. A Deusa Minerva seria uma deidade dedicada ao conhecimento mas, também, ao antagonismo. Se é verdade que o processo de ensino-aprendizagem é uma luta, também é verdade que a luta é educativa. Quando as populações assumirem a questão da Educação como central e decisiva não haverá governo - ou Estado -  capaz de obstaculizar o livre desenvolvimento de cada escola.

Muitos professores, contudo, estão sem força anímica ou vontade política para lutar efetivamente. Seria delicado exigirmos-lhe uma resposta organizativa, estratégica, como um fardo a mais em suas já castigadas costas. Não queremos contribuir para uma certa culpabilidade e/ou sentimento de insuficiência em pessoas que já estão muito esgotadas precisamente porque deram o melhor de si. Parece-nos que a luta surge como forma de combater o desprezo social e a falta de reconhecimento. Mas não é uma solução natural.

E: Ensinar para o mercado de trabalho e não para o capital humano. Uma sociedade tipicamente capitalista não consegue ver para além dos negócios, do dinheiro?
R:
A educação escolar está submetida a propósitos intencionais, a uma verdadeira doutrinação ideológica - não do “marxismo cultural”, mas do Fundo Monetário Internacional -, que está interessada em formar “tábuas rasas”, úteis para a reprodução ampliada das relações sociais de produção tipicamente capitalistas. Essa visão social ideológica é professada por muitos prémios Nobel (Friedman, Schultz e Becker), por intelectuais coletivos do capital e organismos multilaterais transnacionais, como o Banco Mundial, a OCDE, Fundação Ford, a Open Society Foundation, de George Soros etc., e também por entidades empresariais. O objetivo é converter a Educação em mercadoria e, no interior do mesmo processo, os educandos em algo a que se veio a chamar “capital humano”.

Num mundo em que a tecnologia vem avançando, homens que “pensam” cada vez menos estão sendo programados para construir máquinas que “pensam” cada vez mais. A chamada teoria do capital humano (TCH) atribui à educação um lugar estratégico capaz de produzir ganhos adicionais para o capital, desde que a socialização (em sentido durkheimniano) seja bem orientada e o seu adestramento profissional seja congruente com as exigências do capital. Pois o “capital humano” é a distopia capitalista da valorização do valor em detrimento da humanização do humano, isto é, o progresso da barbárie. “O horror, o horror!”, enfim, como diria a personagem de Coronel Kurz, em “O Coração das Trevas”, romance de Joseph Conrad.
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