Greve: professores pararam para protestar

Sindicatos do setor falam numa adesão de 60 a 85% e em centenas de escolas sem aulas. No dia da paralisação nacional, professores saíram à rua cansados de serem apontados como os responsáveis pelo défice orçamental.
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Mais uma greve geral, mais escolas encerradas, mais professores em casa ou nas ruas em protesto contra as medidas de austeridade, que nos próximos dois anos cortam os subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos. Os números voltam a não coincidir. Os sindicatos do setor educativo falam numa adesão de 60 a 85%. Mas, na manhã de quinta-feira, o Governo garantia que a taxa de adesão da administração pública era de 3,6%. Os números voltam a ser inconsistentes e os dirigentes sindicais não desarmam e insistem que as políticas estão "erradas".

Por todo o país, vários estabelecimentos de ensino nem chegaram a abrir os portões. Em Oeiras, por exemplo, mais de dez escolas encerraram. Os pais dos alunos não ficaram surpreendidos, compreendem as razões do protesto. Das 38 escolas do 1.º ciclo, 11 não abriram. Foi o caso da Escola Básica Integrada João Gonçalves Zarco que habitualmente fecha quando é convocada uma greve e os 575 alunos voltaram a ficar em casa. "Há sempre alguns pais que saem mais prejudicados, mas isso é inerente à greve e é um sacrifício que temos de fazer por um direito que assiste às pessoas", dizia, à Lusa, João Matos, presidente da associação de pais dessa escola. Do outro lado do Atlântico, na Madeira, fecharam seis estabelecimentos de ensino, mais dois particulares e três escolas privadas. Dos 3175 professores faltaram 724, ou seja, 22,8%.

A Federação Nacional dos Professores (FENPROF) fala numa taxa de adesão entre os 60 e os 85%. Números que, na sua leitura, têm um "grande significado". "Com esta grande adesão, os professores, educadores e investigadores portugueses dão um fortíssimo sinal ao Governo de que não estão dispostos a continuar a ser vítimas das políticas que estão a afetar o país, a roubar remunerações aos trabalhadores e a pôr em causa os serviços públicos", sustenta, em comunicado. No Ensino Superior, a adesão terá sido uma das maiores de sempre.

Os professores de Português no estrangeiro também saíram à rua e protestaram junto à embaixada e ao consulado portugueses em Paris. Solidários com a greve em Portugal, os docentes, representados pelo Sindicato dos Professores nas Comunidades Lusíadas (SPCL), entregaram uma carta em que expunham o seu descontentamento face à prevista redução de professores de Português no estrangeiro no início do próximo ano. A carta foi entregue ao embaixador. "Explicámos que é uma medida perniciosa porque nenhum professor pode pensar abandonar alunos", contou Duarte Antunes, do SPCL, à Lusa.

A Federação Nacional da Educação (FNE) está satisfeita com a adesão da comunidade educativa à greve convocada pelas duas centrais sindicais, CGTP e UGT. "As políticas de austeridade impostas são injustas e desmedidas e a greve serve para dizer que estas políticas são erradas, o que na área da educação podem pôr em causa os níveis de qualidade do ensino exigíveis", avisou João Dias da Silva, secretário-geral da FNE, em declarações à Lusa. Nas suas contas, centenas de escolas fecharam e os níveis de adesão ficaram muito próximos dos verificados na greve do ano passado. A FNE destaca ainda a significativa taxa de adesão no Ensino Superior que, sublinha em comunicado, revela "o grau de insatisfação latente neste nível de ensino".

Uma vez mais, os números dos sindicatos e do Governo não bateram certo. A FNE acusa o poder central de apresentar números "inconsistentes". Lucinda Dâmaso, da FENPROF, disse à Lusa que os valores da adesão não foram inferiores aos do ano passado, que rondou os 83%. Segundo a FNE, até ao final da manhã do dia da greve, havia um "fortíssimo nível de adesão à greve, que se traduziu em centenas de escolas encerradas e uma adesão em massa de professores, técnicos superiores, assistentes técnicos, assistentes operacionais e educadores".

José Alberto Rodrigues, professor de Educação Visual e Tecnológica (EVT) e presidente da Associação de Professores de EVT, aderiu à greve. "Mais do que nunca senti essa necessidade. Aderir à greve foi uma questão de princípio e senti-la mais do que nunca como essencial. A sociedade e o país estão a entrar em colapso. Dificilmente haverá quem ainda acredite que as medidas tomadas pelo Governo venham a surtir efeito e que Portugal renasça", conta ao EDUCARE.PT. O docente receia que as medidas do Ministério da Educação tornem as escolas num caos. "Cortar abruptamente na educação, tal como está previsto, apenas levará o país ao abismo, ao fim da escola pública. Não há reformas, nem revisões curriculares, mas sim cortes e mais cortes".

As consequências, na sua opinião, sentir-se-ão a médio e longo prazo e a escola pública ficará ameaçada. "Julgo que daqui a 10 ou 15 anos ninguém esquecerá este ministro da Educação e Ciência. Todos se lembrarão dele pelos piores motivos". José Alberto Rodrigues também aderiu à greve pelas questões que envolvem a disciplina de EVT, disciplina que poderá ser desmembrada. "Na educação há um efeito completamente subversivo de toda a política deste Governo. A continuar assim, acabaremos muito mal. E depois? Depois muitos perceberão, sociedade em geral, que se destruiu o que de mais importante tem uma sociedade civilizada: a educação".

O professor Paulo Guinote, autor do blogue A Educação do Meu Umbigo, também fez greve. E explica qual a principal razão para não ter dado aulas no dia da greve. "Na última década a função pública, e por maioria de razão os professores, têm sido apresentados como responsáveis pelo défice orçamental, quando as principais razões estão em obras faraónicas e desajustadas da nossa realidade, assim como diversos 'negócios de Estado' que serviram apenas para enriquecer a elite que agora brada contra os salários do funcionalismo", refere.

Miguel Abreu, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), estava fora do país no dia da greve. Se estivesse em Portugal, não teria aderido à paralisação convocada pelas centrais sindicais. "Nunca fiz greves, esta não teria sido exceção e não tenciono fazer greves no futuro". "Embora já me tenham tentado explicar, nunca consegui perceber a sua utilidade", acrescenta.
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