Notícias falsas, notícias verdadeiras. É preciso separar as águas

Literacia para os Media é um projeto que quer incentivar os alunos a desenvolverem o espírito crítico na leitura e análise da informação. Jornalistas e especialistas na área dão formação a professores do 3.º Ciclo e Ensino Secundário. Projeto-piloto envolve 40 agrupamentos.
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Os princípios do jornalismo, a construção das notícias, as fontes de informação, a seleção do que realmente interessa. A ética e a deontologia, o perfil dos jornalistas, o momento atual e os desafios diários e futuros. Os géneros jornalísticos, o novo mundo do jornalismo digital. As notícias falsas, os factos alternativos, e a era do consumo rápido. Redes sociais, vídeos e telemóveis no meio jornalístico. Democratização da informação e exercício da cidadania. Formar públicos atentos e críticos em relação à informação. Estes são os principais assuntos que os adultos do projeto Literacia para os Media trabalham para, depois, os levarem aos mais novos.  

Colocar a comunidade escolar a olhar e a debater o jornalismo, a distinguir conteúdos falsos dos verdadeiros, sobretudo os que circulam na Internet, sobretudo nas redes sociais, e apurar o espírito crítico sobre as notícias e outros pormenores noticiosos, imagens incluídas. A iniciativa tem estes objetivos e entrou em 40 escolas. Jornalistas e entendidos em Media dão formação a professores do 3.º Ciclo e do Ensino Secundário. Depois disso, os assuntos são abordados nas salas de aulas.

O Sindicato dos Jornalistas considera que este projeto é “histórico”. “Numa altura em que se confunde o que é jornalismo e o que não é jornalismo, é fundamental que os jornalistas expliquem o que fazem, como funcionam, como é que selecionam a informação e em que condições trabalham, mostrando disponibilidade para se exporem e contribuírem para a formação de docentes que possam, de forma sólida, ensinar os alunos e ler a informação com espírito crítico”, sublinhou Sofia Branco, presidente do Sindicato de Jornalistas, no arranque do projeto que surgiu de um protocolo assinado entre o sindicato e o Ministério da Educação (ME), e que é financiado pelo Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (Cenjor) e pela Direção-Geral da Educação (DGE).

O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), Jorge Ascenção, olha com satisfação para as ideias que se transformaram num projeto. Um projeto que encaixa na lógica de uma aprendizagem transversal. Um projeto que percebe a importância de aplicar o que se aprende na escola na vida do dia-a-dia. “Todos os dias, todos os minutos, todos os segundos, somos bombardeados com notícias, com títulos bombásticos que depois não dizem nada do que está dentro das notícias”, repara.

Nesse sentido, é preciso apurar, analisar, debater, discutir, pensar sobre várias e diversas realidades do universo da comunicação social. “É fundamental e espero, efetivamente, que os professores estejam motivados para envolverem os alunos na discussão destas questões reais”, refere ao EDUCARE.PT. “Faz parte de uma forma de aprendizagem transversal que poderá até conseguir criar nos alunos alguma motivação para melhor aprender o Português, as línguas, a Matemática”, acrescenta.

Mas, para que tudo funcione, é preciso que o sistema de ensino perceba que há mais vida e aprendizagens do que avaliações formatadas e focadas em testes e exames. “É preciso que o sistema educativo acompanhe estas mudanças para que as escolas possam ter o tempo e a gestão necessários para trabalhar estas transversalidades, além das aprendizagens essenciais. Espero que o sistema tenha capacidade para abarcar isso”, afirma.

Mediar e escrutinar a realidade
Literacia para os Media arrancou em 40 agrupamentos escolares das cinco regiões educativas do Continente. Cinco equipas de dois formadores – um mais académico, outro mais prático – promoveram cinco sessões simultâneas que envolveram 100 professores de 40 escolas. O ME quer chegar a mais sítios de forma a disponibilizar metodologias, recursos, e ferramentas aos professores para que trabalhem os temas com os seus alunos e com as comunidades educativas. Foi o sindicato que apresentou a proposta ao ME para a urgência de promover a literacia em torno do mundo da comunicação social.

A estrutura sindical tem expetativas elevadas quanto ao alcance da iniciativa. “A longo prazo, este projeto – que resulta de uma parceria entre o Sindicato dos Jornalistas e o Ministério da Educação – tem por objetivo capacitar pelo menos dois professores responsáveis por lecionar a disciplina de Cidadania em cada um dos 811 agrupamentos de escolas”, refere. “Ao mesmo tempo, pretende envolver os jornalistas na formação de professores e alunos sobre os desafios que hoje pendem sobre a importante função de mediar e escrutinar a realidade. A ideia é aumentar a bolsa de formadores e capacitar os jornalistas para formarem outros profissionais”, acrescenta.

A oficina de formação já começou e termina a 13 de abril em cinco escolas: no Agrupamento de Escolas do Cerco, no Porto; na Escola Secundária Adolfo Portela, em Águeda; no Agrupamento de Escolas Eça de Queirós, nos Olivais, em Lisboa; no Agrupamento de Escolas n.º2 de Évora e na Escola Secundária Gabriel Pereira, também em Évora; e no Agrupamento de Escolas Tomás Cabreira, em Faro. Manuel Pinto e Daniel Catalão, João Figueiral e Miguel Midões, António Granado e Sofia Branco, Miguel Crespo e Paulo Barriga, Vítor Tomé e Isabel Nery, formam as cinco duplas de formadores.

A primeira etapa estende-se até 31 de agosto de 2020. Para o ME, é importante atenção ao tema “num tempo em que as temáticas como as ‘fake news’ estão na ordem do dia, e em que o poder das redes sociais emerge” e em que é urgente formar cidadãos informados, conscientes e participativos no futuro coletivo. Até porque, refere no memorando de entendimento, as pessoas educadas para os Media “são capazes de fazer escolhas informadas, compreender a natureza dos conteúdos e serviços e tirar partido de toda a gama de oportunidades oferecidas pelas novas tecnologias das comunicações, estando mais aptas a protegerem-se e a protegerem as suas famílias contra material nocivo ou atentatório”.
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