O interessante seria os alunos irem para os testes “felizes, curiosos, descontraídos”

O extenso estudo sobre os estilos de vida dos adolescentes portugueses em idade escolar mostra diversas realidades. A investigadora Margarida Gaspar de Matos, autora da pesquisa, comenta dados relevantes e refere que os alunos são muito protegidos e controlados e pouco autónomos e responsabilizados.
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Três em cada 10 adolescentes não gostam da escola. São 29,6% dos alunos. As aulas e a comida do refeitório são o pior, dizem, os intervalos o “menos mau”, confessam. O panorama que sobressaiu do estudo “Health Behaviour in School-aged Children (HBSC) 2018”, iniciativa da investigadora Margarida Gaspar de Matos, da Universidade de Lisboa, e da Equipa Aventura Social, realizado em colaboração com a Organização Mundial de Saúde, deu que falar. Os dados foram divulgados há cerca de dois meses e o relatório temático será publicado no próximo mês de abril.

Trinta e cinco por cento dos alunos não gostam das aulas, 87,2% referem que a matéria é demasiada, 84,9% dizem que é aborrecida, 82% que é difícil, e 77% revelam que a avaliação é um stresse. Os dados do HBSC deveriam servir de pretexto para se repensar o modelo de educação? Margarida Gaspar de Matos responde que sim. “Algo tem vindo a ser feito ultimamente, mas não está a bastar. Temos este problema em Portugal, pelo menos, desde 1998, quando começámos o estudo. Nestas várias séries do estudo, andamos a tentar perceber razões e soluções”, adianta ao EDUCARE.PT.

A pressão com os trabalhos de casa afeta 13,7% dos alunos. “Não são apenas os trabalhos de casa, são todos os trabalhos referentes à escola que os stressam. Depois de dias pesados, gerir exigências associadas à escola fica ainda mais pesado”, comenta a investigadora. “Os alunos acham as matérias demasiadas, também aborrecidas, mas sobretudo excessivas. Referem também o stresse que os pais lhes passam à volta da avaliação. Professores galvanizantes com matérias possíveis de serem focadas ao longo do ano”. E o prazer de aprender, a participação espontânea e interessada, o bem-estar na escola, vão-se perdendo.

Na sua perspetiva, é urgente dar consistência e continuidade à revisão e ao ajustamento curriculares, como o próprio HBSC sustenta. “O afastamento dos alunos portugueses da escola tem sido referido em relatórios anteriores e estes resultados merecem uma continuidade/incremento de ações de revisão curricular no que diz respeito à adequação, relevância e extensão das matérias    escolares”, lê-se no estudo. 

Metade dos alunos fala em pressão dos pais por boas notas. Pressão é uma palavra que tem sempre associada uma ideia negativa. “O aspeto da gestão da ansiedade relacionada com as avaliações e os trabalhos da escola, bem como a pressão dos pais face às classificações, fica a merecer reflexão”, avança o HBSC. Margarida Gaspar de Matos sublinha que seria “muito mais interessante e eficaz uma cultura familiar a valorizar a escola, e onde desde muito pequenos os miúdos são habituados a valorizar o conhecimento”.

“As notas são ‘apenas’ a avaliação desse conhecimento”, afirma. E acrescenta: “Interessante mesmo era os miúdos irem para a escola em dia de teste, felizes, curiosos, descontraídos e desafiados, a ver que tal se situavam. Quando vão sem dormir, stressados e com dor de barriga, estão a um passo de falhar coisas que até sabiam. A ansiedade exagerada e a cognição desafinam nestas questões das avaliações”. 

O estudo indica ainda que 51,8% dos alunos referem que têm pouco ou nenhum sucesso académico e cerca de um terço dos alunos do 8.º e 10.º anos tem fracas expetativas face ao seu futuro profissional, ou não sabe. Uma imagem catastrófica ou a perceção de um aproveitamento escolar pouco consistente? “É a perceção deles, mas é com isso que eles vivem (mal). Essa percentagem seria aceitável nuns 12,5% que por qualquer motivo pessoal, social e escolar, se sentissem sem sucesso, e seria um grupo a ‘apanhar’. Quando chegamos a mais de metade, fica claro que a escola tem a sua quota-parte” de responsabilidade. Margarida Gaspar Matos recorda o que dizia, há anos, um professor seu: “Se um professor reprova os alunos todos, tem o processo de ensino-aprendizagem-avaliação mal calibrado”.

Amigos reais e ligações virtuais
Segundo o estudo, mais de oito em cada dez adolescentes consideram-se felizes, mesmo sendo poucas e fracas as expetativas perante a vida. “Os pais têm algum papel numa construção comum de sonhos para o futuro, e sonhos que a escola ajudará a concretizar. Mas estou a dizer isso e parece que não estou a falar da nossa realidade, certo?”, diz a investigadora.

Quais os assuntos que devem ser discutidos mais pormenorizadamente nas escolas e nas famílias para que os adolescentes portugueses sejam mais felizes, se sintam melhor nas aulas, e acreditem num futuro melhor? “Claramente uma possibilidade de acesso a uma dignidade como pessoas competentes no trabalho que lhes foi distribuído nesta fase das suas vidas: aprender!” Até porque, repara, “passar a maior parte do dia num local que não gostam, onde acham que comem mal, onde se sentem pouco ou nada competentes, e que os stressa, até parece castigo”.

Além disso, os alunos devem ser ativamente envolvidos nas questões académicas. “Em geral, acho os alunos, por um lado, pouco autónomos (muito protegidos, monitorizados e até controlados), e, por outro, pouco responsabilizados. Gostaria de ver exatamente o contrário: autónomos e responsabilizados”, observa.

O HBSC revela, por outro lado, que 79,3% dos adolescentes têm três ou mais amigos, quase dois terços disseram conhecer pessoalmente todos os seus amigos, enquanto 34,1% referem que têm um ou mais amigos que só conhecem virtualmente. Nos tempos livres, 56,6% usam o telemóvel, 46,9% ouvem música e 35,7% dormem. Metade, 50,7%,afirma que é a “falta de tempo” que os impede de se dedicarem a mais atividades de lazer. “Nestas idades, onde o estudo HBSC se situa (dos 11 aos 15/16 anos), as amizades virtuais são na grande maioria os amigos ‘reais’. Os adolescentes mantêm o contato com os colegas da escola, através do messenger, etc., como na minha geração se fazia com o telefone”. “Não é (ainda) a realidade que globalmente os adolescentes se afastem dos amigos por causa das redes sociais. Há desafios, mas são outros, os jogos online por exemplo, a pornografia online”.

Vinte por cento com comportamentos auto lesivos, pelo menos uma vez num ano, é uma percentagem expressiva. Desses, 58,7% contaram ter-se magoado nos braços. Trata-se de um problema clínico e o alarmismo pode ser prejudicial. Segundo a investigadora, pais, colegas e professores deviam ser capazes de detetar sinais precoces e encaminhar esses casos para o psicólogo da escola ou do centro de saúde. “Do ponto de vista da prevenção, a auto lesão aparece na encruzilhada de uma dificuldade de regulação emocional com um deficiente suporte social, e ambos poderiam ser promovidos no sistema escola”.

Quase 28% dos inquiridos confessam que nunca ou quase nunca sentem que as coisas lhe correm como queriam, e 26,2% que nunca ou quase nunca se sentem confiantes com a sua capacidade para lidar com problemas pessoais. O futuro é sempre uma incógnita. “Estamos a educar uma geração para desafios que ainda nem há, que ainda não sabemos quais são! Mais do que lhes darmos informação, temos de lhes passar processos: de surfar na informação, de avaliar a informação, de resolver problemas, de lidar com método e sem medo pela mudança, de valorizar a diversidade como um enorme recurso de desenvolvimento pessoal e social”, refere Margarida Gaspar de Matos.

O HBSC estuda os estilos de vida dos adolescentes em idade escolar nos seus contextos de vida, em áreas como o apoio familiar, escola, amigos, saúde, bem-estar, entre muitas outras. Aplicaram-se questionários online em 42 agrupamentos sorteados de escolas do ensino regular português, num total de 387 turmas. Em Portugal Continental, responderam 6 997 jovens do 6.º, 8.º e 10.º ano, com uma média de idade de 13,73 anos.
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