Uma caixa, uma gota, e dois pinguins nos contos ilustrados e premiados

Textos originais e ilustrações que acompanham as histórias são a essência do Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes D’Escritas. Os vencedores já são conhecidos e sobem ao palco do Cineteatro Garrett, na Póvoa de Varzim, no próximo sábado, dia 23.
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A turma de 22 alunos, 16 rapazes e seis raparigas, dedicou-se de corpo e alma. O 4.º A da Escola Básica José Manuel Durão Barroso, em Armamar, reservou duas horas por semana da disciplina de Português para se concentrar num conto e seus desenhos. O esqueleto de Estudo do Meio estava montado na sala de aula e acabaria por servir de inspiração à história “A Caixa” que ficou em primeiro lugar na 11.ª edição do Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes D’Escritas, promovido pela Porto Editora.

“Nunca tinham participado e empenharam-se quando abriu o concurso”, conta Fátima Martinho, professora do 4.º A e responsável pelo acompanhamento do processo criativo e artístico. “Para realizar um trabalho assim, houve muita força de vontade dos alunos”, acrescenta. Empenho e dedicação dos alunos, alguma insistência da professora, e a estreia dessa turma no concurso não podia ter corrido melhor. Quando a notícia chegou à escola, os alunos cantaram logo os parabéns à professora que, depois da cantoria, fez questão de sublinhar que era a turma que estava realmente de parabéns.

O primeiro lugar no concurso deste ano, a imensa alegria de receber o prémio num auditório, quando várias crianças da turma nunca pisaram um, e o deslumbre de subir a um palco, experiência que muitos nunca tiveram, enchem de orgulho os alunos e a escola. No próximo sábado, pelas 19h30, no Cineteatro Garrett, na Póvoa de Varzim, entregam-se os prémios. “Esta visita enche-nos de orgulho, muitos alunos vão ver uma coisa que nunca viram e ter o prazer de subir a um palco. Vai ser uma festa”, refere Fátima Martinho. Uma verdadeira prenda para crianças que vivem num meio rural.   

A história vencedora anda à volta de um menino que pede à mãe uma caixa para guardar um esqueleto e, a partir daí, tudo se complica. O que era simples torna-se complexo. O conto fala de novas tecnologias, do Facebook, de boatos e mentiras. “São temas que lhes dizem respeito”. As ilustrações foram feitas a lápis, pintadas a marcadores, e depois trabalhadas em montagens para encaixarem na história. Além do primeiro lugar no Prémio, o 4.º B da escola conquistou uma menção honrosa pelo texto “O Poema que quer Nascer”. O estabelecimento de ensino de Armamar não é novato neste concurso, na edição de 2016/2017 conquistou o primeiro e o terceiro lugares, e tem, ao todo, cinco distinções.

“Bingo e Mingo” do 4.º D da EB Padre Manuel de Castro, de São Mamede de Infesta, é a história que conquistou o segundo lugar. Os 26 alunos, 13 rapazes e 13 raparigas, criaram duas personagens, o Bingo e o Mingo, dois pinguins nascidos na Antártida, para construírem um conto que fala de amizade, de saudade, de perdão, de solidariedade, do respeito pelo ambiente. Bingo e Mingo são amigos, deixam de o ser, até que percebem o verdadeiro valor da amizade. A partir de um episódio de uma série televisiva sobre animais, que mostrou que os pinguins roubam pedras dos ninhos uns dos outros, o conto surgiu.

Há uma frase-chave na história, várias mensagens, e um alerta para a Humanidade. Ou seja, revela Fernanda Araújo, professora da turma e responsável pela participação no concurso, o alerta para que “os homens se unam para salvar o planeta Terra”. A dedicação dos alunos foi total. Desenharam os pinguins a lápis de cor, com alguns apontamentos a caneta de feltro, em cartolinas que foram sendo recortadas para a composição final com os vários elementos da história. E a professora Fernanda Araújo garante que a participação no Prémio motivou alunos e pais.  

Histórias escritas e desenhadas a várias mãos  
O terceiro lugar pertence ao conto “A Odisseia da Gotinha de Água” da Escola Básica de Âncora, de Vila Praia de Âncora. Os sete alunos do 4.º ano, quatro rapazes e três raparigas, contam as aventuras de uma gotinha de água que se cansa de estar sempre no mesmo sítio, evapora-se pelo sol, chega ao mar e encontra vários obstáculos: plásticos, esgotos e derrames de petróleo. Um pretexto para pensar e abordar a poluição, o ambiente, hábitos e práticas dos homens.

A professora Rosa Laura Gonçalves afirma que os seus alunos se focaram no trabalho. “O tema era apelativo, os alunos estavam muito concentrados, o entusiamo era enorme”, revela. Pouco mais de um mês a escrever a história em duas das sete horas semanais de Português, os desenhos a ocupar parte do tempo de Expressão Plástica. Primeiro fizeram-se rascunhos, depois as ilustrações foram apuradas, e foi-se dividindo a história para que pudesse receber os desenhos. “Fizeram esboços até chegarem ao desenho final”. Os olhos brilharam quando souberam do terceiro lugar. “Vale sempre a pena participar, nos dias de hoje vale ainda mais. É ir às raízes, é escrever, é ler para escrever e desenhar”, realça.   

O Prémio atribui ainda várias menções honrosas a textos e ilustrações. Além da Escola Básica José Manuel Durão Barroso, de Armamar, que recebeu uma menção honrosa pelo texto “O Poema que quer Nascer” dos alunos do 4.º B, também os textos “O Palhinhas nos Caminhos de Santiago” da turma de 3.º/4.º anos da Escola Básica de Gamil, em Barcelinhos, e “Snowman” do 4.º B da Escola Básica/Jardim de Infância Bela Vista3, de Fânzeres, também são distinguidos com menções honrosas. Nas ilustrações, as menções honrosas vão para os desenhos dos contos “O Grande Salvamento” do 4.º T da Escola Básica de Touria, de Leiria; “Alerta Vermelho no Oceano” do 4.º ano da Escola Básica de Rates, da Póvoa de Varzim; e “A Viagem das Disciplinas” do 4.º A do Colégio Nossa Senhora da Esperança, no Porto.

O Prémio Conto Infantil Ilustrado Correntes D’Escritas surgiu em 2008 para, todos os anos, distinguir um conto ilustrado, inédito, em Língua Portuguesa, escrito e desenhado por alunos do 4.º ano de escolaridade do 1.º Ciclo do Ensino Básico, supervisionado por um professor. É um galardão que premeia trabalhos coletivos, feitos em equipa. O conto vencedor recebe mil euros, o segundo classificado 500 e o terceiro 250 - quantias destinadas ao enriquecimento das bibliotecas das escolas premiadas - e assegura a edição em livro dos trabalhos selecionados.

É um prémio que estimula a criação literária, o desenvolvimento da comunicação escrita e criativa. Este ano, no júri estiveram Gisela Silva, Maria da Conceição Vicente e Marta Madureira. Na primeira edição, lançada em 2008, foram premiados 82 alunos. Desde aí, entre 60 a 80 escolas concorrem a cada edição. “Ao longo destas 11 edições já transformámos em autores de livros e autores de ilustrações mais de 1 200 crianças, já premiámos 60 estabelecimentos de ensino do 1.º Ciclo de todo o país”, revela ao EDUCARE.PT Paulo Rebelo Gonçalves, responsável pela Comunicação e Imagem da Porto Editora. De Portugal e não só, já houve escolas do Luxemburgo e de Moçambique distinguidas.

Os números mostram o impacto da iniciativa e sua importância. Há alunos premiados que já estarão no Ensino Superior, que guardam o livro publicado com o conto da sua turma com orgulho e carinho, que certamente não esquecem o prémio dedicado ao livro, à leitura, à escrita, à ilustração. “Este prémio implica um trabalho bastante apurado dos professores e das escolas porque é um trabalho coletivo. O prémio distingue o esforço que é feito entre colegas na construção de uma história em conjunto e o que isso representa em termos de ligações afetivas, o respeito pelas ideias e pela criatividade do outro”, sublinha Paulo Rebelo Gonçalves.
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