"É fundamental diminuir o número de alunos por turma"

Elsa Barbosa, presidente da Associação de Professores de Matemática, lamenta que alunos, pais e encarregados de educação aceitem, com muita facilidade e "como se fosse uma fatalidade", o insucesso na disciplina. A responsável lembra que é preciso tempo para aprender e ensinar.
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Elsa Barbosa é presidente da Associação de Professores de Matemática desde setembro do ano passado e tem vindo a defender que é preciso limpar a imagem da disciplina e afastar a ideia de que os números são um "bicho-papão". Os alunos têm de ganhar confiança nas suas capacidades e perceber que a exigência faz parte do percurso escolar. De qualquer forma, as medidas do Plano de Ação da Matemática têm dado frutos e melhorado a qualidade do ensino e aprendizagem da disciplina. A responsável realça este percurso e sublinha que os resultados dos exames nacionais demonstram uma evolução positiva.

A responsável não concorda com a possibilidade dos exames serem feitos por uma entidade externa. Na sua opinião, o Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) está a fazer um bom trabalho e deveria, isso sim, ter mais autonomia. E as preocupações dos docentes de Matemática são conhecidas: falta de horas para trabalhar na sala de aula, muitos alunos por turma, desinteresse dos estudantes e ainda pouco tempo para preparar atividades letivas. Elsa Barbosa acredita que esses problemas serão abordados e resolvidos.

Por outro lado, a presidente da APM espera uma avaliação dos professores assente num "modelo justo e transparente". E menos burocrático. "Os professores são uma 'mão de obra' especializada que não deve ser desperdiçada em procedimentos de secretaria e em preenchimentos de documentos desnecessários e pouco úteis", sublinha. Com um matemático à frente do Ministério da Educação, a responsável considera que Nuno Crato é uma mais-valia e espera que a tutela pense a escola como um todo, como uma estrutura que tem de dar resposta às complexidades da sociedade moderna.

EDUCARE.PT: Cerca de 30 mil alunos do 9.º ano tiraram notas inferiores a 30% na primeira fase dos exames nacionais. Na prova do 12.º ano, a taxa de reprovação rondou os 20%. Estes valores, na sua opinião, exigem mudanças nas metodologias de ensino?
Elsa Barbosa: Não, uma vez que, na minha opinião, o exame do 9.º ano do Ensino Básico foi, efetivamente, mais exigente que os exames deste nível, em anos anteriores. Se, por exemplo, compararmos esta prova com o exame do 9.º ano realizado em 2007, este tem um nível de dificuldade ligeiramente superior. No entanto, se compararmos os resultados obtidos num e noutro percebemos que houve uma evolução positiva nos resultados obtidos pelos alunos. Nomeadamente em 2007, a percentagem de positivas foi de 27,2% e em 2011 de 41,6%, o que mostra uma evolução significativa nas aprendizagens dos alunos.

É essencial dizer que as medidas tomadas no âmbito do Plano de Ação da Matemática deram origem a um aumento da qualidade do ensino-aprendizagem, o que resultou numa melhoria dos resultados nos exames. Apesar de ainda não se ter alcançado os resultados desejados, está provado que se continuarmos a trabalhar com condições é possível melhorar os resultados. Em relação à Matemática A, podemos afirmar que os resultados não diferiram muito dos dos anos anteriores, se não considerarmos o ano passado e compararmos com anos transatos é fácil perceber que não existiram alterações significativas.

E: O que, em seu entender, deveria mudar no ensino da Matemática? Os alunos têm noção do grau de exigência da disciplina?
EB: Há muito que defendo que é necessário mais horas para trabalhar Matemática nas salas de aula. Os alunos precisam de tempo para aprender. É também importante que os alunos melhorem a imagem que têm da Matemática, levando-os a ganhar confiança nas suas capacidades. Muitas vezes, é a consciência do grau de exigência da disciplina que os afasta de estudar. Tanto alunos como encarregados de educação aceitam com demasiada facilidade, como se fosse uma fatalidade, o insucesso na disciplina.

Além disso, é fundamental diminuir o número de alunos por turma. É difícil conseguir apoiar 28 alunos simultaneamente. É também necessário que os alunos tomem consciência das suas responsabilidades, assumindo-as, empenhando-se na sala de aula e estudando em casa.

E: Apesar das notas negativas dos exames, tem sublinhado que não houve um retrocesso nos resultados dos testes nacionais. O nível de exigência das provas adequa-se ao que os alunos sabem de facto? Há estudantes que tentam fugir da Matemática...
EB: Considero que ainda há um longo caminho a percorrer no ensino-aprendizagem da Matemática, para que os alunos mudem a sua atitude em relação à disciplina e percam a ideia de que esta é um "bicho-papão". No entanto, reitero que houve uma melhoria em todo o processo. O que aconteceu este ano foi um aumento no nível de exigência das provas de exame, o que não invalida que estes estejam adequados ao exigido nos currículos disciplinares.

E: Como analisa a possibilidade dos exames nacionais serem feitos por uma entidade externa e não pelo GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional)?
EB: Não vejo qualquer ganho nisso, o GAVE tem uma longa experiência adquirida e, na generalidade, tem estado a fazer um bom trabalho. Na minha opinião, em vez de se contratar uma entidade externa, deve dar-se a autonomia necessária ao GAVE.

E: "A Matemática tem um peso terrível na sociedade pela negativa e a verdade é que temos serviço feito." A frase pertence-lhe. Tem garantido que houve uma evolução positiva no percurso da disciplina. O que mudou ao longo dos últimos anos?
EB: Como afirmei anteriormente, ainda hoje a Matemática é vista como uma disciplina muito exigente, só ao alcance de uma minoria. Esta cultura tem que ser modificada. Ainda hoje muitos pais admitem que os filhos tenham classificações negativas a Matemática, porque eles próprios também tinham. Esta situação não se pode manter, por isso não podemos permitir que a sociedade fique a pensar que depois de todas as medidas tomadas com o Plano de Ação da Matemática não se evoluiu nada. Como já expliquei, não nos podemos deixar levar por uma análise simplista dos números, a evolução existe e é inequívoca. O importante é continuar a trabalhar no bom sentido.

E: A comunidade educativa tem consciência desse progresso?
EB: A comunidade educativa não sei, mas penso que os professores de Matemática sim.

E: O ministro Nuno Crato já anunciou mais horas para a disciplina. Mais tempo poderá significar melhores resultados?
EB: Há muito que os professores de Matemática pediam mais horas para a disciplina, pois só assim é possível cumprir o currículo na sua totalidade. Neste contexto, penso que se pode esperar uma melhoria de resultados. No entanto, saliento que as mudanças no ensino não são imediatas, ou seja, dificilmente uma medida tomada este ano "dá frutos" nos exames do próximo ano.

E: Há provas de aferição de Matemática em que é permitida a utilização das máquinas de calcular. Um bom ou mau sistema?
EB: A calculadora, como qualquer instrumento utilizado em sala de aula, precisa de ser utilizada adequadamente, tal como é referido no atual programa de Matemática do Ensino Básico. A calculadora não deve ser usada para a realização de cálculos imediatos ou em substituição do cálculo mental. Dependendo do tipo de questões colocadas na prova pode ou não fazer sentido a sua utilização. O seu uso é particularmente importante na resolução de problemas e na exploração de situações em que os cálculos e os procedimentos de rotina não constituam um objetivo prioritário de aprendizagem.

E: A utilização das calculadoras tornou-se, na sua opinião, um ato banal ou tem havido bom senso neste procedimento?
EB: É difícil responder a esta questão, mas penso que, por vezes, há um uso abusivo das calculadoras por parte dos alunos. Muitas vezes, utilizam a calculadora em qualquer circunstância, o que pelas razões referidas não está correto. O que é fundamental, e que nós temos defendido até aqui, é que a calculadora deve servir para permitir aos alunos ir mais longe na resolução de problemas e na exploração de situações onde os cálculos são muito exigentes e, por isso, limitativos para a exploração da situação em causa por parte dos alunos.

E: O seu colega Miguel Abreu, da Sociedade Portuguesa de Matemática, afirma que "o atual sistema de ensino faz muito pouco pelos alunos com mais talento". Concorda com esta visão?
EB: Concordo totalmente. O ensino no nosso país está essencialmente destinado a alunos medianos, esquecendo-se dos melhores alunos, e dos piores também. É preciso encontrar formas para se trabalhar com estes alunos. Os melhores alunos precisam de tempo e de atenção para poderem chegar mais longe e os alunos com mais dificuldades precisam de espaço e de apoio para que possam ultrapassar essas suas dificuldades.

E: Quais as principais preocupações que os professores de Matemática têm feito chegar à APM?
EB: A falta de horas para trabalhar Matemática na sala de aula, o elevado número de alunos por turma, o desinteresse dos alunos pela escola, o excesso de burocracia nas escolas e, consequentemente, a falta de tempo para preparar as atividades letivas e para refletir sobre a sua própria prática.

E: E há formas de resolver essas questões?
EB: Sim. A primeira questão, atualmente, está, pelo menos, minimizada. Quanto às outras medidas, a mais difícil de concretizar é a diminuição do número de alunos por turma, uma vez que esta acarreta um aumento da despesa. Quanto à desburocratização da escola, na minha opinião, não é difícil e é fundamental que aconteça. Os professores são uma "mão de obra" especializada que não deve ser desperdiçada em procedimentos de secretaria e em preenchimentos de documentos desnecessários e pouco úteis.

E: O que espera do novo sistema da avaliação da classe docente? O que poderia ser diferente?
EB: Espero essencialmente que promova o desenvolvimento profissional do professor e que seja um modelo justo e transparente. Fundamentalmente tem de ser menos burocrático; a avaliação dos professores não pode "tomar conta da escola". É ainda importante que os avaliadores tenham competência para avaliar.

E: Quais as expetativas em relação ao novo ministro? Nuno Crato é um matemático, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. Esse conhecimento da área poderá ser uma mais-valia?
EB: Para a disciplina de Matemática é, com certeza, uma mais-valia, mas é preciso ter a consciência de que a Escola não tem só a disciplina de Matemática. Espero que o atual ministério consiga pensar a Escola como um todo, uma Escola que responda às necessidades da generalidade dos alunos. A Escola de hoje tem de ter em conta a complexidade da sociedade atual.
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